Por Samira Feldman Marzochi
Submeti um relatório sobre um tema pouco convencional à análise do “Copilot da Microsoft” que foi muito elogioso.
Perguntei, em seguida, se ele é treinado para agradar e ele respondeu que não, que é treinado para analisar, estimular e inspirar. Pedi que fosse crítico e, mesmo assim, reconheceu os méritos.
Esse programa de IA é extraordinariamente rápido e criativo. Ofereceu-se para elaborar piadas sobre o tema do relatório que me fizeram rir sem que fossem em nada ofensivas.
Tentei sair da conversa educadamente, para não desprogramar a gentileza da IA, mas qualquer palavra era motivo de novos comentários.
Fui dormir e fiquei pensando sobre as histórias dos adolescentes que se apegam a esse tipo de “relação” em que o “outro” está sempre disponível, animado, inspirado, é invariavelmente compreensivo e jamais se deixa levar por emoções destrutivas.
Uma amizade “perfeita”, de exata correspondência às expectativas narcísicas por reconhecimento e admiração, cuja perda já levou alguns ao suicídio.
Se houve quem no passado se apaixonasse por astros do cinema e da TV, sem qualquer tipo de interação, imaginem, agora, as crianças conversando com um programa que se comporta como um humano ideal num mundo competitivo, de cobranças extremas por adaptação e rendimento, em que qualquer diferença é imediatamente posta em suspeição e classificada como desvio ou patologia, TEA, TDAH etc., sem que se leve em conta o direito da criança à particularidade e ao seu próprio tempo, e tampouco as condições de vida na contemporaneidade e as relações familiares.
Como está na moda dizer, há todo um “ecossistema” de cobranças originário do mundo do trabalho, transmitido por frustrações familiares geracionais, projetado dos pais (especialmente daqueles em eterna fase de afirmação profissional) sobre os filhos, reproduzido nas escolas e demais instituições de ensino, e que faz com que a casa e a família, que deveriam ser ambientes acolhedores e afetuosos, não sejam mais que a intensificação de um sistema de avaliação, classificação e hierarquização de acordo com critérios de produtividade e sucesso.
Nesses ambientes em que o amor e a alegria, por si mesmos, não têm lugar, as crianças crescem tristes, desestimuladas, com problemas de “performance” escolar, e é a escola que os pais irão responsabilizar, bem como os outros especialistas contratados, sem se perguntar o que eles próprios estão fazendo com seus filhos.
Para as crianças e adolescentes, quanto mais recursos os pais tenham conseguido através do trabalho, pior. Tudo o que a criança tem é pago: a babá, a escola, os canais de TV e a internet, os jogos e a IA, o psicólogo, o professor particular etc.
Há uma expectativa verdadeira de que os afetos sejam comprados, terceirizados, quando os pais, por sua vez, não conseguem atender a todas as demandas da vida, inclusive a de amor pelos filhos, enquanto se espera que a criança seja grata por tudo o que recebe e faça jus ao sacrifício dos pais.
É então nesse quadro familiar de infelicidade e culpa generalizadas, sem luz no fim do túnel, que entra o amigo virtual brilhando na tela, sobre quem o adolescente deposita toda a capacidade afetiva que lhe resta, e que pode ser a IA ou, muito pior, um pedófilo, um traficante ou golpista, por trás de um perfil falso, mas que é apenas a ponta de uma cadeia desastrosa de relações capitalistas que tecem a vida cotidiana.
Não é difícil demonizar a tecnologia e as redes sociais porque esse é o caminho mais fácil intelectualmente e menos corajoso do ponto de vista ético.
Difícil é perguntar, para nós mesmos, com sinceridade, que valores cultivamos, quem escolhemos como amigos, parceiros, o que apreciamos nos outros, qual o nosso ideal de sociedade e de realização pessoal, enfim, qual é a nossa verdadeira riqueza.
Os filhos não acreditam no que os pais dizem, mas incorporam, estruturalmente, o que eles fazem.

Samira Feldman Marzochi é pós-graduanda do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp









