A falta que faz o Brizola!

Por Sônia Castro Lopes 

Os Irmãos Metralha, particularmente o 01 e o 03, participaram nesta última semana da Conferência Política da Ação Conservadora (CPAC), grande evento político organizado pelos conservadores dos Estados Unidos.

Este ano a CPAC ocorreu na cidade de Grapevine, no Texas, no período de 25 a 28 de março e reuniu políticos, empresários e ativistas alinhados a Donald Trump e a outros líderes da direita internacional.

Com um discurso de 15 minutos, o pré-candidato à Presidência e senador da República desferiu ataques violentos ao presidente Lula e ao Judiciário brasileiro.

Ao presidente coube a acusação de defender facções criminosas como o Comando Vermelho e o PCC, de privilegiar relações com países comunistas como Cuba, Venezuela, China e Irã e de adotar uma política externa totalmente avessa aos interesses dos Estados Unidos.

Acusações evidentemente levianas, já que tudo foi feito sem apresentar provas. Ao declarar que seu pai, o ex-presidente que agora se encontra em prisão domiciliar, foi o mais fiel aliado de Trump, o senador reafirmou o alinhamento Brasil-EEUU e reforçou a estratégia de aproximação com lideranças da direita internacional.

Reproduzo aqui partes da fala do 01 numa declaração explícita de traição à soberania do Brasil.

“Esta é a encruzilhada que a América enfrenta: ou vocês têm o aliado mais poderoso do continente, ou um antagonista que se alinha com adversários americanos e torna sua política para a região impossível” (…) O Brasil pode ser aliado dos EUA fornecendo minerais raros para reduzir a dependência norte-americana da China. (…) O maior líder político do meu país está na prisão por defender nossos valores conservadores sem medo e por se opor ao sistema (…) Meu pai lutou contra a tirania da covid, contra os cartéis de drogas, contra os interesses da elite global, contra a agenda ambiental radical, contra a agenda woke que destruiu famílias. Acima de tudo, ele lutou pela liberdade (…). Meu pai está na prisão pelas mesmas crenças que vocês possuem, mas seu sacrifício não será em vão. No próximo ano, quando eu retornar a este palco como presidente do Brasil, não estaremos apenas celebrando mais uma vitória eleitoral. Estaremos celebrando o nascimento da aliança conservadora mais forte da história do Hemisfério Ocidental,o início de uma nova era onde a liberdade vence (…) E termina com o fatídico apelo religioso: “Deus abençoe a América. Deus abençoe o Brasil”.

O que fazer diante de toda essa vergonha alheia? Será que a AGU não tomará providências contra essa canalhice? Onde está a SECOM que não elabora estratégias de ataque a esses vermes?

O discurso do 01 soa como música nos ouvidos do gado que o apóia, com ampla repercussão nas redes sociais.

E o governo não se defende com receio de fazer campanha antecipada. O que eles estão fazendo senão isso?

Quem cala, consente, diz o antigo ditado. Por sua vez, o Judiciário se apequena diante das acusações fundamentadas ou não sobre suas atitudes antiéticas e recebe críticas incessantes por parte da imprensa corporativa.

Hoje, domingo (29) nenhum dos jornais mais lidos destaca como deveria a participação do senador 01 na tal Conferência.

Em contrapartida, O Estadão exibe na primeira página o fato de a mulher de Moraes ter recebido do Master 645 vezes mais que os outros advogados.

O artigo de Gustavo Zedel, na Folha de São Paulo, faz uma referência ao “bolsonarismo moderado” do 01 que esbarraria no projeto de seu pai e no seu passado de corrupção.

A tentativa desse jornal em bater no bolsonarismo não convence e apenas tem a intenção de desfazer a imagem, já consolidada, do veículo que defende uma candidatura de direita, mesmo que seja necessário apoiar o 01 ou qualquer outro extremista que se oponha a Lula no próximo pleito.

Tanto a Folha quanto O Globo publicam a matéria de Elio Gaspari (que já foi bem melhor) sob o título “Lula está tonto” afirmando que o governo completou três anos sem ter fixado uma marca.

A meu ver, a principal marca que o governo exibiu nesses anos foi a denúncia de traição por parte dos Irmãos Metralha e a afirmação da soberania do país registrada, inclusive, nos bonés usados por ele, seus ministros e assessores. E por que parou?

Receio de acusação por campanha antecipada? Parece que depois do episódio do desfile de carnaval o governo recua assustado, temendo a inelegibilidade de seu líder.

Mas não haveria estratégias inteligentes para detonar essa série de mentiras e bravatas que seu provável concorrente e apoiadores destilam pelas redes sociais?

Nesse momento não posso deixar de pensar na saudade que sinto do Brizola! Lembro de quando ele, há mais de trinta anos, amparado pela justiça, colocou a TV Globo de joelhos ao ganhar o direito de resposta aos ataques da emissora, após dois anos de luta nos tribunais.

A leitura do texto por um Cid Moreira constrangido no telejornal de maior audiência do país foi um soco no poder dos meios de comunicação privados, ali representados pela Rede Globo.

Vejamos um trechinho do texto: “Tudo na Globo é tendencioso e manipulado. (…) Não reconheço na Globo autoridade em matéria de liberdade de imprensa, e basta para isso olhar a sua longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura que por 20 anos dominou o nosso país”.

Leonel Brizola foi um dos principais defensores da soberania nacional brasileira, pautando sua trajetória no nacionalismo trabalhista, defesa dos recursos naturais (petróleo, energia), reforma agrária e educação pública.

Ele combatia a influência estrangeira ao focar no desenvolvimento nacional e no empoderamento do povo brasileiro como base da democracia.

Após governar o Rio de Janeiro por duas vezes e ter uma votação expressiva em 1989, sofreu a derrota de ter se posicionado em quinto lugar nas eleições presidenciais de 1994, quarto lugar na prefeitura do Rio em 2000 e sexto lugar na eleição para o senado em 2002.

Analistas políticos atribuem esses reveses ao fim do “socialismo real” que enfraqueceu o contexto geopolítico no qual Brizola se inseria.

O crescimento de novos partidos, lideranças e movimentos de esquerda acabaram por absorver parte do capital eleitoral brizolista. Hoje o PDT não lembra nem de longe o partido criado por Brizola.

Com seu “socialismo moreno” o velho Briza construiu uma identidade para o seu partido que buscava, antes de tudo, a soberania nacional.

Apesar de o contexto internacional ser outro, nunca é demais nos lembramos de Brizola como um dos principais nomes da resistência democrática brasileira.

PS: Antes que me chamem de saudosista, anacrônica e destituída de visão geopolítica, quero declarar que fui eleitora de Brizola até o primeiro turno de 1989 e faço parte do contingente de esquerda absorvido especialmente pelo PT, partido ao qual atualmente sou filiada.

Sonia Castro Lopes é historiadora de formação e professora (aposentada) da UFRJ

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