O evangelho segundo o bolsonarismo

Por Júlio Benchimol Pinto 

Agora não basta ter fé. Tem que ter motorista milionário.

A Polícia Federal informa que assessores de Sóstenes e Jordy movimentaram R$ 18 milhões.

Repito, para não parecer erro de digitação: dezoito milhões.

E um detalhe pitoresco surge no meio da liturgia: o motorista de Sóstenes, que também era assessor, aparece como personagem central na engrenagem financeira.

Um chofer ungido pelo empreendedorismo milagroso. Dirige de dia, movimenta milhões à noite. Aleluia.

Enquanto isso, o deputado-pastor explica que R$ 430 mil em dinheiro vivo encontrados em endereço ligado a ele são coisa banal, fruto da venda de imóvel.

Nada a temer. Tudo muito organizado. Lacrado. Quase um cofre devocional. O problema, segundo ele, é que a Polícia Federal resolveu trabalhar.

E aí entra o coro evangélico-bolsonarista em uníssono. Não se fala em contratos suspeitos. Não se fala em fluxo financeiro incompatível. Não se fala em motorista-assessor multimilionário.

Fala-se em perseguição, Venezuela, ditadura, pescaria probatória, Alexandre de Moraes, Lula, o diabo e, se bobear, o anticristo.

É sempre assim. Quando o dinheiro aparece, a culpa é da política. Quando a PF investiga, o crime vira fé.

Quando o esquema vem à tona, chamam de complô. Nunca é corrupção. Nunca é desvio. Nunca é o mandato virando negócio privado. É sempre uma batalha espiritual contra a contabilidade.

O bolsonarismo prometeu acabar com a corrupção. Criou foi um ecossistema.

A bancada evangélica prometeu elevar a moral pública. Elevou o cinismo a nível industrial.

Agora temos até motorista bilionário de gabinete – o novo milagre brasileiro, oficialmente registrado nos autos.

Não há condenação ainda. Estado de Direito segue valendo.

Mas uma coisa já está clara: se isso é perseguição, alguém precisa explicar por que só perseguido anda com tanto dinheiro, tantos contratos esquisitos e tantos assessores milionários.

Quando gritarem Deus, olhe o extrato. Quando falarem família, confira a planilha. E quando disserem que não têm nada a temer, pergunte apenas isto: quem é mesmo o motorista?

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