Texto e arte – Beatriz Haddad –
Jornal da USP
Arno Preis e João Leonardo da Silva Rocha, vítimas da ditadura militar brasileira, foram homenageados no Largo São Francisco nesta segunda-feira, dia 11 de agosto
“Ao fazermos essa diplomação póstuma, que levou muito tempo para ser cumprida, nós estamos querendo dizer que não aceitamos mais que a barbárie da ditadura se repita na Universidade nem neste país”, afirmou a vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, na abertura da cerimônia de titulação honorífica dos estudantes da Faculdade de Direito (FD), Arno Preis e João Leonardo da Silva Rocha, realizada nesta segunda-feira, dia 11 de agosto.
A data representou o marco de 198 anos de Criação dos Cursos Jurídicos no Brasil. A homenagem ocorreu na Sala dos Estudantes, no Largo São Francisco, como parte do projeto de Diplomação da Resistência – uma iniciativa da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP) e da Pró-Reitoria de Graduação (PRG).
“A Universidade de São Paulo acolheu esse projeto, promovido pelas duas Pró-Reitorias, tendo a clareza de que não podíamos nos omitir diante da barbárie vivida no período da ditadura. É um dever de todas as pessoas enfrentar o passado do nosso país”, ressaltou Maria Arminda. “Esperamos que esses eventos sejam exatamente um recado para que recusemos todas as formas de barbárie e de afastamento da liberdade e do Estado Democrático de Direito. Não há nenhuma outra possibilidade de uma vida digna e civilizada, caso nossa história resvale para o autoritarismo, para o arbítrio e para a recusa das normas civilizatórias”, finalizou a vice-reitora, emocionada.
Além dos diplomas póstumos concedidos a Arno Preis e João Leonardo da Silva Rocha, foram inauguradas placas em homenagem aos estudantes no Pátio das Arcadas. O diretor da FD, Celso Campilongo, enfatizou a importância das diplomações como ato de repúdio ao período do regime militar: “Existem, por trás de todas essas incontáveis gerações, décadas de professores, alunos e estudantes – desta e de outras unidades – que estão presentes neste auditório para prestar uma solidariedade em relação a esses estudantes que foram vítimas da ditadura militar”.
Para além das Pró-Reitorias, o evento também envolveu a Comissão de Direitos Humanos, o Centro Acadêmico XI de Agosto e a Associação dos Antigos Alunos das Arcadas.
Também estiveram presentes figuras como os ex-ministros Almino Afonso (Trabalho e Emprego), Flavio Bierrenbach (Superior Tribunal Militar), José Carlos Dias (Justiça), Paulo Vannuchi (Secretaria de Direitos Humanos) e José Dirceu (Casa Civil); a advogada Taís Gasparian, o ex-secretário de Justiça de São Paulo, Belisário dos Santos Junior, e o ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh.
A pró-reitora de Inclusão e Pertencimento, Ana Lúcia Duarte Lanna, destacou a importância da memória como mobilizadora para o presente na construção do futuro: “Ela é um ato de cultura, de política e de resistência e tem sido muito importante para que a Universidade reconheça a dimensão que esses assassinatos produziram na interrupção da carreira dos seus estudantes”.
A Faculdade de Direito é a nona unidade da USP a homenagear seus estudantes mortos pela ditadura militar no Brasil.
“A Universidade reconhece, formal e institucionalmente, a conclusão da graduação desses estudantes. Esses diplomas formalizam como se, de fato, Arno Preis e João Leonardo Rocha tivessem concluído sua graduação. Isso, para nós, tem um ato de legalidade democrática e de reafirmação da potência da memória e do nosso compromisso com o futuro do País”, completou Ana Lanna.
O pró-reitor de Graduação, Aluísio Segurado, salientou a relevância da instituição no movimento de resistência:
“A Faculdade de Direito do Largo São Francisco, ao longo de sua história, destaca-se por ter se tornado muito além de um espaço acadêmico de excelência na formação de profissionais para o mundo jurídico, constituindo-se, também, como um território simbólico da resistência democrática”.
A iniciativa de Diplomação da Resistência foi lançada em dezembro de 2023 e, desde então, já homenageou 29 dos 32 estudantes assassinados. “Arno e João Leonardo tiveram seus sonhos e projetos de vida prematuramente interrompidos, vítimas da arbitrariedade e violência perpetradas pelo regime ditatorial que assumiu o poder no Brasil há pouco mais de 60 anos.
A violência que resultou de forma extrema na perda prematura de suas vidas e de outros 32 jovens estudantes da USP, em decorrência de suas convicções políticas e de sua militância no movimento estudantil da nossa Universidade, é inaceitável”, lamentou Segurado.
Fotomentagem de abertura feita com imagens do Memorial de Resistência de São Paulo











