Por Camilo Vannuchi
A Rua Frei Tito é uma coisinha de nada na Vila Leopoldina.
Sem saída, um único quarteirão, coisa de 100 metros, fechada com um portão elétrico, motivo pelo qual nunca andei por ela.
Só a vejo de fora, da esquina com a Av. Imperatriz Leopoldina.
Até outro dia, coisa de três ou quatro anos atrás, no máximo, esta ruazinha de nada se chamava Dr. Sérgio Fleury.
Sim, uma homenagem ao chefe do Dops paulista, líder do Esquadrão da Morte, responsável pela tortura e morte de dezenas, entre eles Carlos Marighella. Cássio Gabus Mendes no filme “Batismo de Sangue”. Bruno Gagliasso em “Marighella”. Ernani Moraes em “Lamarca”.
Foi uma luta para tirar o nome de um torturador dessa placa.
Tinha morador que preferia deixar como estava. Imagina a confusão com os correios, as entregas.
Orlando Silva, ex-vereador e hoje deputado, foi um dos responsáveis pela proeza. Haddad foi outro.
Quando prefeito, sancionou a lei que impede violadores de direitos humanos de serem homenageados com nomes de rua. E orientou a substituição.

A escolha recaiu em Frei Tito, frade dominicano que foi torturado pelo próprio delegado Fleury, libertado das masmorras entre os presos trocados por um embaixador, em 1970, exilado na França até tirar a própria vida, em 1974, assombrado pelos fantasmas de Fleury e seu bando.
Ainda tem mais ruas, avenidas e pontes para rebatizar. E muita gente boa para colocar no lugar.
Que venha depressa. Hoje a Rua Frei Tito, que já foi minúscula, ficou enorme.

Camilo Vannuchi é jornalista, escritor e professor
Nota da edição
Quem foi Frei Tito de Alencar Lima
Frei Tito de Alencar foi frade católico brasileiro. Assumiu a direção da Juventude Estudantil Católica em 1963 e foi morar no Recife.
Mudou-se para São Paulo para estudar Filosofia na Universidade de São Paulo (USP). Em outubro de 1968, foi preso por participar do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna (SP).
Fichado pela polícia, tornou-se alvo de perseguição pela repressão militar.
Preso em novembro de 1969, em São Paulo, acusado de oferecer infraestrutura a Carlos Marighella, Tito foi submetido à palmatória e choques elétricos, no Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Em fevereiro do ano seguinte, quando já se encontrava em mãos da Justiça Militar, foi retirado do Presídio Tiradentes e levado para a sede da Operação Bandeirantes (Oban).
Durante três dias, bateram sua cabeça na parede, queimaram sua pele com brasa de cigarros e deram-lhe choques por todo o corpo, em especial na boca, “para receber a hóstia”. Os algozes queriam que Tito denunciasse quem o ajudara a conseguir o sítio de Ibiúna para o congresso da UNE e assinasse depoimento atestando que dominicanos haviam participado de assaltos a bancos. Tito tentou o suicídio e foi socorrido a tempo no hospital militar, no bairro do Cambuci.
Na prisão, escreveu sobre a sua tortura. O documento correu pelo mundo e se transformou em símbolo da luta pelos direitos humanos. Em dezembro de 1970, incluído na lista de presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Tito foi banido do Brasil pelo governo Médici e seguiu para o Chile. Sob a ameaça de novamente ser preso, fugiu para a Itália. De Roma, foi para Paris, onde recebeu apoio dos dominicanos. Traumatizado pela tortura, Frei Tito submeteu-se a um tratamento psiquiátrico. Nas ruas da capital francesa, ele “viu” o espectro de seus torturadores e cometeu suicídio.
No dia 10 de agosto de 1974, um morador dos arredores de Lyon encontrou o corpo de Frei Tito suspenso por uma corda pendurada em uma árvore. Foi enterrado no cemitério dominicano do Convento Sainte-Marie de La Tourette, em Éveux.
Em 1983, o corpo de Frei Tito chegou ao Brasil. Cercado por bispos e um numeroso grupo de sacerdotes, Dom Paulo Evaristo Arns repudiou a tragédia da tortura em missa de corpo presente, acompanhada por mais de 4 mil pessoas. A missa foi celebrada em trajes vermelhos, usados em celebrações de mártires.










