Por Jorge Antonio Barros – QuarentenaNews
Falar dos anos 1960 sem mencionar Brigitte Bardot (1934-2025) é cometer negligência histórica e cinematográfica.
Ela não foi apenas uma atriz; Bardot foi um evento sísmico, um divisor de águas cultural. Antes dela, o cinema se dividia entre as loiras gélidas de Hitchcock e as ingênuas americanas.
Bardot chegou como um furacão de sensualidade crua, indomável, definindo a “sex kitten”, a gatinha sexy, e tornando-se o rosto — e o corpo — da revolução sexual antes mesmo que o termo se popularizasse.
Com “E Deus criou a mulher”, de 1956, Bardot conquistou as telas do mundo inteiro. E o cinema francês criou seu próprio “sex simbol”, assim como o americano tinha Marylin Monroe em “O pecado mora ao lado”, de 1956.
A importância de Bardot para o comportamento da época foi imensurável. Ela libertou a feminilidade dos espartilhos morais dos anos 1950.
Com seus cabelos desalinhados, pés descalços e uma busca impenitente pelo prazer, ela personificou uma liberdade hedonista que aterrorizava conservadores e eletrizava a juventude.
No cinema, embora muitos diminuam seu alcance dramático, sua presença em tela era incandescente. Em obras-primas como “O Desprezo” (Le Mépris, 1963), de Godard, ela provou que não precisava “atuar” no sentido tradicional; ela só precisava ser.
Ela era a anti-estrela, uma força da natureza capturada pelas lentes de Vadim, Clouzot e Malle.
Essa sede de autenticidade e fuga a trouxe ao Brasil em 1964. Escapando do sufocante circo midiático europeu, Bardot encontrou refúgio em uma pacata vila de pescadores: Armação dos Búzios.
Sua passagem pelo Rio foi lendária. Não foram só férias, mas uma performance de vida autêntica.
Ao caminhar descalça naquelas praias, acompanhada de seu namorado brasileiro Bob Zagury, ela transformou Búzios, colocando o vilarejo no mapa mundi do turismo e provando o poder aterrorizante de sua celebridade em alterar a própria geografia.
Em sua homenagem, Búzios lhe deu uma estátua e o nome da principal orla da cidade fluminense.
Contudo, contemplar o legado de Bardot hoje exige um desconfortável “split screen”, uma divisão de telas mental.
A ícone que simbolizou a libertação progressista nos anos 1960 tornou-se, nas décadas seguintes, uma voz estridente da extrema-direita francesa.
Seu louvável ativismo animal foi tragicamente eclipsado por posicionamentos políticos ignorantes, marcados por xenofobia, racismo e apoio a figuras como Jean-Marie Le Pen. É o triste terceiro ato de quem um dia representou horizontes abertos.
Precisamos sustentar ambas as verdades: admirar a sombra revolucionária que ela projetou na tela dos anos 1960, enquanto lamentamos profundamente a figura reacionária que a projeta hoje, quando nos deixa.
Bardot é o lembrete de que ícones nem sempre envelhecem na mesma direção da história que ajudaram a escrever. Regina Duarte, a ex-namoradinha do Brasil, teve em quem se inspirar.









