Vim das selvas

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Por Adriana do Amaral

Quando o presidente da Argentina, Alberto Fernández, disse que “os brasileiros vieram da selva”, muita gente se revoltou (leia abaixo). Eu, não.

Apesar de ter o DNA genérico, como boa parte dos brasileiros cuja nação é globalizada por “natureza”, eu me orgulho e me sinto honrada em saber que o Brasil tem como raiz da sua formação os povos indígenas.  O Brasil e os brasileiros não souberam honrar o seu povo originário, o seu passado de resistência à exploração e permitem que os povos originários trilhem um caminho de abandono e um presente de exclusão e ameaça de  genocídio.

Desde o dia 8 de junho os indígenas tomaram Brasília, no protesto #LevantepelaTerra. Mais de 40 etnias, cerca de 800 indígenas, reivindicam a saída do Presidente da #Funai (Fundação Nacional do Índio), Marcelo Xavier e a anulação do #MarcoTemporal. Mas as lutas são múltiplas e passa pelo direito à vida e identidade.

O PL 490 visa à legalização da invasão e tomada de posse dos territórios indígenas pelos grileiros, madeireiros e grandes fazendeiros. Caso aprovado, seria o fim da demarcação das terras indígenas e o rompimento com a História do povo brasileiro. Durante uma semana as liderança indígenas aguardaram uma reunião oficial, ignorados pelas autoridades, mas ameaçados pela Polícia Militar, política nacional e a mídia hegemônica.

Dia após dia os conflitos se intensificaram, tanto na capital federal como em regiões do Brasil. “Estamos pedindo socorro”.  “Os ataques e invasões só aumentam”. “Nesse momento, todo mundo que se opõe ao governo é perseguido pela Funai”, denunciam os líderes indígenas.

Na quarta-feira (16), a comunidade Korekorema mais uma vez foi alvo de ataques dos garimpeiros, em Roraima, e só restou aos povos Yanomami e Ye’kwana se refugiarem na floresta. Uma dia depois crianças e jovens Yanomamis foram ameaçados enquanto pescavam. A canoa deles foi atacada por garimpeiros em pleno rio Uraricoera. Não são casos isolados, mas prática de bandidos, que remete a 500 anos passados.

Pior ainda aconteceu em Brasília, onde os manifestantes, pacíficos, foram recebidos com balas de borracha de gás lacrimogênio pela Polícia Militar. Um confronto desigual dado ao poder de força inconcebível. Os indígenas apenas queriam entrar na sede da Funai, que deveria ser a casa deles na capital federal e onde deveriam sentir representados.

Outra violência se deu, de forma legal, no mesmo dia, quando o #TRE (Supremo Tribunal Federal) retirou da pauta o julgamento do caso Marcos  Xukuru, prefeito eleito porém não empossado na cidade pernambucana de Pesqueira. Cacique do povo Xukurom há duas décadas, ele foi eleito em 2020, mas sofreu perseguição étnica e perdeu o cargo para a atual prefeita, derrotada nas urnas, mas que foi oficialmente reeleita.

O processo envolve racismo e deturpação da lógica, quando de vítima ele passou a réu. Isso, porque em 2003 resistiu a um atentado contra a própria vida e a vida do seu povo e foi julgado por atentado à ordem pública. Na quinta ( 17) outro impasse. quando os Pataxos ocuparam a sede da Funai em Porto Seguro.

As denúncias vão da necessidade da demarcação das terras ao assassinato do povo indígena e abandono frente à ameaça da #Covid-19

 

Charge: #NandoMotta

Os indígenas lutam em desigualdade de condições numéricas, de força e de voz, abandonados pela sociedade brasileira à própria sorte.  A Frente de Proteção Etnoambiental Yanomani está atenta, denunciando as ameaças tanto de à 1a Brigada de Infantaria da Selva quanto ao Ministério Público Federal de Roraima. O que vemos é um descaso generalizado das autoridades.

“Causa repúdio que o órgão indigenista impute aos indígenas atitudes irresponsáveis e antidemocráticas”, denunciam os porta-vozes. O Conselho Nacional de Direitos Humanos publicou, em nota, que a falta de diálogo “não sendo compatíveis com o Estado Democrático de Direito. Repudia o uso das forças policiais sob alegação de garantir da ordem pública e patrimonial em detrimento dos direitos fundamentais previstos na Constituição.

A luta não é apenas para impedir o marco legal da demarcação dos povos indígenas, que permite liberar os territórios indígenas para a exploração comercial, mas também pela dignidade humana. Ao longo da #pandemia da #Covid-19, mais de cinco mil indígenas adoeceram e mais de 700morreram. A fome e patologias associadas também ameaçam a vida desses brasileiros cerceados de direitos.

De acordo com o IBGE, as localidades indígenas estão distribuídas em 827 municípios – desse total, 632 são terras oficialmente delimitadas. Há ainda 5.494 agrupamentos indígenas, 4.648 dentro de terras indígenas e 846 fora desses territórios.

A #Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) revela que a incidência de mortalidade entre indígenas é duas vezes maior do que a registrada entre o restante da população brasileira. No início de 2021 somava 927 mortes e mais de 45 mil casos, afetando a população de 161 povos indígenas.

A #Fiocruz (Fundação Osvaldo Cruz) confirma que o número relativo de pacientes indígenas internados e mortos é a maior do país, somando 48% de mortes do total. Os assassinatos dentro e no entorno das terras indígenas também crescem em consequência das invasões. Ou seja, o genocídio é real. Não aprendemos as lições do passado…

O canto dos indígenas emociona pela resistência. As vestes mostram uma cultura ignorada. E eles somarão às vozes que estarão nas ruas, hoje, durante o #19J. Uma luta que extrapola a política, mas dela depende o equilíbrio da humanidade.

Nota da Autora:

“Os mexicanos vieram dos indígenas, os brasileiros da selva, e nós chegamos de barcos, vindos da Europa”, disse o presidente argentino. Não sabemos com exatidão o que ele quis dizer com essa frase infeliz, já que trata-se de um político de esquerda, porém ele equivocou-se quanto à referência, referindo-se ao escritor Octavio Paz, quando na verdade trata-se de um versão da canção de autoria  Litto Nebia.

 

foto: reprodução Instagram #SoniaGuajajara

Nota da Autora 2:

Matéria produzida com informações divulgadas pela primeira indígena candidata à vice-presidenta pelo PSOL,  Sonia Guajajara.

 

 

 

 

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