Construir Resistência
Crédito: arquivo pessoal

Uma análise das garotas youtubers como construtoras de memória

Patricia Garcia Costa

 

Resumo

O objetivo do artigo foi fazer uma reflexão de como os meios de comunicação, em especial, a Internet, influenciam na nossa memória individual, bem como ajudam a moldar o que entendemos por memória coletiva. Para isso, traremos alguns apontamentos sobre o conceito de memória como referencial teórico e método de análise, e dentro dessa perspectiva da memória observaremos o papel das youtubers evangélicas no processo de formação das memórias.

Palavras-chave: Memória; Youtubers Evangélicas; Formadoras de Opinião; Mídia.

 

Introdução

A crescente quantidade de denominações e grupos religiosos nasce das múltiplas interpretações que o público faz do texto bíblico. Por conta dessa vasta interpretação, observa-se um grande número de pessoas, em especial, mulheres jovens, buscando as redes sociais à procura de fãs, ou melhor, de pessoas que assistam e curtam os seus vídeos. O aumento de pessoas no Facebook e assíduos no YouTube é o espaço privilegiado para os jovens apresentarem a sua proposta do evangelho[2].

Estes novos “ídolos” valorizam a conectividade, o pertencimento à comunidade, a criação de conteúdos e redefinem o conceito de cultura, especialmente o que se entendia por entretenimento. Hoje, o objetivo não é somente consumir conteúdos, busca-se interagir, opinar, dizer se agrada ou não.

Chama a atenção que entre estes formadores de opinião se encontram várias mulheres, algumas delas revestidas do caráter de celebridades/autoridades e que vem ganhando destaque neste processo de visibilidade do neoconservadorismo evangélico. Por este conceito de neoconservadorismo, Cunha esclarece: “O “neo” se deve à visibilidade mais intensa de lideranças evangélicas que se apresentam como pertencentes aos novos tempos, em que a religião tem como aliados o mercado e as tecnologias, mas que se revelam defensoras de posturas de um conservadorismo explícito. (CUNHA, on-line)[3]

O objeto de análise foi escolhido dada a sua importância na área da Comunicação e Religião. Os youtubers são assistidos por milhares de pessoas: crianças, jovens, adultos, idosos. Eles não são apenas a febre do momento, mais uma nova categoria de entretenimento que tem se consolidado no mercado, graças ao grande público que tem alcançado. São formadores de opinião, influenciadores digitais, músicos, humoristas.

A relevância do tema se dá pelos números que se mostram nas pesquisas, reconhecendo que o universo religioso tem crescido vertiginosamente e junto com ele o acesso às redes sociais. Segundo o Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 64,6% da população brasileira é católica e 22,2% é evangélica, somando um total de 60 milhões de pessoas. Outra pesquisa da ESPM divulgou que o mercado de produtos evangélicos movimentou no ano passado 12 bilhões de reais[4]. Já o Jornal o Globo afirma que os brasileiros gastam em média 650 horas por mês nas redes sociais.[5]  A Pesquisa do Google 2014 revela que somos 70 milhões de espectadores de vídeo on-line no Brasil, em média 8 horas semanais de vídeos na web. Este grupo vem crescendo a cada dia e os números são realmente impressionantes:

67% dos membros da ‘geração C’ colocam suas fotos na Internet;

85% veem o que seus amigos e colegas pensam antes de tomar uma decisão;

88% têm um perfil em uma rede social;

65% o atualizam diariamente;

91% dormem do lado do smartphone[6].

Este artigo reflete sobre o discurso propagado por uma garota youtuber, Priscilla Alcântara, escolhida especialmente por ser bastante conhecida do público. Priscilla apresentou o programa “Bom dia & Cia”, no SBT. Esta youtuber possui mais de 1 milhão de inscritos e assume publicamente fazer parte do meio gospel há um bom tempo. Ela é convidada para diversos eventos de igrejas e já lançou alguns álbuns com suas músicas religiosas. Toda essa repercussão levou Priscilla a escrever um livro chamado “O Livro de Tudo” pela editora Ágape. O vídeo escolhido para ser analisado traz o título: “10 fatos sobre Jesus”, possui 17’58” e pode ser encontrado em link disponível no youtube.[7]

A partir de trechos retirados de seu vídeo, farei algumas transcrições buscando uma compreensão maior do tema que diz respeito à propagação do discurso religioso, e quanto dele ainda guarda tradições e dogmas conservadores que estão enraizados em nossa memória, se mostrando por meio de atitudes que constroem a nossa narrativa.

A pergunta que fazemos é: Quanto do tema de memória tem no discurso da garota youtuber evangélica? Nesse sentido, embasamos a nossa análise utilizando a memória como referencial teórico e método de análise.

 

 

1.1 Memória como Método de Análise

A partir das leituras que fizemos sobre o tema da memória, pudemos compreender que se trata de um campo de estudo em que as disciplinas se articulam entre si. E por conta desse vasto campo de investigação, é preciso delimitar o que se pretende pontuar sobre memória neste artigo. Estudaremos, especificamente, a memória individual e coletiva.

Mas antes pensamos ser importante conceituar a palavra memória, a fim de que não fiquemos no conceito do senso comum. Nesse sentido, o professor Garinello nos esclarece que:

Memória é uma palavra que nos veio do latim, preservando, em português, os dois sentidos fundamentais que possuía na origem. Memória, em primeiro lugar, é algo que não está em lugar algum, porque ocupa e preenche todos os lugares. É um substrato, repositório dos produtos de nosso passado que sobrevivem no presente, condição mesma do tempo presente. É a trama dos vestígios, oriundos de diferentes épocas e condições de produção, que constitui a espessura mesma daquilo que existe, como cristalização e permanência do que não morreu, daquilo que nos liga aos mortos na medida em que nos liga ao presente. (GUARINELLO, 1993, p.187).

Ficamos, então, com a compreensão de que memória é a capacidade que as pessoas têm de conservar informações vinculadas ao passado e sempre atualizá-las no presente, por meio de narrativas que organizam essas informações conforme determinados critérios.

Para que se possa ter memória individual, o sujeito depende de suas lembranças, que são sempre subjetivas e emocionais, definidas e interpretadas pela experiência de vida do sujeito e pela vivência desses acontecimentos relatados. Então, para que exista a memória individual é preciso que haja uma pessoa que participou do fato, seja como ouvinte ou como ator, que se lembre e que em algum momento fale sobre ele e o guarde novamente na memória. Dessa ideia, surge a afirmação de que é preciso que haja um testemunho para que um fato se perpetue e se torne memória para um grupo. A esse testemunho, Halbwachs (2006) esclarece que “para reforçar ou enfraquecer e também para completar o que sabemos de um evento sobre o qual já tivemos alguma informação” (HALBWACHS, 2006, p. 29). Ainda segundo o mesmo autor, “o primeiro testemunho a que podemos recorrer será sempre o nosso” (HALBWACHS, 2006, p. 29).

O que importa compreendermos é que as experiências nunca são de domínio individual, porque, na verdade, elas acontecem na relação com o outro. É nessa tensão que se reelabora a noção de memória. Henry Bergson (1999) falou sobre a característica individualizada da memória e diz “que no espírito estaria conservada a memória individual de cada ser humano, revelada em forma de imagens-lembranças que se encontrariam em sua forma pura nos sonhos e devaneios, diferenciando, assim, memória e percepção”. (BERGSON, 1999 apud AMORMINO, 2007, p.9).

Por memória individual a pesquisadora Perazzo (2006) afirma que nossa memória ‘individual’ nasce das nossas lembranças, de um passado que é de cada um, mas que não deixa de estar relacionado ao grupo, ou seja, ao coletivo. Isso porque tudo o que lembramos tem a interferência de outras pessoas que fizeram parte daquele momento rememorado. Em suas palavras: “a memória não é um fenômeno de interiorização individual, mas sim uma construção social e um fenômeno coletivo, dessa forma, é modelada pelos próprios grupos sociais” (PERAZZO, 2006, p.63).

Os estudos empreendidos por Halbwachs trazem, portanto, uma nova vertente para a noção de memória e apresenta os quadros sociais que compõem a memória. Para ele, mesmo que aparentemente particular, a memória remete a um grupo; o indivíduo carrega em si a lembrança, mas está sempre interagindo na sociedade, já que “nossas lembranças permanecem coletivas e são lembradas por outros, ainda que se trate de eventos em que somente nós estivemos envolvidos e objetos que somente nós vimos” (HALBWACHS, 2006, p. 30).

A memória individual não deixa de existir, mas está enraizada em diferentes contextos, com a presença de diferentes participantes, e isso permite que haja uma transposição da memória de sua natureza pessoal para se converter num conjunto de acontecimentos partilhados por um grupo, passando de uma memória individual para uma memória coletiva. Há, portanto, uma relação intrínseca entre a memória individual e a memória coletiva, visto que não será possível ao indivíduo recordar de lembranças de um grupo com o qual suas lembranças não se identificam.

Segundo Halbwachs (2006, p.39), para que a nossa memória se aproveite da memória dos outros, não basta que estes nos apresentem seus testemunhos: também é preciso que ela não tenha deixado de concordar com as memórias deles e que existam muitos pontos de contato entre uma e outras para que a lembrança que nos fazem recordar venha a ser constituída sobre uma base comum (HALBWACHS, 2006, p. 39). Nesse sentido, a constituição da memória de um indivíduo é uma combinação das memórias dos diferentes grupos dos quais ele participa e sofre influência, seja na família, na escola, em um grupo de amigos ou no ambiente de trabalho.

Compreendemos que o indivíduo participa, então, de dois tipos de memória (individual e coletiva) e isso se dá na medida em que “o funcionamento da memória individual não é possível sem esses instrumentos que são as palavras e as ideias, que o indivíduo não inventou, mas que toma emprestado de seu ambiente” (HALBWACHS, 2006, p. 72). Ao mesmo tempo, “na base de qualquer lembrança haveria o chamamento a um estado de consciência puramente individual” (HALBWACHS, 2006, p. 42) que permite a reconstituição do passado de forma que haja particularidades nas lembranças de cada um. Isso significa que, mesmo fazendo parte de um grupo, o indivíduo não se descaracteriza e consegue distinguir o seu próprio passado. Dessa maneira, a memória coletiva engloba a memória do grupo e cada componente desse grupo com ela se identifica. O grupo, de comum acordo, é mensageiro da memória e esta se torna uma regra a ser seguida, fazendo parte dos hábitos e do jeito de ser daquele grupo. As relações estabelecidas são acatadas e difundidas entre eles.

É no contexto dessas relações que construímos as nossas lembranças e elas estão impregnadas das memórias dos que nos cercam, de maneira que, ainda que não estejamos em presença destes, o nosso lembrar e as maneiras como percebemos e vemos o que nos cerca se constituem a partir desse emaranhado de experiências (HALBWACHS, 2006).

Nosso entendimento diante dessa contextualização do conceito de memória, podemos afirmar que há um processo de negociação entre memória coletiva e individual, que é necessário haver um consenso entre o que lembramos e a memória do outro. Em Pollack (1989, p.4)

Para que nossa memória se beneficie da dos outros, não basta que eles nos tragam seus testemunhos: é preciso também que ela não tenha deixado de concordar com suas memórias e que haja suficientes pontos de contato entre ela e as outras para que a lembrança que os outros nos trazem possa ser reconstruída sobre uma base comum.

Com o objetivo de relacionar o tema da memória com as mídias, passaremos à compreensão do espaço das mídias como lugar de encontro e processo de composição da sociedade em rede.

 

1.2 Espaço da Mídia Digital

 

Os analistas das novas tecnologias de comunicação exploram o campo da Internet e entendem que ela é a base estruturante de todos os conceitos e de novas relações que compõem a sociedade em rede ou a cibercultura. Esta é, segundo os pesquisadores, a Era da Informação, um novo momento histórico em que a base de todas as relações se estabelece por meio da informação e da sua capacidade de processamento e de geração de conhecimentos.

A Internet deve ser compreendida como uma rede que congrega diversos grupos de redes. E essas redes não são apenas de computadores, mas também de pessoas e de informação. Dentro da mesma lógica da rede, essa congregação forma uma nova cultura que Lévy denomina de cultura do ciberespaço, ou “cibercultura”:

O ciberespaço (que também chamarei de “rede”) é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infra-estrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo. Quanto ao neologismo “cibercultura”, especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço (LÉVY, 1999, p.17).

As pesquisas, dentro dessa ampla rede de conhecimento, propõem analisar como a informação ocupa uma posição de destaque no sentido de processamento e geração de conhecimentos, o processo de composição da sociedade em rede ou da cibercultura. A Internet, este espaço propiciador da rede, permite a pluralidade e a participação, apesar de imperar os padrões sociais já existentes. Nessa lógica, o que vivenciamos são, especialmente, laços fracos, identidades fluidas, fronteiras quebradas e as incertezas navegam junto com os indivíduos neste oceano, que ao mesmo tempo permite novas experiências com o pensamento e a cognição, em tempo real e em constante processo de ressignificação.

Em entrevista à cartamaior[8], Paul Virilio (2013) define a era da informática como um campo movediço, que pode nos levar à perda da noção da realidade, pois por ela não há distâncias nem territorialidades, e sua grande capacidade é proporcionar uma quantidade absurda de informações. Ele é caracterizado como um crítico que vê como negativas as implicações dos meios de comunicação de massa, apesar de não se considerar como tal, Virilio não declara a eliminação da internet e da cibernética, mas sugere que elas sejam utilizadas de forma civilizada.

Estas mudanças todas na forma de “ser religioso” deixam em questão o fato de as pessoas estarem se tornando mais religiosos ou mais secularizados, e nesta perspectiva Hoover (1998) afirma que as duas coisas. A era é de pessoas que buscam a religião e a espiritualidade, e muitas vezes esses recursos religiosos são avaliados de acordo com a sua base na tradição – a sua “autenticidade”. Somos mais “seculares” no sentido de que, hoje, as pessoas são mais autônomas e céticas, especialmente com relação à autoridade clerical e doutrinal. As pessoas são seculares com relação à “prática” religiosa, e religiosas com relação à “crença” religiosa.

As perspectivas de futuro da relação entre as religiões e a mídia exigem muitos desafios e oportunidades. O universo midiático exige que as igrejas repensem seus papéis de autoridade, elas não controlam mais o mistério, que é agora algo pelo qual as pessoas se veem responsáveis. Ao mesmo tempo, as religiões tradicionais têm grandes oportunidades, porque elas são as “marcas” (por assim dizer) que os indivíduos ainda reconhecem como próximas do núcleo do autenticamente “religioso”.

Para Cunha (2015, p.172)[9], o campo dos estudos das religiões no Brasil está cada vez mais ampliado por conta da superação da máxima de que as religiões seriam extintas ou desapareceriam das dinâmicas sociais. Mas a contemporaneidade confirma que ao invés disso, a religião está cada vez mais viva e protagonizando dinâmicas socioculturais globais intensas. Segunda a autora, a academia muito influenciada pela perspectiva positivista do enquadramento disciplinar nos campos de estudo tem sido desafiada por esta dinâmica sociocultural intensa que envolve as religiões no Brasil. São urgentes as pesquisas nos estudos das religiões como um campo interdisciplinar por necessidade, e várias possibilidades têm sido abertas para essa área de ensino e pesquisa (CUNHA, 2015, p.172, on-line).

Com vistas a relacionar a pesquisa com os estudos em mídia, religião e memória, selecionamos a youtuber Priscilla Alcântara.

Os critérios para a seleção foram feitos com base no número de acessos que elas têm em seus vídeos, considerando os seus seguidores, a quantidade de comentários que elas recebem por cada vídeo, as marcas que elas representam, bem como os mercados em que estão inseridas, uma vez que muitas delas são escritoras, produzem filmes, criam marcas e vendem seus CD’s.

Para estudo do material coletado, o primeiro passo consistirá na observação e análise do discurso da youtuber para verificar que tipo de discurso essa jovem professa, e depois a verificação da memória concebida no sentido individual ou coletivo, relacionado às lembranças dos indivíduos fundamentado no conceito de que a memória é a capacidade que de as pessoas têm de conservar informações vinculadas ao passado e sempre atualizá-las no presente por meio de narrativas que organizam essas informações conforme determinados critérios.

 

1.3 Análise do vídeo da youtuber Priscilla Alcântara

O vídeo escolhido para esta análise nos pareceu pertinente para o tema da memória, uma vez que a interlocutora toca em temas que fazem referência à memória religiosa que construímos a partir da vivência e da relação com o outro. O vídeo fala sobre “10 fatos sobre Jesus”, os mais polêmicos e, segundo Priscilla, são perguntas que os internautas sempre fazem a ela, por isso, o interesse por gravar um vídeo que fosse específico para sanar todas essas dúvidas.

A apresentadora usa a Bíblia para respaldar a sua fala e, dessa forma, consegue autoridade e valida seus argumentos. Para os cristãos, a Bíblia é um ‘manual de conduta do cristão’ e por ela sua vida deve ser norteada.

Logo no início do vídeo, Priscilla afirma que tudo o que ela disser tem relação com a vivência e a experiência que ela tem com Jesus, ou seja, é algo íntimo e diz respeito à sua memória individual, de experiências que são suas e intransferíveis, afinal, não são todos que conseguem alcançá-la.

Já com 40 segundos de vídeo, na apresentação, ela fala sobre a imagem de Jesus. Ela diz “quando bota lá Jesus no google e clica em imagem, aparece um Jesus branco, um cabelo meio claro, meio liso, meio comercial de xampu”. Ela segue explicando que Jesus não era ocidental e que, portanto, a imagem dele deve ser relacionada a alguém do Oriente Médio. Ela se reporta à Bíblia para dar autoridade à sua fala, dizendo: “até a Bíblia fala que Jesus não era muito bonito” (1’26”). O interessante é que ela diz que “se a sua imagem de Jesus é de um ser europeu, apaga isso ai da sua cabecinha” (1’41”). Aqui já podemos observar a construção da memória coletiva que apresenta às pessoas um modelo da figura de Jesus que deve ser sempre branco e belo, como convém a um bom líder. Na Bíblia, propriamente dita, não encontramos nenhuma descrição detalhada sobre a aparência de Jesus e as representações mais antigas surgiram muitos anos após a morte de Cristo e por pessoas que nunca o viram. Mas a memória que temos dele é esta retratada por Priscilla, do Cristo belo, ao menos no senso comum.

O quarto fato ao qual Priscilla dá ênfase e que nos chamou a atenção, diz respeito a Jesus não ser um religioso ‘mimizento’ (4’09”). Ela diz que vai explicar usando a própria bíblia porque as pessoas não a chamarão de herege. O problema colocado é sobre as tradições, e segunda ela, as pessoas religiosas costumam implicar com as coisas externas, e essa postura provocou muita ferida em muita gente ao logo da história da igreja. E então, ela acrescenta: “não é questão como muitos dizem de modernizar Deus (4’36”) […] ah, essa geração leva Deus do jeito que eles querem”. Neste ponto, mencionamos a reflexão de Peralta (2007) quando ela fala que na modernidade, a memória pressupõe conflito e negociação, e que este conflito rebate as versões “naturalizadas e essencialistas” da tradição. Pensando na fala de Priscilla sobre a ideia de que as pessoas ‘tradicionais’ ou mais antigas entendem essa nova maneira de interpretar Jesus é uma versão da modernidade, portanto, subversiva que vem para destruir paradigmas. Mas Peralta afirma que as tradições são inventadas. Em suas palavras: “[…] a premissa de que as tradições são inventadas demonstra que os atos de memória são atos simbólicos, implicando sempre recordação, tradução, esquecimento e ausência” (PERALTA, 2007, p. 10).

Mais à frente, aos (5’14”), Priscilla continua a sua explicação sobre a tradição. Explica um trecho da Bíblia em que os fariseus se constrangem ao presenciar os discípulos pegando na comida antes de lavar as mãos. Em sua explicação, ela diz que: “os fariseus eram uma seita judaica que existiam para preservar e demonstrar as leis de Deus” (5’40”). Essas tradições se tornaram mais importantes para este grupo de homens do que ‘os ensinamentos de Cristo’. Recorremos, nesse momento, ao conceito de Halbwachs quando ele explica que: “as memórias subsistem porque fazem parte de um conjunto de valorações e acepções que são comuns a todos os membros do grupo, na medida em que as imagens privadas que cada um tem do passado são submetidas a padrões apropriados mantidos coletivamente” (HALBWACHS, 1950 apud PERALTA, 2007, p.7).

Entendemos que este grupo desenvolveu uma conduta que deveria ser seguida porque era algo construído por ele e que estava na memória coletiva do grupo, sendo passível de pena, caso não fosse seguido. Estes padrões deveriam ser mantidos coletivamente por ser uma memória socialmente imposta. Em outro trecho do artigo de Peralta (2007, p.8), a pesquisadora continua insistindo na discussão de que as tradições são deliberadamente inventadas e difundidas pela esfera política, em suas palavras: “esta abordagem teórica ao estudo da memória assume que as imagens do passado são estrategicamente inventadas e manipuladas por setores dominantes da sociedade para servir às suas próprias necessidades no presente”. Para encerrar a sua fala depois de muito argumentar sobre o que Jesus ‘quer ou não dos homens’, Priscilla diz: “cuidado para você não prestar tanta atenção na tradição que é preceito de homem e se esquecer daquilo que Deus realmente te pede”.

Outro fato relevante que nos remete à tradição e à memória é quando a youtuber Priscilla cita o caso da mulher samaritana (9:53).  Nesse caso, a lei dizia que quem caísse em adultério deveria ser apedrejado em praça pública. No que Jesus chegou e perguntou: “quem nunca errou, quem nunca pecou atira a primeira pedra […] Jesus chegou na mina e perguntou: onde estão os teus acusadores? Ela falou: não estão mais aqui. Nem tampouco eu te condeno” (10’50”). Observamos nesse trecho a ideia de negociação, há o lugar de enfrentamento e de negociação nas relações sociais. O que nos faz refletir sobre a maneira com que as igrejas utilizam desse trecho bíblico para trazer à memória de seus fiéis um passado que eles não conhecem, afinal, não estavam lá com a samaritana e não presenciaram tal feito, mas, hoje – no presente – este fiel comete o mesmo pecado que ela, e pelos seus pastores são obrigados a rememorar o trecho bíblico que diz: “vai e não peques mais” (Jo 8:11). Para Halbwachs (1990 apud AMORMINO, 2007, p.9), “lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado”

No nono fato, a afirmação é: “Jesus é o único acesso a Deus” (14’17”), e neste trecho da fala de Priscilla ela explica que não importa a sua religião, há só um Deus. Em dado momento (15’14”) Priscilla rememora uma situação em que ela estava em uma festa e deu o horário do culto. Ciente do tempo, ela avisou que iria embora, mas Jesus falou com ela: “não vai embora, não vai embora, porque daqui a pouco alguém vai chegar para falar de mim”. Ela, obviamente, obedeceu e esperou. Em meia hora, resolveu ir ao banheiro, e no caminho foi interpelada por uma moça que veio ao seu encontro desesperada, chorando e pediu: “Pri, eu preciso falar com você”. O assunto era que a moça tentou de todas as formas encontrar Jesus e não conseguia a plenitude que ela estava buscando. Neste ponto, a memória se faz presente no discurso de Priscilla porque ela se reportou a uma história que aconteceu no passado para explicar algo do presente. Retomando as palavras acima ditas “lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir”. Quando Priscilla escolhe estes 10 pontos sobre Jesus e em um deles decide relembrar essa história para então dar sentido à sua explicação, entendemos que as lembranças são associadas às relações sociais estabelecidas pelo sujeito. “O que é relembrado, a forma como o é e a ação de relembrar já estariam permeados pelo presente, pelo que está atual, e se daria principalmente na relação com o outro” (AMORMINO, 2007, p.10).

E para finalizar, o último fato sobre Jesus, é que ele é real. Priscilla relembra o momento em que Jesus ressuscitou e apareceu para os discípulos. Tomé duvidou que era Jesus e disse: “não, mano, eu só vou acreditar se eu ver (sic) o furo do prego na tua mão”. Então, Jesus mostra o furo e diz: “Tomé, bem-aventurado são os que não viram e creram, velho”. Priscilla diz que não viu e que não precisa ver, pois ela sabe que Jesus é real porque o seu coração queima quando o ouve falar. Nessa fala de Priscilla ela reconstrói o passado para revalidar o presente, para dizer que, apesar de não ter visto as chagas de Jesus, ela crê. E que nisso há grande mérito, se considerarmos as palavras de Jesus a Tomé. Mais do que revalidar o presente, a memória é uma forma de construir a tradição. Halbwachs (1990, p.80-81) afirma que a memória individual está amarrada à memória do grupo e esta a uma esfera maior de tradução, que é a memória coletiva de cada sociedade […] para ele, a história escrita se diferencia da memória, sendo que a primeira apareceria após a tradição, enquanto a memória diria respeito ao que é vivido.

Nessas considerações, retomamos à pergunta feita no início desse artigo: quanto do tema de memória tem no discurso da garota youtuber evangélica? Constatamos que há muito da memória em seu discurso, tanto individual quanto coletiva, que traz associada a ela (memória) a questão das tradições, dos conflitos, na relação intencional que se estabelece com as lembranças e, no caso da youtuber analisada, um processo de recriação das formas de relacionar-se com Deus.

 

 

Considerações Finais

 

A construção desse artigo visou relacionar o tema da memória no discurso da youtuber evangélica, Priscilla Alcântara. Nesse sentido, embasamos a nossa análise utilizando a memória como referencial teórico e método de análise.

Verificamos, a priori, que os meios de comunicação são lugares de memória e as redes sociais se utilizam desse método para atrair seus interlocutores.

No momento em que pensamos no tema da Memória associada às redes sociais digitais e à religião, objetivamos buscar um encontro desse conceito, ainda em fase de reestruturação com o discurso religioso. Ambos têm um aspecto em comum que é o recorte de presente e passado, que nos dá a ideia de tempo, e a ideia de temporalidade tem a ver com a mídia. O tema da religião faz uso da memória, porque se reporta a ela em vários momentos.

O que notamos no vídeo preparado pela youtuber Priscila é que ela se utilizou de uma memória construída da qual dispomos quando fala de Jesus. Esta memória está presente em nossa cultura por meio da narrativa bíblica. Esta narrativa está no uso da bíblia que, segunda ela, não deve ser contestada, pois por este instrumento se consegue uma verdadeira interação com Jesus. O que entendemos é que falar de memória é falar de construção, reconstrução, dinâmica, e a forma encontrada por Priscilla reverbera a memória que ela guarda.

O pesquisador do tema mais usado neste artigo foi Halbwachs porque foi ele quem revolucionou o pensamento de sua época, ao afirmar que as nossas lembranças e recordações não podem ser dissociadas das nossas relações sociais. A nossa memória tem o passado como sua base que associada ao presente gera o pensamento das pessoas. O que fazemos, mesmo sem perceber, é embasar as nossas lembranças nos grupos sociais para reforçar, enfraquecer ou mesmo completar nossa percepção dos acontecimentos.

Dessa forma, tudo o que foi dito por Priscilla precisa encontrar no seu interlocutor receptividade, ou seja, uma base comum. Encontramos também um discurso com predileção pelos conflitos, visto que a construção da memória é um processo que precisa ser, antes de mais nada, negociado entre os atores sociais nele inscritos, que passará por recorrentes conflitos e transformações.

Neste discurso encontramos, também, uma preferência pelas tradições. A tradição é algo que se herda e que faz parte da identidade cultural e social do grupo. Os sociólogos assinalam, porém, que a tradição deve ser capaz de se renovar e de se atualizar de modo a manter o seu valor e a sua utilidade. Posto isto, uma tradição pode perfeitamente adquirir novas expressões sem ter necessariamente de perder a sua essência. Nessa acepção, segundo Peralta (2007, p.11) “a tradição está inexoravelmente ligada à legitimação do status quo, sendo utilizada como um suporte para o exercício do poder e da autoridade”.

Encerramos este artigo certos de que a memória como referencial teórico e método de análise abre muitas possibilidades de estudo e se mostra um campo vasto de reflexão e interlocução.

 

Referências

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GUARINELLO, Norberto Luiz. Memória coletiva e história científica. Conferência proferida por ocasião do I Congresso de Ciências Humanas das Universidades Federais de Minas Gerais, S. João Del Rei, maio, 1993.

 

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HOOVER, Stewart. Religião, mídia e o centro de gravidade cultural. Tradução informal. Trabalho foi apresentado aos Fiduciários da Fundação para Comunicações Metodistas Unidas, USA: Nashiville, 1998.

 

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LEVY, Pierre. PACE. Enzo. Narrar a Deus: a religião como meio de comunicação.  Rev. bras. Ci. Soc. [on-line]. 2009, vol.24, n.70, pp.9-15.

 

PERALTA, Elza. Abordagens teóricas ao estudo da memória social: uma resenha crítica. Arquivos da Memória: Antropologia, Escala e Memória. n.2, Nova série, 2007.

 

PERAZZO, Priscila F. Memória e Narrativas orais em Estudos de Comunicação Social. Sugestão Bibliográfica. Comunicação& Inovação. Julho/Dez, 2006.

 

RICOEUR, Paul. Entre Tempo e Narrativa: Concordância/ Discordância. KRITERION. Belo Horizonte, n.125, jun/2012, p.299-310.

 

[1] Doutora em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo. Membro do grupo de pesquisa MIRE. E-mail: patriciagarcia_30@hotmail.com

[2] HOJE EM DIA. Com base na Bíblia, youtubers fazem vídeos e conquistam milhões de views. Disponível em: http://hojeemcia.com.br/almanaque/com-base-na-b%C3%ADblia-youtubers-fazem-v%C3%ADdeos-e-conquistam-milh%C3%B5es-de-views-1.319642. Acesso em: 10nov.2016.

[3] CUNHA, Magali do Nascimento. O neoconservadorismo evangélico. Observatório da Imprensa. ed.815. Disponível em: http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/_ed815_o_neoconservadorismo_evangelico/. Acesso em: 13 nov. 2016.

[4] CHRISTIANPOST. Mercado evangélico movimenta 12 bilhões de reais ao ano. Disponível em: http://portugues.christianpost.com/news/mercado-evangelico-movimenta-12-bilhoes-de-reais-ao-ano-16314/. Acesso em: 13 nov.2016.

[5] O GLOBO. Nas Redes: Brasileiros gastam 650 horas por mês nas redes sociais. Disponível em: http://blogs.oglobo.globo.com/nas-redes/post/brasileiros-gastam-650-horas-por-mes-em-redes-sociais-567026.html. Acesso em: 13 nov.2016.

[6] REVISTA GALILEU. A vez da geração “C”. Disponível em:  http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,ERT339144-17770,00.html. Acesso em: 13 nov.2016.

[7] 10 fatos sobre Jesus. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=glVIi-0epuU. Acesso em: 20 maio.2017

[8] Paul Virilio é urbanista, filósofo, ensaísta, ex-diretor da Escola de Arquitetura de Paris, autor de A Arte do Motor, Velocidade e Política, A Bomba Informática e A Estratégia da Decepção. Entrevista feita em 28 out.2013.
Disponível em: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/’O-crash-atual-representa-o-acidente-integral-por-natureza’%0d%0a/7/14361. Acesso em: 10 jun.2017.

[9] Entrevista com a professora Magali Cunha sobre Estudos da Religião no Brasil sob foco da mídia, religião e política.

 

Patrícia Garcia Costa é Doutora e mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), com pesquisa na área de Mídia, Gênero e Religião. Membro do Grupo de Estudos MIRE – Mídia, Religião e Cultura/Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião da Intercom. Graduada em Letras – português, inglês e respectivas literaturas pela FSA – Fundação Santo André (1998), pós-graduada em Metodologia do Ensino na área de Língua Portuguesa, na mesma instituição (2001). Pós-graduada em Práticas e Vertentes do Ensino Aprendizagem da Língua Portuguesa e da Literatura pela Uninove – Centro Universitário Nove de Julho (2008). Professor de Comunicação e Língua Portuguesa da Faculdade Paulista de Comunicação (FPCA). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Portuguesa e Linguística, atuando principalmente nos seguintes temas: produção textual, análise do discurso, oratória e gramática normativa

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