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Um manda e o outro obedece

Por Sonia Castro Lopes

 

Mentiroso. Vil. Pusilânime. Medroso. Covarde. Irresponsável. Poderíamos atribuir dezenas de (des) qualificações ao ex-ministro da saúde, Eduardo Pazuello, que ontem, quarta feira (19) apresentou-se ao Senado Federal para prestar depoimento à CPI da Pandemia. Muito bem treinado pelos marqueteiros do Planalto e pela Advocacia Geral da União (AGU), Pazuello chegou altivo e arrogante. No primeiro tempo caprichou na blindagem ao capitão e conseguiu surpreender os arguidores que deveriam ter sido mais agressivos. No segundo tempo, o jogo começou a virar e o ex-ministro mostrou-se mais frágil e acuado. No intervalo da sessão do Senado, teve um mal-estar e foi atendido pelo senador e médico Oto Alencar (PSD-BA) que diagnosticou um mal estar provocado por queda de pressão devido ao estresse provocado pela tensão do momento. A sessão, então, foi adiada para hoje (20), uma vez que ainda há 23 senadores inscritos para participar da sabatina.

 

Eduardo Pazuello, general do Exército, assumiu interinamente o ministério com a saída de Nelson Teich em maio de 2020 que, por sua vez,  havia substituído Luiz Henrique Mandetta no mês anterior. Ambos já prestaram depoimento à CPI e revelaram ter entrado em rota de colisão com o governo por se negarem a executar as ordens do presidente, especialmente em relação à recomendação da cloroquina como fármaco eficaz no tratamento precoce da #covid-19. No final do ano passado, Pazuello teve seu nome ratificado como ministro exercendo o cargo até março do presente ano, quando foi substituído pelo médico Marcelo Queiroga. Foi justamente sob a gestão de Pazuello que ocorreu a fase mais aguda da pandemia, especialmente  no estado do Amazonas onde milhares de cidadãos perderam a vida por falta de oxigênio nos hospitais de Manaus.

 

O presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM) e, principalmente, o relator da Comissão, senador Renan Calheiros (MDB-AL) entraram no jogo de Pazuello e, de forma bastante polida, acabaram dando espaço para a exibição do ex-ministro que chegou a ser desrespeitoso em alguns momentos. Ao ser indagado sobre a razão de sua saída do ministério, respondeu  cinicamente: Simples. Missão cumprida!

 

Nessa altura, os senadores governistas bem como o pessoal do Planalto devem ter comemorado achando que o jogo estava ganho. A situação começou a se complicar quando o senador Humberto Costa (PT-PE) enfrentou o depoente exibindo gravações que mostravam o presidente desmentindo a promessa feita por Pazuello de que seriam compradas vacinas da China. Divulgado pela imprensa e viralizado nas redes sociais, o episódio do “um manda e o outro obedece” tornou-se indefensável.

 

Pazuello já havia admitido que as razões para a desistência de compra da vacina da Pfizer oferecidas ao Brasil em setembro do ano passado deviam-se às cláusulas ‘leoninas’ do contrato e ao fato de serem muito caras. Aí começaram as contradições quando cotejadas aos depoimentos anteriores, especialmente aos de Fábio Wajngarten (ex-Secom) e Carlos Murillo, representante da Pfizer no Brasil. Aos poucos, o ar arrogante do ministro cedeu lugar ao desconforto, visível em seus olhos. O senador Humberto Costa continuou a atacar sem dó:

“Qual o preço de uma vida humana, general?”

“Vale a pena assumir essa quantidade de processos que existem contra o senhor por fidelidade a quem não pensa no povo, só pensa no poder?”

“Quem deveria estar sentado aí era o presidente.”

“Missão cumprida? Veio aqui para livrar a cara do presidente. Devia ser leal ao povo brasileiro.”

 

Ao ser inquirido pelos senadores Eduardo Braga (MDB-AM) e Eliziane Gama (Cidadania-MA) sobre a tragédia em Manaus, Pazuello caiu em diversas contradições e começou a demonstrar nervosismo. Mas quando o jogo parecia virar a favor da CPI, a sessão foi interrompida. Hoje (20) assistiremos a mais um capítulo. Espero que desta vez os integrantes da comissão venham com ‘sangue nos olhos’ e os senadores de oposição consigam uma vitória acachapante para fazer justiça aos 440 mil brasileiros vítimas da irresponsabilidade desse governo criminoso.

 

 

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