Construir Resistência
Sonia Castro Lopes

Sobre manifestos e manifestantes: a hora é de união!

Por Sonia Castro Lopes

Manifestos que trazem sopros democráticos em momentos de autoritarismo e intolerância são sempre bem-vindos. Falo de uma perspectiva histórica, remetendo-me, por exemplo, ao Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932), que, sem ser revolucionário, conseguiu incorporar alguns de seus princípios à Constituição de 1934 e às posteriores que seguiram tendências democráticas no plano educacional. Ainda sob o Estado Novo da Era Vargas, lembramos o Manifesto dos Mineiros (1943) e sua percepção, possivelmente equivocada, do quanto o movimento de 1930 havia se desviado de seus objetivos pretensamente democráticos. Interpretações à parte, já que estamos falando de um momento autoritário de nossa história, podemos inferir que ambos foram movimentos políticos apartidários e liderados por figuras da elite intelectual, mas capazes de causar impacto e fornecerem contributos para mudanças no panorama educacional e político do país.

Em 1984, o movimento Diretas Já agregou diversos setores da sociedade civil. Participaram inúmeros partidos políticos de oposição ao regime militar, além de lideranças sindicais, civis, artísticas e estudantis. Personalidades representantes de várias matrizes político-ideológicos como Tancredo Neves, Ulisses Guimarães, Mario Covas, Moreira Franco, Marcos Freire, Leonel Brizola, Lula, Roberto Freire, Luiz Carlos Prestes, dentre outros, apoiaram o movimento em defesa de um bem maior: o restabelecimento do Estado Democrático de Direito.

Há dois anos surgiram reações  às atitudes antidemocráticas expressas pelo Presidente da República, seus filhos, ministros, asseclas e afins sob a forma de Manifestos. Refiro-me a movimentos como Estamos juntos, Basta, Somos 70%  publicados em grandes jornais que conseguiram reunir, em torno da defesa da democracia, cidadãos de várias correntes ideológicas e até adversários políticos, estabelecendo uma comparação com o clima das Diretas já. 

O mais recente desses manifestos – A Carta em defesa da Democracia – foi lançado na última terça feira (26) por juristas da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP) e já reuniu mais de 400 mil assinaturas.  Representantes de vários setores da sociedade civil  assinaram o documento e entre os signatários do texto estão empresários, associações que reúnem bancos e porta-vozes do setor industrial, e algumas das maiores centrais sindicais do país, como a CUT (Central Única de Trabalhadores) e a Força Sindical.

O documento inspirou-se na Carta pela Democracia de 1977, elaborada em plena ditadura civil-militar pelo jurista Goffredo Telles. Representando o setor empresarial assinaram a Carta  Luiza Trajano (Magazine Luiza), Fábio Barbosa (Natura), Pedro Moreira Salles (Itaú Unibanco), Eduardo Vassimon (Votorantim) e Walter Schalka (Suzano Papel e Celulose).

Apesar de demonstrar-se apartidário, já que não cita o governo federal ou qualquer partido/candidato que esteja concorrendo às eleições de 2022, o manifesto defende o sistema eleitoral e o respeito aos resultados das eleições em outubro. E tem tirado o sono dos coordenadores da campanha do presidente Bolsonaro, alarmados com a repercussão do documento junto a setores que teoricamente deveriam ser fiéis à politica econômica do governo.  O próprio mandatário da República referiu-se ao Manifesto, de forma debochada,  como uma “cartinha” sem importância.  “Qual é a ameaça que eu estou oferecendo para a democracia?”  indagou o presidente aos apoiadores do cercadinho. Ele é tosco, mas sabe que quando o empresariado muda de time seu projeto de reeleição corre sério risco.

A hora é de união e no próximo dia 11 de agosto – dia do advogado – haverá grande manifestação pública na cidade de São Paulo em prol da democracia. Todos serão bem-vindos. Como Lula nos ensina, não se pode desprezar o apoio de ninguém. Desafetos antigos, adversários políticos  precisam se unir em torno do combate ao mal maior. Urge recorrer à história para lembrar que expurgos, na maioria das vezes, enfraquecem movimentos e dividem a oposição, à exemplo da Segunda Internacional (1889-1916) que culminou com a expulsão de vários setores progressistas provocando a divisão da esquerda.  Penso que essa união antifascista pode receber críticas por não corresponder ao ideal em termos de oposição, mas é necessária para derrotar o pior governo que já tivemos em toda a história republicana.

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