Construir Resistência
Sonia Castro Lopes

Sobre alianças e esperanças

Por Sonia Castro Lopes

Quem deixará de votar em Lula se o vice for o picolé de chuchu? De acordo com a pesquisa Datafolha realizada entre os dias 13 e 16 de dezembro, para 70% dos entrevistados não importa ter o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin como vice do ex-presidente Lula (PT) nas próximas eleições presidenciais. Já 16% dos entrevistados declararam que a chance de votar em Lula aumentaria, contra 11% que afirmaram o contrário. Entre os eleitores que declaram votar em Lula, 24% confirmam a intenção de voto e 9% dizem ter dificuldades em apoiar a candidatura do ex-presidente, caso a aliança seja confirmada. Evidentemente, essa não é a chapa dos nossos sonhos, mas pode ser necessário ampliar o arco político para se obter vitória mais folgada – quem sabe até no primeiro turno – e, mais adiante, garantir melhores condições de governabilidade.

Um dos maiores entraves à composição da chapa LUCHU diz respeito ao apoio às candidaturas do futuro governador de São Paulo e Rio de Janeiro, estados importantes do país. No Rio, são conhecidas as intenções do atual prefeito Eduardo Paes (PSD) em apoiar o candidato de seu partido em detrimento de Marcelo Freixo (PSB), candidato de Lula. Já em São Paulo, o PSB quer impor a candidatura de Márcio França, terceiro colocado nas pesquisas de opinião atrás de Fernando Haddad (PT) e Geraldo Alckmin que, desfiliado do PSDB, ainda não decidiu se vai para o PSB ou migraria para o PSD de Kassab para concorrer ao governo de São Paulo. A aliança PT-PSB está, portanto, ameaçada e segundo o presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, o PT não atendeu às demandas do seu partido e precisa escolher se quer disputar a Presidência da República ou a eleição nos Estados. Nessa perspectiva, o casamento corre sério risco de não se concretizar.

O processo de arranjos políticos é sempre muito complexo. Que capital político um vice como Alckmin poderia trazer? Quais seriam os limites dessa negociação? Haverá garantias de ampliar as condições de governabilidade se a chapa for vitoriosa? Essas são algumas das questões a serem discutidas. As lideranças do partido e a experiência política de Lula saberão avaliar os prós e contras dessa aliança. Não podemos esquecer que o novo governo terá pela frente a reconstrução de um país arrasado e isso exigirá coalizão. Resta saber se a célebre frase proferida por  Henrique IV (1553-1610) – “Paris bem vale uma missa” – se aplicaria ao caso brasileiro.

Eleições no Chile

Foi um alento para os brasileiros progressistas a vitória das esquerdas no Chile.  Essa sensação de retomada democrática que contagiou a América Latina tão maltratada durante séculos chegou num momento em que nós, aqui no Brasil, reunimos forças para retirar do poder um presidente que tem como um de seus modelos o sanguinário Augusto Pinochet (1915-2006) que liderou o golpe contra o governo do presidente Salvador Allende (1908-1973) e instalou no país uma das ditaduras mais cruéis de que se tem notícia.

No último domingo, Gabriel Boric, 35 anos, ex-líder estudantil do partido Convergência Social (CS) derrotou José Antonio Kast, político de extrema direita do Partido Republicano (PR) com quase 56% dos votos válidos. Apesar de admirar o ex-ditador chileno, assim como o colega brasileiro, Kast teve uma atitude civilizada ao reconhecer imediatamente a vitória do rival postando no twitter que Boric era merecedor de todo respeito e em seu governo deveria haver uma “colaboração construtiva.” Acho que essa deveria ser a principal lição aprendida por todos os brasileiros que não admitem ou admitirão a provável derrota de Bolsonaro em sua tentativa de reeleição.

Superado por Kast no primeiro turno, Boric amenizou o discurso na campanha decisiva a fim de expandir sua base eleitoral para os indecisos que no primeiro turno não haviam definido seu voto ou sequer compareceram às urnas. Esta foi a eleição que teve maior participação nos últimos trinta anos da história chilena, uma vez que lá o voto não é obrigatório. O número de eleitores que afluiu às seções eleitorais para eleger o novo presidente bateu recorde superando o público que em 2020 participou ativamente do plebiscito que decidiu pela  criação de uma nova constituição no país.

A América Latina que, segundo Eduardo Galeano*, “especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus se abalançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta” hoje vive uma retomada democrática ao eleger líderes que defendem projetos políticos que procuram minimizar as desigualdades econômicas e sociais. Bolívia, Argentina, México e Peru já deram o exemplo. Por aqui, Lula é o pré-candidato com maiores possibilidades de reconstruir o país. Não será tarefa fácil, mas o importante é que há luz no fim do túnel.  A vitória de Boric no Chile lavou nossa alma e nos encheu de esperanças.

*GALEANO, E. As veias abertas da América Latina. 11. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980, p. 13.

Fotos (internet)

Lula com os trabalhadores na cozinha do restaurante Figueira Rubayat onde jantou com Alckmin no último domingo (19)

Festa no Chile.

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