Construir Resistência
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Sobre adoções, detrações e linchamentos virtuais

Desconheço detalhes, mas passei os olhos por uma série de comentários venenosos e destrutivos para desqualificar a atriz Carol Nakamura no episódio da adoção.

De novo, a ausência desse registro definitivo e cartorial, neste momento, nada diz, nem a favor nem contra a ex-bailarina do Faustão, considerados os interesses de cada família envolvida no caso.

O Brasil é assim mesmo, por natureza, um lugar de puxadinhos, gambiarras, improvisações, porque a juristocracia nos amarra e porque as demandas do cotidiano são sempre urgentes.

Estranho também o linchamento em razão das fotos do garoto com a família. Por este motivo, nem as publiquei aqui. O que queriam que Carol fizesse? Que o escondesse? Aí, certamente, os idiotas da aldeia diriam que tinha vergonha do menino.

O Brasil tem raízes remotas de adoção informal. Aos ativistas lacradores, por favor: leiam sobre a “roda do expostos” ou “roda dos enjeitados”, ativa em entidades religiosas até início do Século 20, inclusive nas cidades mais prósperas da nossa Pindorama.

Quanta gente não se dedicou de corpo e alma para “criar” uma alma recusada. Em um país de estupros, de exploração sexual dos infantes e de paternidades irresponsáveis, passamos séculos nos virando para oferecer suporte aos filhos dos brancos bandeirantes escravistas.

Muitas casas altruístas (e não oportunistas) incorporaram naturalmente a negritude e os genes indígenas. Por este motivo, somos, em grande parte, maravilhosamente pardos.

Lembro-me de quando a querida e saudosa companheira Patrícia, jornalista das boas, gateira e cachorreira, cismou de adotar um menino. A burocracia toda era complicada, e ele não podia aguardar a boa vontade de um togado.

E assim foi o processo, equilibrado no amor e no esforço. Mas ele carregava praticamente dez anos de uma educação distinta, em que lhe faltara a regra e a obediência, enquanto sobrava desejo de liberdade e desconhecimento sobre o certo e o errado, o legal e o ilegal.

Patrícia empenhava o salário curto em adquirir material escolar, levava-o ao colégio, rabiscava as lições com ele, à noite, já exaurida de 10 horas de redação. Carinho total.

De repente, não mais que de repente, no entanto, ele tomava a bicicleta de um vizinho e sumia pela cidade. Não retornava à noite. Um, dois, três dias de desaparecimento. E o coraçãozinho enfermo dela, já naquela época, sofria e tropeçava.

Aí, num sábado qualquer, ele retornava. E não admitia reprimenda, porque se julgava passarinho, sem chefe, líder ou dono. Ficava pelo que julgava conveniente. Comia muito chocolate, jogava videogame, ganhava um cafuné. E, de repente, tomava outra magrela e escapava pedalando.

Francamente, não acompanho a vida de celebridades, mas considero improvável, como estão dizendo por aí, que a bailarina tenha assumido a co-autoria dessa criação por interesse de marketing. Para quê?

Ela já tem um filho. O menino nasceu quando ela tinha 16 anos. Agora, a atriz soma 39. Esse garoto cresceu, bem educado, já constituiu uma parceria amorosa bonita. É uma família pluriétnica que não precisa propagandear nada. No caso em foco, foram três anos de esforço para que o menino frequentasse a escola.

Dirão: “ah, mas ela chamou o menino de safado”. Ok, mas qual mãe não chamou o filho de safado em razão da desobediência e da fuga do estudo? Entendam o contexto, inquisidores de Internet.

A gente rola as redes e tem alguém soltando xingamentos porque supostamente faltaram pobres e negros no casamento de Lula e Janja. Aliás, como se o metalúrgico e a esposa fossem exemplares acabados da mais pura cepa europeia, “wasps” ilhados na Terra Sem Males…

E seguem as detrações pelos mais variados motivos, por supostos atos ou supostas omissões. O importante é empunhar tochas e sair por aí, em rondas noturnas, procurando alguém para linchar e pendurar em árvore alta na manhã seguinte.

Lamentavelmente, parte desse trabalho de explosão de pontes, de maledicência, de intriga, de calúnia e difamação é liderado por gente que se diz “ativista” e que considera ter conquistado “lugar de fala” para condenar por mera suspeita.

Já foi assim em Porto Alegre, quando, sem evidência pericial, resolveram crucificar o futebolista lusitano. Mesmo que a investigação prove sua inocência, o dano está feito. E é irreversível. Os comentaristas do Sportv, da Globo, da ESPN e do UOL já emitiram o veredito que implode a reputação de Rafael Ramos.

Pior é ver, na webolândia identitária, frases como “o que essa japa aí está querendo?” Porque, ao que parece, a asiofobia agora ganhou status de licitude, como já tinha ganho o etarismo.

Nesta sexta-feira, jovens descolados faziam troça de Kadu Moliterno, que legitimamente, aos 70 anos, pedia uma chance de continuar a atuar. “O que esse velho está querendo; por que não vai cuidar dos netinhos?”, disparou uma internauta.

O lance é esse. Muita hipocrisia, muito farisaísmo e MUITO esquecimento do que deveria estar no topo do guarda-chuva, a atualização necessária da LUTA DE CLASSES e a generosidade sem preconceitos que marca qualquer luta progressista.

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