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Sobre a crise socioambiental e aniquilação do outro

Por Rodrigo Borba*.

 

A última Semana do Meio Ambiente (5 a 9 de junho de 2020) foi repleta de lives e podcasts repercutindo discursos e práticas que enfatizam a importância de ser, ter, ver, experienciar e sentir tudo online. Foram colocadas nas redes belos registros da natureza que mostram praias, baías, lagoas e florestas. Agora, sem a ameaça da espécie que subjuga e domina as demais movida pela ânsia de colonizar territórios, mentes e corações, a biodiversidade sobrevive e transita mais aliviada. Imobilizada pelo pavor de ser extinta por um agente infeccioso que nem ser vivo de fato é, a humanidade se recolhe: fica de tocaia, aguardando o momento para retomar a ofensiva contra o outro, contra o diferente, incluindo aí o meio natural, em nome do desenvolvimento econômico e resguardado pela fé em um deus-dinheiro que abençoa quem segrega e mata em nome do lucro.

 

Reduzir, reutilizar, reciclar, recuperar, renovar, reflorestar… Mil e um “R”s mais uma vez povoaram a internet como palavras mágicas capazes de remediar hábitos de produção e consumo que exploram recursos naturais, enquanto retiram a dignidade de homens e mulheres, em um processo que leva à desumanização e ao extermínio daquele ou daquilo que não desfruta o status de “humano”. Porém, tantas outras letras, ainda mais significativas para a compressão da crise socioambiental ficaram de fora de debates sobre a semana do meio ambiente: “J” e “P” de João Pedro; “M” e “O” de Miguel Otávio; “Z” e “G” de Zezico Guajajara; “D” e “S” de “Dorothy Stang”; “I” e “T” de Itaberli Lozano são algumas das vogais e das consoantes que mostram que os “R”s sozinhos têm muito pouco a fazer diante do genocídio em curso.

 

Racismo, misoginia, machismo e LGBTfobia são algumas das chagas abertas e que sangram em nossa sociedade injusta e desigual, na qual vidas mais pobres e vulneráveis valem menos que outras – apesar da quantidade de pessoas que se intitulam religiosas e pró-vida. Se nas cidades a aniquilação dos excluídos ocorre em ações perpetradas pelo próprio Estado, no campo e terras de comunidades tradicionais, como indígenas e quilombolas, é principalmente a omissão ou a conivência de gestores públicos eleitos ou indicados que condenam e ceifam sonhos, projetos e lutas.

 

Estamos sendo ensinados a nos “reinventar” para vivermos sob um “novo normal”. É isso que queremos? É nisso honestamente que acreditamos? Continuaremos assistindo a decolagem das mortes por COVID-19 acompanhadas do incentivo político e midiático ao retorno das pessoas às ruas como se isso fosse seguro e aceitável? Portanto, cabe mais do que nunca olhar criticamente para as questões ambientais. Primeiro para não esquecermos que as injustiças ambientais têm uma dimensão social e histórica a ser problematizada e corrigida. Mas também para não reforçarmos o “faz de conta” de que se “cada um fizer sua parte tudo ficará bem” que deposita sobre o indivíduo responsabilidades e fardos que são do Estado, servindo para culpabilizar as populações, notadamente as mais pobres, pela barbárie. Por que esse tipo de retórica tão prejudicial ainda é entoada e ecoa?Ou melhor: como elas ainda encontram interlocutores em nossos cotidianos?

Precisamos pensar juntos nessas perguntas. Quais as possíveis respostas?

 

Nota do Autor

Essa reflexão foi inicialmente publicada em junho de 2020, mas as discussões que a mesma traz se reacendem tendo em vista a censura prévia imposta à produção acadêmica do ICMBio noticiada nos últimos dias.

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*Rodrigo Borba é biólogo e professor de Ciências e Biologia. Doutorando em Educação na UFF. Mestre em Educação, licenciado e bacharel em Ciências Biológicas pela UFRJ.

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