Construir Resistência
Luis Otavio

Ser pobre é feio

Por Luis Otavio Barreto

Não é a pobreza que assusta, mas a condição social; o parecer pobre. E isso é muito louco e muito absurdo! Existe uma fantasia sobre riqueza, sobre o modo de vida, sobre o consumo, enfim, toda uma coleção de afetações que são incoerentes com a realidade de alguém, de fato, rico. Realidade que nem mesmo dou conta de escrever, porque não a conheço. Não obstante, sei que não está nem mesmo perto dessas afetações de uma sociedade iludida pela possibilidade de representar um mundo que pensa conhecer e pertencer.

A eleição de Bolsonaro foi um projeto com múltiplas contribuições e uma delas veio dessa turma anti-PT, anti-Lula. Não pense ter havido um grande movimento de conscientização política, isso, num país em que as pessoas não sabem a diferença entre mas e mais e que pouco se importam para isso e outros detalhes, seria um grande avanço e, certamente, não estaríamos nessa situação! O que houve foi um planejamento e no bojo desses ações constava “colocar pobre no lugar de pobre”.

E deu certo! Só que o bicho pega aqui ó: consciência de classe! Esse negócio é um artigo de luxo e um reagente: ele te esfrega a verdade na cara! E muita, mas muita, gente mesmo não quer enxergar o óbvio: sua condição de pobreza! Poucos são os que dizem: – Sou pobre! Tenho casa, comida e vez por outra posso viajar, mas sou, de fato, pobre! A pobreza encaixota o ego! A pobreza põe o sujeito em estado de vulnerabilidades!

Quando o mais pobre começou a viajar de avião, comer carne, comprar carro e eletrodomésticos, quando começou a estudar, virar mestre, doutor…ah, aí fodeu! O pobre acima dele acendeu o alerta da vulnerabilidade: Opa! Esse cara tem de voltar pro lugar dele. Isso é tão claro! Lembra da fala do Guedes?! Sobre comida, sobre as empregadas nos aeroportos…Lembra da ministra da agricultura?! Falando sobre carne?!

O bolsonarismo prosperou, também, nos terrenos da vaidade, do orgulho, do preconceito, da segregação.

Não sou pobre, se tem alguém mais pobre que eu. Esse que é mais pobre que eu não pode ser e nem estar. Não pode estar nos mesmo lugares que eu!

Olha, eu já vou acabar, mas, dentro de minhas impressões sobre o antipetismo e a filosofia da direita brasileira, o que há é isto: uma coleção de inseguranças, falta de consciência de classe, egoísmos, frustrações, ignorâncias, medo e, acima de tudo, muita mentira autocontada, ah, e alguns toques de frustração de ordem sexual, inclusive.

 

 

Luis Otavio Barreto é músico pianista e professor de língua portuguesa.

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