Construir Resistência
Foto: arquivo pessoal

Sementes de resistência e transformação

Por Beatriz Herkenhoff

As rachaduras que vivemos no Brasil, com expressões de ódio e intolerância, correm o risco de criarem feridas narcísicas coletivas, difíceis de serem curadas

Na crônica anterior faço uma retrospectiva de todos os limites e impossibilidades em tempos de #pandemia. E afirmo que diante de tanto sofrimento, temos que construir estratégias de resistência em todas as dimensões: sociais, ecológicas, politicas, espirituais, psíquicas, afetivas, culturais, econômicas, de sobrevivência e de solidariedade. Buscarmos formas de nos agrupar (online), de fortalecer as relações familiares e com amigos.

Temos que reorganizar nossa maneira de ser e estar no mundo. O que fazer para minorar os efeitos psíquicos e emocionais dessa pandemia? A quem ajudar? Como ajudar? Como nos libertar da amargura que existe em nós fazendo coisas agradáveis, cuidando do nosso ser, mas, também nos colocando a serviço dos mais pobres?

As rachaduras que vivemos no Brasil, com expressões de ódio e intolerância, correm o risco de criarem feridas narcísicas coletivas, difíceis de serem curadas. Ocorrem confrontos diários que desativam a nossa energia vital.

Cada um se considera portador da verdade, os distanciamentos entre amigos e familiares que se amam, se ampliam. Manifestações de amor e de afeto deixam de circular.

Nasci em um berço privilegiado, nem por isso me transformei numa pessoa egoísta e autocentrada. Esse privilégio que sempre me inquietou fez com que colocasse minha própria vida a serviço daqueles que mais precisavam: os pobres. Fiz pouco, poderia ter feito mais.

Tentei ser semente de resistência em tempos tão difíceis de nossa história. E só por isso, acredito, minha vida tenha valido a pena. E hoje, sinto-me chamada a seguir lutando por um mundo melhor.

Diante de tudo que estamos vivendo, o adulto dá conta de administrar as frustrações geradas pelo isolamento. Transfere sua energia para a arte, os livros, o exercício físico, amplia sua dimensão espiritual, cultural e amorosa. Cria válvulas de escape que possibilitam o equilíbrio interior.

Mas, como as crianças e os jovens conseguem lidar com esse universo tão restrito na expressão do afeto? Os jovens são tolhidos na vivência de sua sexualidade, no prazer do encontro em festas, na expansão da sua alegria de viver!

O enfrentamento desses desafios terá que ser coletivo. Quando tudo passar a sociedade, movimentos sociais e políticos terão que se agrupar para encontrar alternativas frente ao caos instalado. Planejar atividades que contribuam para que todos possam lidar melhor com o buraco psíquico e emocional que fica, inclusive pela impossibilidade de viver o luto, de sepultar aqueles que se foram.

Como atravessar a dor reconhecendo nossa existência?

Além da ampliação de atividades culturais, de lazer, de realização de apoios psíquicos, emocionais e espirituais, são necessárias ações políticas e sociais para enfrentar a pobreza, a desigualdade, o desemprego, a falência econômica, a violência, o preconceito, a corrupção, o cuidado com o nosso planeta. Ações que envolvam toda humanidade, inclusive ajudas solidárias para os países mais pobres, colapsados e devastados.

Juntos podemos mudar a realidade e construir a cultura da não violência, do respeito e da valorização da vida. Para refletirmos sobre essas questões, temos que ter a coragem de mergulhar também em nosso mundo interior. Se permitirmos que a luz se expanda em nós, poderemos ampliar os gestos de amor e de solidariedade, nos engajando em lutas que gerem mudanças estruturais e que farão a diferença.

Proponho que, para além das nossas próprias causas, tenhamos coragem de tomar para nós a luta pelas causas sociais que são gritantes, sobretudo nesse momento. Que possamos sair do nosso Eu para ir ao encontro do outro. Que possamos incluir uma dimensão planetária de amor nos nossos critérios de felicidade.

Que possamos ter consciência dos nossos limites e potencialidades. Dialogar cotidianamente com nosso lado de trevas e de luz.

Não estou afirmando que as alternativas sejam individuais, pelo contrário, as estratégias são coletivas. Mas, se eu não aproveito essas experiências de privações para crescer e sair do egoísmo, da autossuficiência e da prepotência, fica difícil ser canal de mudanças. Quantas vezes a raiva fala mais alto do que o amor?

Não estou falando em submissão e passividade. A rebeldia é uma arma que temos para dar conta de viver e sobreviver. A teimosia é necessária.

Precisamos ser brigonas para enfrentar tantos desafios. Mas, também precisamos encontrar meios para lidar com nossos impulsos, para rever atitudes, para serenar nosso interior e ter um novo olhar sobre o momento. Temos que a partir desse mergulho, encontrar formas coletivas de preencher os vazios deixados pela pandemia.

O #isolamentosocial nos dá essa oportunidade de apararmos arestas, perdoar o que ainda dói, cuidar do outro, do nosso planeta terra, das matas, do equilíbrio ecológico e reciclar; reciclar a vida, reciclar o lixo transformando-o em paz e pão. Contribuir para a construção de um mundo melhor, mais justo, democrático e igualitário.

Esse é o convite que faço para que você saia de cena e olhe para a história em todas as suas dimensões. Não podemos deixar para amanhã. Viver o hoje com intensidade.

Que as mudanças venham de dentro para fora. Que a luz contida em nós se expanda para iluminar o mundo. Que haja a certeza e a esperança sempre.

Muitos amigos e familiares estão dialogando com minhas crônicas, e às vezes perguntam: você não é branda em suas colocações? Não é uma ilusão achar que as mudanças dependem de um movimento individual?

Em minha opinião, as mudanças são grupais. Mas, paralelamente, temos que cuidar do nosso eu, para que possamos nos envolver no coletivo de forma mais equilibrada, menos raivosa, contribuindo efetivamente para encontrarmos um caminho para um Brasil melhor.

Um caminho de combate à fome, de inclusão social, de preservação dos serviços públicos de saúde, educação, segurança, entre outros. Cada vida importa. Como contribuir para que as pessoas cuidem umas das outras?

Beatriz Herkenhoff é doutora em serviço social pela PUC São Paulo. Professora aposentada da Universidade Federal do Espírito Santo.

 

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