Construir Resistência
Foto: Arquivo Pessoal

Sem saída

Por Miriam Waidenfeld Chaves

 

Numa tarde de domingo, Maria entrou em casa depois de uma caminhada pela Lagoa, vislumbrou o Dois Irmãos, pensou no almoço, olhou os livros pousados sobre a mesinha ao lado de sua cadeira favorita e seguiu para o banheiro.

Abriu o chuveiro e deixou-se molhar por inteiro, da cabeça aos pés, debaixo de uma ducha bem quente, apesar do calor lá fora. Queria relaxar, esquecer que estava viva e que ainda tinha uma vida para viver. Queria não sabe bem o quê. Só sabia que queria!

Saiu do banho, enxugou-se e ligou a TV. E o almoço? Fica para depois. Mais tarde improvisa algo. No momento quer apenas não pensar em nada. Imaginar, sonhar, fazer planos, não consegue mais. Antes era tão fácil! Sempre com alguma ideia nova para por em prática.

Parece esgotada!

O programa Vida no Paraíso: Caribe é uma benção. Deita no chão da sala. Prefere o chão ao sofá. E se desliga do mundo. Viaja por Porto Rico, Jamaica e Guatemala.

Lembra que já foi à Guatemala. Parece que há séculos. Mas Antígua, Tikal e Chichicastenango surgem bem na sua frente. Coloridas, maias e fantasmagóricas. Olha para o Dois Irmãos e se esquece de sua última aventura percorrendo o Novo Mundo. Lembra do almoço. Precisa cozinhar algo. Beber água. Mas a preguiça é maior.

Pega o celular para ver o whatsapp. Cheio de mensagens não lidas. Não tem ânimo para lê-las, mas também não quer preocupar as amigas pelo seu sumiço.

Não sabe o que fazer. E o pior é que tem todo o tempo do mundo. Fazer o que com todo esse tempo do mundo? Ler? Dançar ao som dos anos 1960? Escrever? Inventar um curso para fazer? Trocar ideias consigo mesma? Ou simplesmente se perder no alto do Morro Dois Irmãos?

Suspira.

Não tem certeza, mas acha que já foi até o Dois Irmãos numa caminhada. Há séculos atrás. Lembra-se muito vagamente da sensação. De sentir o vento ventando no rosto. Do céu sobre sua cabeça e do mar aos seus pés. Azul e azul!

Amo as cores, pensa. Para que servem? Alegram a vida.

Quando vai a alguma livraria, as capas dos livros sempre chamam sua atenção. Adora as capas dos livros. Cada uma mais bonita que a outra. E quando admira aquela infinidade de livros, fica agoniada.  Será que tem leitor para tanto livro?

Os três livros empilhados na estante da sua sala estão esperando por ela. Mas primeiro tem que terminar a leitura dos que já começou. É sempre assim: quando está no finalzinho de um, o próximo já se assanha, chamando sua atenção. Numa disputa sem fim.

Qual vai ser sua próxima leitura?

Tem na fila A invenção da natureza, Um beijo de colombina e A dama do cachorrinho.

De repente se dá conta que, na falta de um plano para sua vida, acabou de inventar um: estipulou que irá terminar a leitura dos  livros que estão em sua mesinha até o dia 15 de maio. Assim, pode começar a ler aqueles três ao mesmo tempo, pondo fim de  vez à contenda entre eles.

Se diminuir as caminhadas, assistir menos televisão e falar menos ao telefone, Maria tem certeza de que consegue executar esse plano.

Já escureceu. Maria se levanta do chão, ainda sem energias. É como se estivesse sem gana para viver.

Vai até a janela e olha novamente  para o Dois Irmãos. Acende a luz da sala e se dirige para a cozinha. Vai inventar alguma coisa para comer.

Tem  fome.

 

Miriam W. Chaves é contista e professora da UFRJ.

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