Construir Resistência

Sem luta não há resistência

Por Sonia Castro Lopes

O Rio de Janeiro amanheceu ensolarado. Um veranico de dar inveja a paulista. 33 graus à sombra. E o povo trocou a praia pela passeata. Esperança. Esse era o sentimento que irradiava dos olhos dos milhares de pessoas que tomaram o centro do Rio neste sábado, 29 de maio. O dia das mobilizações contra Bolsonaro. As vozes eram abafadas pelas máscaras. Os gritos de #Fora Bolsonaro eram complementados pelos gritos de #Genocida! A maioria era jovem. Mas também havia muitos idosos e  crianças. Coisa rara de se ver!

Rebeca Oliveira, 23, estudante de história da UFRRJ ajudava a segurar a faixa que defendia uma educação pública, gratuita e de qualidade, sonho de todos nós. Perguntei se já havia tomado a vacina e ela me respondeu com outra pergunta: Não tem gente se aglomerando em festas, bares, praias, sem nenhum cuidado? Eu estou aqui por uma boa causa. Oscar, 74, disse que já havia tomado as duas doses da vacina por ser idoso e como bom patriota, estava ali para exercer seu direito de lutar pela democracia. Mais adiante, uma avó levava pela mão seu netinho de dois anos. O filho estava trabalhando e por isso não pode ir, mas o neto tinha que aprender a escolher desde cedo o caminho certo.

Confesso que tive medo. Apesar de vacinada, ali havia muita gente. Usei duas máscaras possantes, álcool nas mãos o tempo inteiro, assim como a maioria das pessoas. Mas o desejo de voltar à rua, constatar que não estamos sozinhos nessa luta acabou vencendo. A retomada das ruas teve um grande efeito moral. Foi bom reencontrar os companheiros, ver a esperança vencer o medo.

Às onze horas já havia uma multidão em frente à estátua de Zumbi dos Palmares. Três das quatro faixas da presidente Vargas foram interrompidas. Dali a passeata seguiu pela Avenida Presidente Vargas, dobrou na Avenida Passos, chegou à Praça Tiradentes e ao Largo da Carioca onde se concentrou por meia hora. E foi terminar por volta das 14 horas no local onde o Rio de Janeiro costuma comemorar seus grandes eventos: a Cinelândia.

Foi lindo ver aquele mar de gente gritando:

Vida/pão/vacina/educação.

Não tem emprego/ Tá tudo caro/ Povo na rua /É fora Bolsonaro.

A nossa luta unificou/é estudante junto com trabalhador.

Recua direita, recua/ é o poder popular que está na rua.

Não ocorreram tumultos, nem maiores incidentes. O povo carioca, de forma pacífica e ordeira, deu um recado ao governo. Basta! Queremos vacinas para todos, auxílio de R$600 e comida no prato dos brasileiros. A lamentar, o pequeno destaque dado pela mídia hegemônica a essa manifestação que envolveu mais de 400 mil pessoas em diversas cidades do Brasil e aos atos violentos cometidos pela polícia militar em Recife.

Termino com as palavras do professor Gabriel Marques, meu ex-aluno na UFRJ, que bem expressam o que vi e senti na manifestação de ontem. Diz ele em sua página do Facebook: “A véspera desse 30 de maio de 2021 nos mostrou caminhos, horizontes, potencialidades. Não podemos mais nos isolar em nossas residências. As ruas, as praças, as avenidas são nossos lares em busca de futuros abraços, apertos de mão e sorrisos destampados. Ah, que saudade de olhar para nossos amigos, irmãos, camaradas e ver o sorriso, a alegria no rosto. Mas isso tudo virá. Com luta, com luto, com paz entre nós e guerra aos senhores, é possível construir um mundo novo.”

Sem luta não há resistência e sem resistência não há democracia. #ForaBolsonaro!

Imagens da manifestação no Rio de Janeiro

 

Fotos: Sonia Castro Lopes

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