Construir Resistência

Se avançamos, foi dando murro em ponta de faca

Construir Resistência reproduz a entrevista com #ConceiçãoEvaristo , publicada no portal #BemBlogado

Por Constância Lima Duarte, Valter Silvério, Nilma Lino Gomes, Macaé Evaristo e Carlos Árabe

Quando discutimos a pauta de uma edição especial de Teoria e Debate sobre a esquerda negra, a primeira definição foi sobre quem entrevistar. Conceição Evaristo é contundente quando fala de discriminação racial, de gênero e de classe. “Se avançamos, foi dando murro em ponta de faca”, responde ao ser questionada sobre os avanços da esquerda em relação ao combate ao racismo.

A escritora Conceição Evaristo nasceu na zona sul de Belo Horizonte. Mudou-se para o Rio de Janeiro nos anos 1970, onde trabalhou como professora da rede pública e estudou Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É mestre em Literatura Brasileira pela PUC do Rio de Janeiro e doutora em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense. É romancista, poeta e contista, homenageada como personalidade literária do ano pelo Prêmio Jabuti 2019. Para citar um romance, Ponciá Vivêncio, e um livro de contos, Olhos D’Água, Prêmio Jabuti 2015. Criou o conceito “Escrevivência” para nomear seu procedimento narrativo.

Conceição integra o Conselho Editorial da Fundação Perseu Abramo.

Desta conversa com Conceição sobre sua história pessoal, militância política, a luta contra o racismo, a esquerda, utopia, seu processo de escrita, participaram: Constância Lima Duarte, Macaé Evaristo, Nilma Lino Gomes, Valter Silvério, Carlos Henrique Árabe, e Rose Spina.

Macaé Evaristo: Tenho memória da Conceição frequentando a minha casa em São Gonçalo do Pará. Minha mãe sempre teve muito carinho por ela. Meu pai gostava muito de ler, a Conceição era da juventude católica… Lá em casa tinha O Capital do Marx, e minha mãe, que tinha muito medo porque estávamos em plena ditadura, escondia o livro dentro da lata de arroz. Então, diziam que todo mundo virou comunista por comer arroz com O Capital. Tanta coisa a gente não compreendia na infância, a situação de opressão, violência e pobreza que as famílias viviam. Eu queria que a Conceição falasse desse período, sobre como foi a infância e juventude negra nas Minas Gerais.

Conceição Evaristo: Lembro que ainda menina, não entendia por que eu tinha de tratar os patrões da minha mãe de senhor e senhora, mas a menina da casa da mesma idade que eu tratava a minha mãe pelo nome.  Não entendia que senhor e senhora significavam status social, separação. Isso me causava um incômodo muito grande.

Ir para a sua casa era um momento de afetividade e afirmação muito grande. Receber o carinho da sua mãe, Maria Antônia. Eu cresci tendo orgulho do seu pai, Catarino Evaristo, que era ex-expedicionário, poeta, se sobressaiu na família. Ele foi a primeira pessoa que me deu as noções de negritude. Tenho a impressão inclusive que ele tinha ouvido falar no movimento da Negritude, na Frente Negra Brasileira porque hoje eu situo a fala dele dentro de um contexto. Ele foi muito responsável pela minha formação. Lembro quando eu ainda era muito menina e ele disse que a humanidade tinha inventado três situações para escravizar o homem: pátria, família e religião. E por essas três, as pessoas eram capazes de qualquer barbaridade.

Quando fiz o vestibular em 1976 no Rio de Janeiro, lembrei-me do que Catarino me dizia: Você tem de estudar, se construir, porque cada negro que se liberta, cada conquista nossa, estamos libertando outros negros que ficaram para trás e não tiveram essa oportunidade. Ele estava falando de ancestralidade. Na época eu assimilava muito mais pela emoção, do que por qualquer capacidade de análise.

Esse momento d’O Capital escondido na lata de arroz, eu era da Juventude Operária Católica (JOC), ligada aos padres do Horto. Estávamos em plena ditadura e o Dops passa a perseguir todos esses movimentos de base e também a JOC.

A consciência que eu tinha na época, que depois foi se politizando, era da nossa pobreza! Morava na favela. Nos movimentos de Igreja tínhamos uma reflexão sobre as questões sociais, em momento algum sobre as questões raciais. Em 2013, na UFMG, Michel Le Ven me disse: “Conceição, não tinha me atentado para o fato de que a grande maioria dos militantes de JOC era negra. A questão racial não era discutida no grupo, só a questão operária, a social”.

Nilma Gomes: A sua escrita tem uma dimensão política fantástica que vai além de uma redução que acaba se fazendo do que é a política na vida das pessoas. Através da sua escrita, da Escrevivência, você tem reeducado as pessoas na sociedade brasileira, negras e brancas, em relação à situação das mulheres negras e, principalmente, as pobres. Queria que você falasse sobre o fato de que hoje a sua escrita toca a vida de muitas mulheres brancas também, mesmo que muitas sejam de classe média que não viveram o que mulheres negras de família pobre viveram.

Conceição: Eu penso também na escrita como vingança. Acho que tudo que as mulheres que nos antecederam não puderam falar, nós estamos falando. Forçamos caminhos para falar. Muitas mulheres estão falando, mas quantas estão caladas hoje ainda? A escrita toca essas mulheres que estão sensíveis, abertas a nos escutar. Tocará mulheres brancas, de classe média e até ricas, se elas estiverem dispostas a sair de sua zona de conforto. A gente vem falando, escrevendo, mas às vezes parece que é para o vazio. As nossas vozes custam muito a ter repercussão, mas quando chegam é justamente para fazer esse estardalhaço. Falar da nossa dor, posso dizer a você, Nilma, e a Macaé, mas falar do que causa as nossas dores, dificuldades, interdições, nós temos de dizer para quem está causando isso. Então, é muito bom que mulheres que estão fora das nossas experiências pessoais e coletivas nos escutem e nos levem a sério.

Pensando em Angela Davis: “Quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. Se conseguirmos através das nossas ações, fala e escrita, sermos uma força dinâmica para alguma mudança, essas mulheres estarão no bojo também. Será muito lucrativo para elas e talvez até mais para elas. Para nós o pouco ou muito que conseguimos é novidade, mas para quem já tem seus direitos garantidos, quanto mais uma sociedade for estável, justa, se tornar menos perigosa pelas injustiças que ela pratica, será muito bom para a classe média, os intelectuais, para todos.

Que bom que a minha escrita tem essa capacidade de convocação. É consciente, não quero escrever só por prazer ou por diletantismo. Eu quero realmente causar esse incômodo.

Constância Duarte: O que você acha da ampliação do conceito de Escrevivência rumo a outras artes e atividades, desenvolvidas por artistas e intelectuais negros, negras, em seus diversos campos de trabalho, pintura, escultura, tecelagem e até na Pedagogia?

Conceição Evaristo: Esse conceito tem se ampliado para outras artes, sendo apropriado tanto por mulheres negras, como por homens e mulheres brancas… A felicidade desse conceito é que ele permite a valorização de uma experiência, de uma vida que até então poderia parecer não ter significado. A partir do momento que você pensa que a vida da Dona Maria, no bairro da Serra e a de Angela Davis são vidas tão diferentes, mas ao mesmo tempo semelhantes, por uma herança histórica e ancestral, essas vidas fornecem conteúdos que podem ser utilizados no campo da arte, da reflexão, da política, da educação e assim por diante.

Quando falamos “vidas negras importam”, vidas negras importam porque são vidas que têm direitos e precisam escapar da morte e que fornecem elementos para se pensar a própria vida e transformar esse pensamento em artes. A Escrevivência permite partir da prática para a teoria. Primeiro, você vive, depois elabora sobre o que viveu. As pessoas estão descobrindo que estão fazendo Escrevivência, ao levarem para o teatro a experiência pessoal ou coletiva, dos grupos ou das coletividades negras, pobres ou indígenas. Há também um livro que relata experiências de mulheres trans, que parte desse conceito de Escrevivência.

A novidade é as pessoas perceberem que suas vidas e assim como as experiências coletivas de seus específicos grupos produzem arte e pensamento. Deixarem de crer na a ideia de que vida e experiências que produzem arte e pensamento são através, preferencialmente, de homens brancos, da Europa, ou a nata dos EUA. Pensar a Escrevivência como paradigma é muito bom. Até então, diretriz e paradigma eram das pessoas brancas e das classes privilegiadas.

Valter Silvério: Passando por uma banca de jornal vi uma revista dessas semanais, com um título sobre “Escrevivência”, mas não tinha nenhuma referência a Conceição Evaristo. Ao mesmo tempo que o conceito ganha o mundo, há a destituição da autoria. Você talvez seja a primeira intelectual brasileira a enfatizar a experiência. Como você vê a mundialização de um conceito introduzido por uma intelectual negra que cresce e escreve a partir da própria condição, que é vista hoje como emancipatória, do ponto de vista da mulher e da população negra?

Conceição Evaristo: Tenho visto alguns textos que usam o termo Escrevivência e não dão autoria. Isso faz parte de um processo que como negros vivemos na história. Apropriam-se de nossas experiências, perdemos a autoria ou então não lucramos. É só lembrar que as velhas guardas do samba morriam quase todas pobres. Não há como controlar isso. O conceito de Escrevivência está sendo apropriado inclusive de algumas maneiras que fogem ao seu fundamento. Tenho insistido para não se perder de vista o fundamento do conceito, que está profundamente ligado à história das mulheres negras. Terminei um seminário sobre mulher e literatura com a frase: A nossa Escrevivência não é para ninar os da casa-grande e sim para acordá-los do sono dos injustos.

Eu uso esse termo desde minha tese de mestrado. O termo tem para mim uma imagem fundamental. A experiência negra que é intransferível. Um fundamento muito perceptível, pois traz a nossa experiência histórica de negros, quando retornamos a uma imagem do passado e vemos as africanas e suas descendentes escravizadas contando histórias para ninar os da casa-grande. Essas mulheres têm o corpo escravizado na economia da produção, do prazer, do lazer, do sexo, da educação (são as primeiras professoras) e são escravizadas na emissão palavra, porque têm de contar histórias para as crianças adormecerem. A Escrevivência já é uma experiência das mulheres contemporâneas borrando esse passado. Aí eu volto à literatura como vingança. Se minhas antepassadas eram obrigadas a isso, hoje nos postamos em outro lugar e a nossa escrita é para acordar a casa-grande. Essa experiência grita em primeiro lugar, depois vem a teoria. Para mim a experiência do sujeito, do corpo, da vivência é o que fundamenta o que hoje chamamos de “Escrevivência”.

Valter Silvério: Qual a importância da literatura do Quilombhoje na sua produção?

Conceição Evaristo: Quilombhoje é um espaço que permite a operacionalização dessa experiência, com textos de autoria negra. Aqui falando muito mais de uma experiência coletiva. Pauline Chiziane fala que mesmo quando escreve um texto em primeira pessoa está falando de uma experiência coletiva. A Escrevivência tem esse caráter, não se esgota no sujeito individualizado. Quilombhoje é o lugar no qual eu pude apresentar essa experiência coletiva. É muito sintomático que a primeira vez que eu participei de Cadernos Negro, o poema que se torna mais conhecido é o “Vozes-Mulheres”.

Nilma Gomes: Algumas mulheres negras despontam na sociedade e na vida política nacional. Pensando no tema que a revista coloca na edição “Esquerda negra”, você acha que a esquerda brasileira tem avançado no reconhecimento de que é preciso combater o racismo?

Conceição Evaristo: Se a esquerda tem avançado na discussão sobre racismo, tem colocado em suas pautas ações de combate ao racismo… se… é muito pelo nosso esforço, pela nossa luta. Admiro muito as pessoas negras que têm tino político para estar dentro de um partido político. Me orgulho de Macaé por tomar esse lugar. Temos visto muito a luta das candidatas negras. Acompanhei campanhas de Benedita da Silva, Jurema Batista e participei da campanha de Adélia Azevedo. Fiquei pensando: o que é isso? E passou. Ano passado, eu acompanhei a possível escolha de Vilma Reis para concorrer à Prefeitura de Salvador, toda entusiasmada, e várias candidaturas negras de partidos de esquerda. Quando vi pessoas declarando voto em outro candidato e Vilma perde a convenção, fico me perguntando: Na hora do pega pra capar, como esses partidos agem? Penso que muitas candidaturas interessam ao partido para popularizá-lo. Candidaturas negras e principalmente de mulheres popularizam os partidos de esquerda. Mas eu não sei até que ponto os partidos incorporam as demandas das comunidades negras.

Como intelectuais de esquerda foram capazes de assinar manifesto contra as Ações Afirmativas? Na hora de efetivação de políticas que, se efetivadas, constituiriam em enfrentamento da esquerda contra o racismo, a coisa falha.

Até que ponto nós temos uma esquerda convicta de que o racismo é uma das primeiras questões que os partidos de esquerda deveriam enfrentar? Fico muito à vontade para perguntar isso. Se esse avanço existe é porque nós damos murro em ponta de faca.

Nilma Gomes: Observamos principalmente no governo Bolsonaro a presença de pessoas negras comprometidas com projeto de direita. Isso tem impactado muita gente. Há até quem nos cobre por haver um presidente na Fundação Palmares racista. O você acha disso? pense que todas as pessoas negras têm de fazer as mesmas escolhas, sendo que há brancos de todas as correntes políticas.

Conceição Evaristo: Nós não somos unos, iguais, somos sujeitos distintos. Como tem branco de esquerda e branco de direita, pode ter negro de esquerda e negro de direita. Mas os negros de direita são fruto dessa inconsciência racial que atinge brancos e negros.

Constância: Como podemos interpretar a contribuição e o legado de Paulo Freire para uma educação pautada pela realidade do “subalterno”? Não há um indício da Escrevivência na Pedagogia do Oprimido? Se era uma comunidade de agricultores as palavras iniciais era mato, planta, terra, comida…

Conceição Evaristo: Sem sombra de dúvida. O ato de alfabetização era a vida concreta, a partir de uma experiência do sujeito que estava se alfabetizando. A vida era o sumo do método.

Valter Silvério: Macaé e eu fizemos parte da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), do Ministério da Educação no governo Lula, que incluía as questões indígena, ambiental, racial, de gênero… Como secretária, Macaé teve uma ideia de fazermos vídeos de um minuto, que foi muito bom. Estamos lidando com uma geração de nativos digitais, crianças que nascem já mediadas pelo uso das tecnologias. Recentemente, me deparei com um vídeo feito por jovens indígenas que recontavam a história do seu próprio grupo a partir do uso das tecnologias. Como nós atualizamos o debate freiriano, ou fanoniano, nos dias de hoje?

Conceição Evaristo: Nessa questão de novas tecnologias eu sou ignorante, mas reconheço a importância. Tem uma juventude hoje que lida com essas tecnologias e tem informação sobre Fanon, Paulo Freire, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez e que é capaz de transitar nesses dois terrenos. Essa juventude pode voltar às fontes e trabalhá-las de outra forma.

Macaé: Costumo dizer que Conceição não faz lançamento de livro, ela dá consulta espiritual. É muito interessante o quanto a juventude e, principalmente, mulheres jovens, negras, trans acompanham o seu processo de escrita e são tietes, fãs. O que na minha adolescência não havia, ser fã de uma escritora negra. Queria que você falasse sobre essa experiência de estar sempre rodeada desse público?

Conceição Evaristo: A presença de jovens me deixa muito comovida nesses momentos de autógrafo, talvez, justamente porque eu nunca na minha infância vi um escritor ou escritora de perto e muito menos um escritor negro. Fui a um autógrafo, pela primeira vez, no Rio de Janeiro, por isso tenho muito cuidado com essa juventude que me cerca. E à medida que eu posso estar presente, acompanho a fala das pessoas mais jovens. Às vezes, tem determinadas criações jovens tão pós-modernas, que eu nem entendo. Entretanto, fico feliz da juventude me tomar como referência, porque tenho pensado muito sobre o papel das pessoas negras, mais velhas, de nossos núcleos, com nossas experiências raciais e sociais, junto a esses jovens. Ecléa Bosi diz em um de seus trabalhos, que uma das funções sociais dos velhos é relatar aos mais novos experiências e momentos, que os mais jovens desconhecem. Acho que temos mais a fazer, em relação à juventude negra. Temos também a função de apoiar e sustentar as ações dos mais novos. Penso muito em Abdias do Nascimento, em Mãe Beata de Iemanjá, Milton Santos, pessoas que numa fase de vida, que é também a que eu vivo, tiveram a oportunidade de suas vozes repercutirem.

Constância: É comum entre a intelectualidade negra contemporânea a alegação de que “nossos passos vêm de longe”, expressão transformada em verdadeiro mantra a guiar toda uma percepção crítica da realidade. Como você interpreta essa presença do passado? No sentido dos ancestrais mais longínquos (sentido cultural e mesmo religioso), ou no sentido mais recente, dos antepassados submetidos ao cativeiro (sentido mais político e social)?

Conceição Evaristo: Eu interpreto essa presença pelos dois ângulos. Nesse passado ancestral, esse resquício de uma cosmogonia negra que nós carregamos mesmo sob a imposição de religiões. Ao dizer que nossos passos vêm de longe, dizemos que nossos deuses, sentidos de vida, existências vêm de longe. Também no sentido político, o passado da escravização não esgotou, precisa ser expurgado. E isso só acontecerá quando não precisarmos gritar mais que “vidas negras importam”. Cada ação, cada reivindicação nossa de agora é ainda a necessidade de expurgação, de justiça, de um passado que não foi resolvido.

Carlos Henrique: Entendo que a Escrevivência é uma utopia muito concreta. Você pode nos dar algumas pistas dessa utopia?

Conceição Evaristo: Essa experiência dos povos africanos que são levados à escravização… A experiência da utopia é também negra, muito ligada aos povos africanos e à escravização. Se não fôssemos utópicos, não teríamos sobrevivido. Se nós voltarmos ao evento histórico dos navios negreiros: se não fosse a crença em alguma coisa do outro lado, que possibilitaria a retomada de vida, todos teriam sucumbido em alto mar. A travessia de alguma forma, a sobrevivência, já é a esperança de justiça. O filme que mostra bem isso é Amistad. No caso do filme é uma ficção baseada em um evento histórico. Amistad é uma experiência histórica, utópica de povos que enfrentaram a travessia.

Já os poemas Vozes d’África e Navio Negreiro, de Castro Alves, apesar de terem sido discursos fundamentais de conscientização da luta libertária travada através dos abolicionistas e da literatura, são descrições da condição africana diaspórica marcada pela impotência.

Outra que é paradigmática é a experiência quilombola. A pessoa escravizada quando fugia para o quilombo não tinha certeza nenhuma de que tivesse conquistado a liberdade. Na verdade, a situação de fuga tornava a pessoa escravizada mais vulnerável ainda, pois quem fugisse, se fosse pego, seria castigado em dobro, pois era um escravo, que cometera a audácia de fugir, de ir contra o sistema. Fugia e procurava o quilombo. Essa é uma experiência de utopia, pois ele fugia com a sã consciência de que tinha de conseguir a liberdade.

Essa utopia se renova hoje quando vamos para a rua e gritamos: “vidas negras importam”.

Valter Silvério: Você fala de liberdade, que é uma questão que acompanha os intelectuais negros ao longo da experiência no Ocidente, e daí a importância da ideia de liberdade e da diáspora e se perceber como parte de um povo de um continente o que é muito recente nas nossas interpretações enquanto sujeitos. Essa é uma discussão que infelizmente não é compreendida pela esquerda. Mas você também traz a dimensão do futuro. Eu assisti ao seriado Raízes, que marcou muito minha geração na década de 1970, e mais recentemente o filme Pantera Negra… Gostaria que você falasse da importância desses dois momentos da linguagem visual que demarcam gerações de jovens negros.

Conceição Evaristo: Também assisti e li Raízes. Quando repetimos que nossos passos vêm de longe, esse vir de longe justamente nos remete a Raízes. E o futuro que se realiza – pois não é mais o futuro que se sonha – está em Pantera Negra, que seduziu muito a juventude negra. Nesse filme há outros elementos para a juventude negra pensar a contemporaneidade e um futuro possível de existir.

Entre as duas produções há uma longa caminhada, não só histórica, mas de produção de pensamento. Há novas possibilidades de interpretação para municiar essa juventude negra.

Macaé: Gostaria de recuperar com a Conceição, do período da geração das nossas tias, a organização das mulheres para o trabalho na agricultura. Essa memória diz muito sobre como foi a vida das mulheres no pós-abolição e como elas tiveram de ir para o mundo do trabalho, numa época que as mulheres nem pensavam estar nesse lugar.

Conceição Evaristo: Esse episódio relata também o protagonismo das mulheres negras nas lutas feministas e que não está escrito na história dessas lutas. Minha tia, que era irmã mais velha do pai de Macaé, era de 1914. Aos 16 anos, 17 anos, ela e outras trabalhavam na roça na região de Pedro Leopoldo (MG), e os fazendeiros resistiam em contratá-las, com a justificativa de que o trabalho das mulheres rendia menos que o de homens. Elas passaram a trabalhar em mutirão, capinavam, semeavam e colhiam. Ao final da colheita o fazendeiro percebeu que o trabalho delas rendia tanto ou mais que dos homens. Eram mulheres negras, pobres, muito próximo ainda do período de escravização, que se organizam para enfrentar os antigos senhores e passam a ser contratadas para o trabalho na lavoura. Essa é uma história que eu sempre relato, pois não aparece na luta das mulheres brasileiras. É uma história que nasce a partir da prática e se não se tornar Escrevivência continuará desconhecida.

Macaé: Você falou sobre a escrita como vingança. Qual o lugar do ódio na luta contra o racismo? Nós acusamos o fascismo de fazer apologia ao ódio, a cultura do ódio…

Conceição: Não existe lugar para o ódio. Acho que a gente acaba engolindo esse ódio. Mas às vezes eu me pergunto se não deveria existir. Essa postura de diálogo, de eterno apaziguamento, às vezes cansa. Quem está contra nós não tem nenhum problema de usar o ódio. Por exemplo, uma mulher que abandona uma criança de 5 anos no elevador sabendo que havia risco. (Caso do menino Miguel). Trata-se de uma política de ódio que está efetivada. Não é só a polícia que fomenta a política de ódio. Existe uma política de ódio contra as populações pobres, marginalizadas…

Valter Silvério: Existe lugar para o ressentimento na sua literatura? Não a conotação negativa que dá o senso comum, mas, como discute Fanon, o ressentimento como construtor da possibilidade de emancipação… Acho que sua literatura é isso.

Conceição Evaristo: Quando eu escolho compor determinadas personagens totalmente diferentes do que a literatura branca produz, pode ser que haja um ressentimento positivo. Tem um poema de Adélia Prado, que eu gosto muito, a voz que se enuncia nos versos diz ter um constante sol, em casa, porque o pai tinha pintado as paredes de alaranjado. Gosto porque me possibilita criar outro poema, em que escrevo que todo dia tínhamos o sol dentro de casa, porque os raios entravam pelos buracos das poucas telhas. Talvez o lugar do ressentimento é contrapor poeticamente o desconforto ao conforto.

Rose Spina: Ano que vem são 200 anos da Independência do Brasil, qual reflexão deve se fazer nesse momento?

Conceição Evaristo: É preciso pensar numa independência que se realize de forma mais concreta, de forma mais objetiva. É preciso refletir: Até que ponto toda população brasileira é independente? Isso em termos práticos. A independência deveria supor condição de vida e não condição de sobrevivência. Na sobrevivência se tem o que se pensa que basta, não o que é de direito. Que independência é essa que se comemora? Quais grupos sociais podem afirmar que têm liberdade plena? O sujeito que não pode frequentar um cinema, ler um livro, que não pode chegar tantas horas da noite na comunidade onde mora, que não pode dirigir um carro de última geração, se não a polícia barra, que independência tem?

Valter Silvério: Acabamos de terminar três volumes de História Geral da África, que são relativos à diáspora, e o Brasil participou do financiamento desses volumes. É bastante contraditório constatar que os africanos nos veem como a sexta região do continente africano, e a elite brasileira, incluindo os setores progressistas, não consegue enxergar que o Brasil é um país atravessado por uma cultura de matriz africana. Como avançar para que no futuro essa questão seja assimilada pelos brasileiros, pelo menos pelos progressistas?

Conceição Evaristo: Eu tenho muita esperança no trabalho e na potência dos nossos jovens. Como aos poucos vamos contaminando determinados setores, não há mais como ficar livre de nós. Esse momento, essa nossa conversa, também simboliza isso. A esquerda tem de perceber que não sobrevive sem nós. E não pode nos fazer somente de sujeitos para ajudar a fortalecer uma pauta, mas na hora H não nos chamar para escrevê-la, elaborar projetos.

Temos uma juventude que não vai deixar por menos. Voltando à questão de cargos eletivos, vejam, por exemplo, essas candidaturas novas de mulheres que surgiram após a morte de Marielle… Nós mais velhos temos o papel de sustentar, estar em diálogo e preparando essa juventude. Ou as nossas propostas vão se efetivando ao longo de um tempo, ou não vai ter para ninguém. Não acredito em milagre, mas o que a nossa geração não conseguiu, há uma geração disposta a conseguir.

A intelectualidade, os partidos de esquerda, têm de nos incorporar, não porque são bonzinhos, mas porque não dá para pensar uma nação sem os negros, sem as mulheres, sem os indígenas, sem as experiências as mais diversificadas possíveis.

Constância Lima Duarte é doutora em Literatura pela USP, foi professora na UFRN e na UFMG, pesquisadora do CNPq

Macaé Evaristo é vereadora pelo PT em Belo Horizonte, foi secretária de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do MEC

Nilma Lino Gomes é professora emérita da Faculdade de Educação da UFMG, ministra da Seppir, em 2015 e das Mulheres, da Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos (2015-2016)

Valter Silvério é doutor pela Unicamp, é professor do Departamento de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos

Carlos Henrique Árabe é diretor da Fundação Perseu Abramo

Rose Spina é editora

Leia direto na fonte em:

“Se avançamos, foi dando murro em ponta de faca”

 

 

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