Construir Resistência

Resistentxs

Screenshot 20240610 114343 Facebook

Quantos dessa turma irão escapar?

Por Moisés Mendes – no seu blog O tempo corre de mãos dadas com todos os investigados por crimes cometidos em conexão direta ou indireta com planos, ações e ideias das estruturas da direita e da extrema direita. Há um sentimento de que estão sendo invertidas as expectativas. Não se vislumbra mais com a mesma certeza a vasta lista dos que poderão ser enquadrados pelo sistema de Justiça São mais citados os que poderão escapar, enquanto a velha direita se alia ao novo fascismo para, entre outras coisas, tentar anular delações de companheiros presos. A lista abaixo tem gente investigada em todas as áreas. Tem golpistas, lavajatistas, muambeiristas, cloroquinistas, patriotistas, vampiristas de vacina, negacionistas, rachadistas. Os nomes estão enfileirados de forma aleatória, dispostos assim propositalmente. Quem se dispuser a ler a relação pode testar a própria capacidade de vincular a figura aos crimes investigados. Os casos de muitos deles já estão próximos do estágio do esquecimento. Quase todos dependem de decisões do Supremo e em especial do ministro Alexandre de Moraes. É apenas uma versão de listas possíveis com os nomes de investigados, com poucos indiciados e processados até agora. Claro que muita gente ficou de fora. Eis a lista dos que, enquanto o tempo avança, têm cada vez mais chances de escapar: Jair Messias Bolsonaro, general Walter Braga Netto, general Eduardo Pazuello, Marcelo Queiroga, Onyx Lorenzoni, Ernesto Araujo, coronel Elcio Franco, Ricardo Barros, Anderson Torres, Silvinei Vasques, Flavio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro. Luciano Hang, coronel Marcelo Câmara, Bia Kicis, Carla Zambelli, Carlos Bolsonaro, Osmar Terra, Frederick Wassef, Silas Malafaia, Fabio Wajngarten, coronel Mauro Cid, general Mauro Cesar Mourena Cid, Gabriela Hardt. Almirante Bento Albuquerque, general Augusto Heleno, Sergio Moro, Nikolas Ferreira, Gustavo Gayer, Deltan Dallagnol, Jair Renan Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, Tércio Arnauld Tomaz, Allan dos Santos, Mario Luft, Pablo Marçal. Fabricio Queiroz, Ricardo Salles, Abraham Weintraub, Fernando Parrillo, Eduardo Parrillo, Filipe Martins, Delegado da Cunha, Jorge Seif, Monark, Delegado Caveira, Chiquinho Brazão, Pedro Benedito Batista Júnior, Domingos Brazão, Meyer Nigri, Filipe Barros, André Fernandes, General Girão, Wagner Rosário, Zé Trovão, Ricardo Barros, Carlos Jordy, Luiz Philippe de Orleans e Bragança, Nise Yamaguchi, Otávio Fakhoury, Marco Feliciano, Ricardo Arruda, Tércio Arnaud Tomaz, Léo Índio, Marcelo Câmara, Carlos Wizard, Emilio Dalçoquio Neto… (complete a lista a gosto). Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre. Foi colunista e editor especial de Zero Hora. Escreve também para os jornais Extra Classe, Jornalistas pela Democracia e Brasil 247. É autor do livro de crônicas ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim)

Leia mais »
Screenshot 20240608 095134 Facebook

O oportuno Crônicas do Irã

Por Simão Zygband  “Não devem estar à frente das discussões aqueles que pregam a extinção do outro”.     Chega em boa hora e em momento oportuno aos cinemas o filme “Crônicas do Irã”, de Ali Asgari e Alireza Khatami, que produziram por conta própria, evidentemente sem apoio governamental, tendo posteriormente conseguido lança-lo no Festival de Cannes e também exibi-lo em Londres, Chicago e demais festivais internacionais, como um dos mais proeminentes exemplares nos últimos anos do excelente cinema iraniano. O filme traz uma importante reflexão para se colocar um pouco de luz em uma das mais obscuras guerras desenvolvidas por sanguinários criminosos, contra quem foram solicitados inclusive pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) pedidos de mandados de prisão: o primeiro -ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, assim como para lideranças do Hamas em Gaza, Yahya Sinwar, líder militar, Mohammed Diab Ibrahim al-Masri, líder das Brigadas Al-Qassam e Ismail Haniyeh, líder político. No atual momento do conflito entre Israel e Hamas, o filme se torna bem vindo por incluir um componente de debate e reflexão por que a guerra fratricida que ocorre na região também passa pela tentativa de expansão não somente do território israelense, mas também do islamismo como força mundial, repudiando o modelo de vida ocidental representado pelos EUA e pelos israelenses, mas também tentando impor  um estado totalitário islâmico. Evidente que a equação do conflito no Oriente Médio não deverá acontecer enquanto houverem lideranças como os assassinos Netanyahu e Sinwar, em lados opostos da mesa. São terroristas sanguinários que nem de longe pretendem o diálogo. Um depende umbilicalmente do outro, ambos credores da indústria armamentista, exatamente quem lucra com o derramamento de sangue, além dos bancos internacionais, uma sombra atrás de todos os conflitos que geram negócios. É como se grupos mafiosos como o PCC ou as milícias cariocas se sentassem á mesa de negociação para discutir a questão de segurança nas comunidades. O Hamas, um grupo terrorista que se supõe libertador de Gaza, é financiado pelos aiatolás do Irã e do Iêmen. O modelo político vigente naquele território em disputa, e que agora é destruído por Israel,  não é muito diferente do de seus financiadores. São estados totalitários, homofóbicos e misóginos. Isso não os impede de ter um território próprio, assim como Israel. Estas questões devem ser tratadas e negociadas internamente por seus povos. A mim, particularmente, judeu que não professa a religião judaica (e há controvérsia nisso também), não existe outra solução senão a criação do estado palestino e a manutenção do judeu. Outra ideia diferente desta tem o cheiro azedo de antissemitismo e de islamofobia. Se não funcionar, então se encontra outra solução. Mas não devem estar à frente das discussões aqueles que pregam a extinção do outro. Crônicas do Irã apresenta uma série de vinhetas que mostram as vidas de pessoas comuns e bem diferentes umas das outras, enquanto lidam com adversidades sociais, religiosas e institucionais e montam retratos divertidos (mas não menos complicados) do dia a dia da população iraniana. Deve ser assistido, independentemente do seu olhar.  

Leia mais »
Screenshot 20240607 131015 Facebook

O que estou fazendo aqui?

Por Moisés Mendes – em seu blog Esta foto de Gabriela Biló, da Folhapress, publicada na Folha online nessa quarta-feira, poderia ter dezenas de legendas. Gabriela flagrou Marina Silva e Eduardo Leite na cerimônia pelo Dia Mundial do Meio Ambiente, em Brasília. Marina acena para alguém, enquanto Leite larga a mão esquerda no ombro dela. Há assimetria em tudo. A ministra do Meio Ambiente está de costas para o governador, que parece buscar um ponto de fuga. O que Leite estava fazendo ali naquela cerimônia? A foto denuncia: estava perdido. Não há nada que indique convergência na imagem. Nada que, apesar da mão no ombro, passe alguma intimidade ou cumplicidade. Eduardo Leite é o governador do Estado destruído por uma catástrofe climática única, sem exemplo no mundo com essa extensão. Foi ele quem causou o desastre? Não. São homens que pensam como ele em toda parte. Não são negacionistas, como alguns os identificam, inclusive Marina. São figuras privadas ou públicas que desprezam o meio ambiente, geralmente em nome de interesses econômicos poderosos. Leite destruiu a legislação ambiental gaúcha em 2019, no primeiro ano do seu primeiro governo. Tudo o que faz anda em desacordo com quase tudo que diz. Não se preparou para a enchente do ano passado e não adotou nenhuma medida de prevenção contra o que os cientistas anunciavam que se repetiria. Não há no seu governo um gesto, um só, na direção contrária à da destruição. Não há nada pela proteção ambiental. Seu programa de governo não tem nenhuma referência ao meio ambiente. Essa semana, Leite fez uma cerimônia no Palácio Piratini para anunciar que uma agência holandesa irá coordenar um plano de prevenção para as bacias hidrográficas do Estado. Bajulou os holandeses para desprezar grupos de cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que já atuam em várias frentes de estudos sobre o enfrentamento das cheias e ofereceram seus serviços ao Estado. E foi a Brasília para aparecer na foto com Marina e pedir que Lula pague os salários de empregados de empresas prejudicadas pelas cheias. Leite não tem uma fala, uma frase, não tem nada que o habilite a estar em eventos como esse do Dia Mundial do Meio Ambiente. Mas estava lá, tentando afagar Marina, com uma proximidade cenográfica, porque nada os aproxima. Eduardo Leite é um desastre político do tamanho da catástrofe que destruiu cidades gaúchas. É um sujeito fora do lugar, estando em Porto Alegre ou em Brasília. Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre. Foi colunista e editor especial de Zero Hora. Escreve também para os jornais Extra Classe, Jornalistas pela Democracia e Brasil 247. É autor do livro de crônicas ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim)

Leia mais »
Screenshot 20240606 194542 Chrome

Governo vai pagar dois meses de salários mínimos a trabalhadores do RS

Por Pedro Rafael Vilela – Repórter da Agência Brasil    Programa vai beneficiar mais de 430 mil pessoas no estado O governo federal anunciou nesta quinta-feira (6) um programa de manutenção do emprego que prevê o pagamento de dois meses de salário mínimo a mais de 430.253 trabalhadores com carteira assinada de empresas do Rio Grande do Sul afetadas diretamente pelas enchentes de maio. O anúncio foi feito pelo ministro do Trabalho, Luiz Marinho, em Arroio do Meio, no Vale do Taquari, durante a quarta visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao estado. A medida abrange, de acordo com o ministro, trabalhadores em regime CLT (326.086), estagiários (36.584), trabalhadores domésticos (40.363) e pescadores artesanais (27.220). O programa deve pagar diretamente o salário aos beneficiados e, como contrapartida, as empresas deverão manter os empregos por mais dois meses, totalizando uma estabilidade de quatro meses. “Nós vamos oferecer duas parcelas de um salário mínimo a todos os trabalhadores formais do estado do Rio Grande do Sul que foram atingidos na mancha [de inundação]. Não são todos os CNPJ dos municípios em calamidade ou emergência, mas os atingidos pela mancha”, enfatizou o ministro, sobre o perfil das empresas que poderão aderir ao programa. Para viabilizar a medida, o presidente Lula e o ministro do Trabalho assinaram uma Medida Provisória (MP), que entra em vigor de forma imediata, mas precisará ser aprovada pelo Congresso Nacional. O ministro do Trabalho também informou que o governo vai editar uma portaria para prorrogar a validade dos acordos coletivos de trabalho entre empresas e sindicatos. O anúncio do programa ocorre um dia depois que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, ter pedido ao presidente Lula a criação de um programa de manutenção de empregos e complementação do salário, durante uma reunião de ambos no Palácio do Planalto. Outras medidas Além da Medida Provisória que autoriza o pagamento de salários por dois meses, o presidente Lula assinou outras duas MPs. Uma delas amplia o número de cidades gaúchas beneficiadas com parcela extra do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), no total de R$ 124 milhões. Já a outra MP, segundo o anúncio do governo, amplia a quantidade de municípios que poderão cadastrar famílias beneficiárias do Auxílio Reconstrução, pago em cota única no valor de R$ 5.100. Até o momento, o apoio financeiro, conforme estimativas oficiais, já foi pago a cerca de 100 mil famílias. “Não basta anunciar, mas é preciso criar as condições para que aquele dinheiro seja executado. Nossa missão é evitar que a burocracia trate esse problema do Rio Grande do Sul como se a gente estivesse vivendo um período de normalidade”, afirmou Lula, em discurso a prefeitos da região do Vale do Taquari. Mais cedo, o presidente conversou com os moradores do bairro Passo de Estrela, no município de Cruzeiro do Sul, um dos mais atingidos pelas enchentes. Ele reiterou o compromisso de reconstruir a infraestrutura pública das cidades e as casas perdidas pela catástrofe climática. “Nós queremos ter alguns compromissos aqui, eu já disse isso da primeira vez. O governo federal vai cuidar de recuperar todas as áreas da saúde que tiveram problema, vai se responsabilizar de cuidar todas as escolas que tiveram problema. E vai fazer com que todas as pessoas que perderam suas casas tenham suas casinhas de volta para morar dignamente aqui no Rio Grande do Sul”, reforçou. Habitações O número parcial de habitações solicitadas pelas prefeituras, até o momento, soma 40,5 mil unidades em áreas urbanas e 1.812 em áreas rurais, de acordo com o ministro das Cidades, Jader Filho. “Não há uma solução de habitação única para o RS. Vamos ter quer fazer diversas soluções para atender as necessidades do que aconteceu nos municípios”, afirmou em discurso a prefeitos do Vale do Taquari. Uma das medidas em andamento é a aquisição direta de imóveis novos e usados pelo governo federal, através da Caixa Econômica Federal, que poderá pagar até R$ 200 mil por unidade habitacional, mediante avaliação. Famílias com o maior número de crianças e adolescentes terão prioridade na lista de entrega dos imóveis, informou o ministro. Saúde Na área da saúde, o governo federal anunciou a habilitação de 799 leitos clínicos hospitalares, adultos e pediátricos, pelo período de seis meses. Eles se somam a outros 120 leitos autorizados pelo Ministério da Saúde, segundo a titular da pasta, Nísia Trindade. Os investimentos somam R$ 64,4 milhões. “Estamos ampliando o teto de média e alta complexidade, habilitando várias unidades de assistência, suporte técnico ao SAMU, centro de assistência psicossocial, habilitação de hemodiálise”, acrescentou. Ainda de acordo com a ministra, a pasta fará o repasse de custeio na área de saúde para 43 municípios.  

Leia mais »
Escolas C Ivico Militar

Escolas Cívico-Militares: um debate mais que necessário

Por Sonia Castro Lopes Mais uma vez as circunstâncias me impelem a escrever sobre uma das maiores aberrações que, a meu ver, se abateram sobre a educação no Brasil: o projeto das Escolas Cívico-Militares (ECM). Na verdade, esse modelo de instituição já existe com essas características desde a década de 1990, mas conheceu uma ascensão vertiginosa durante o governo Bolsonaro quando, em 2019, foi lançado o PECIM (Plano Nacional das Escolas Cívico-Militares), uma das apostas do MEC em parceria com o Ministério da Defesa. Eleito com o apoio de militares e religiosos (em sua maioria evangélicos) esse governo elencou como uma de suas pautas prioritárias o reforço da ideologia autoritária no campo educacional. Sabemos, segundo definição do filósofo Louis Althusser, que a escola assim como o exército e a igreja se constituem como aparelhos ideológicos do Estado por disponibilizarem programas racionais e eficazes capazes de inculcar em seus usuários valores, princípios e crenças que interessam a sistemas aos quais servem. Com a emergência do governo Lula, o plano de expansão do PECIM foi suspenso, mas, infelizmente, não acabou e hoje vemos o governo de São Paulo retomar com vigor a proposta. Aliás, essa ameaça perpassa inúmeras cidades do país governadas por elementos ligados a partidos de direita, centro-direita e, notadamente, de ultra direita como sementes do mal deixadas pelo governo anterior que germinam com uma intensidade inacreditável. Se o governo federal encontra-se hoje em mãos progressistas, o mesmo não acontece com muitos estados e cidades cujos governadores e prefeitos deixam “passar a boiada” sem o menor escrúpulo. Sob a justificativa – plenamente acolhida pelas famílias menos afortunadas – de que o modelo de ensino militar é muito melhor e mais eficiente, projetos dessa natureza vão sendo implementados com celeridade. Na verdade, os destinatários dessas medidas, em sua maioria leigos, ingenuamente comparam essas escolas aos colégios militares que recebem investimentos do governo federal, selecionam seu público docente e, com relativa freqüência, apresentam bons resultados nos testes e avaliações institucionais. Essas famílias compram a ideia por acreditarem que a disciplina militar seria o melhor instrumento para conter a violência nas escolas e na sociedade, em geral. No caso especial de São Paulo, as ECM se revelam prioridade do governador Tarcísio de Freitas que já mostrou ao que veio através de uma política fascista de segurança pública. Seu foco não é a melhoria da qualidade de ensino, haja vista que não há investimento em formação de professores, em reformas necessárias aos prédios escolares, mas, ao contrário, sua política educacional, sob a batuta do Sr. Renato Feder, insiste em dar continuidade aos contratos de trabalho precarizados e desviar toda a verba destinada à educação para projetos que visam ao desmantelamento da educação pública do Estado. Aplicam-se, desta maneira, princípios da área de segurança ao setor educacional, privilegia-se a lógica de “recontar” a história segundo uma visão militarista que permeia o material didático adotado e, ao final, se consolida a ideia de uma sociedade racista, machista, misógina e patriarcal, ao mesmo tempo em que temas “de esquerda” tais como diversidade cultural, feminismo, educação sexual, dentre outros, são proibidos de circular. Na concepção desses elementos protofascistas, a infância e a juventude precisam incorporar essa pauta ultraconservadora a fim de consolidar e manter essa estrutura social. A Secretaria de Educação de SP trabalha vinculada à Secretaria de Segurança vendendo para a população a “narrativa” de que as escolas não têm segurança e precisam de elementos que combatam a violência, como se os funcionários desse setor tivessem o mínimo preparo para lidar com questões pedagógicas. Ademais, para além do viés ideológico que se pretende inculcar nos estudantes, percebe-se por trás desse projeto um poderoso interesse financeiro. Entidades como a ABEMIL (Associação Brasileira de Escolas Cívico-Militares), fundada pelo Capitão Lima Souza, suplente de um deputado estadual do PL, surgem aos montes não só em São Paulo, mas em todo o Brasil. Essas organizações estabelecem convênios com os governos estaduais e municipais e auferem recursos que deveriam ser aplicados na melhoria das escolas e melhor salário dos docentes. Ou seja, trata-se de dinheiro público indo para grupos privados que, por sua vez, “gratificam” os funcionários das ECM – todos militares – com salários que ultrapassam em muito o piso salarial do magistério. Para concluir, é imperioso mencionar o caráter excludente deste projeto. A justificativa para atingir a população mais carente é de que um dos critérios para a construção ou transformação de escolas existentes em escolas militares seria a sua localização em áreas vulneráveis, mas justamente aí se observa o caráter perverso do empreendimento. A “narrativa” se faz em nome dos vulneráveis, mas são justamente esses os excluídos por não se “adequarem” aos princípios dessas escolas. A repressão feita aos jovens contrários a essa militarização demonstra a lógica da iniciativa, pois na área de segurança na qual predominam valores como obediência, hierarquia e disciplina ninguém questiona o autoritarismo dessa proposta. O processo educacional, como nos demonstrou Paulo Freire, segue justamente no sentido contrário por ser dialógico, promover a autonomia, não cercear a liberdade e recusar qualquer ato de violência contra crianças e jovens. Sonia Castro Lopes é historiadora, doutora em educação e professora (aposentada) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. smclopes@gmail.com

Leia mais »
Screenshot 20240604 104726 Chrome

Ricardo Nunes, o inelegível

Por Simão Zygband  Não é segredo para ninguém que Ricardo Nunes, o obscuro prefeito de São Paulo jamais deveria ter ocupado o mais alto cargo da municipalidade. É função para pessoa muito mais preparada, que consiga pelo menos construir uma marca. Marta Suplicy construiu os Centros Educacionais Unificados (CEUs) e implantou o Bilhete Único, facilitando e barateando a mobilidade dos trabalhadores. Fernando Haddad, um eficiente ex-ministro da Educação, é o patrono, sob sua gestão, dos corredores de ônibus e das ciclovias. Isso é para citar alguns exemplos. E Ricardo Nunes, qual a grande obra de sua administração medíocre, que durante quatros anos se limitou a tapear passando piche em algumas ruas de São Paulo? Não daria para se esperar muito de um prefeito que não foi eleito pelo voto popular, mas sim à sombra do finado Bruno Covas, que surfou na popularidade e na projeção política de seu avô Mário. Não bastasse tamanha mediocridade pessoal e administrativa, ele e seu grupo político, ligados à “bancada da Bíblia” tem o vereador Milton Leite, atual presidente da Câmara Municipal, como principal fiador. Leite teve seu sigilo fiscal e bancário quebrado recentemente por determinação do Ministério Público de São Paulo (MPSP), na chamada Operação Fim da Linha, suspeito por envolvimento com esquema mafioso do PCC no transporte público paulistano. Nunes, um ex-vereador de baixo clero da Câmara Municipal paulistana, envolvido em investigações por superfaturamento no aluguel de creches conveniadas com a prefeitura, chegou a ser motivo de chacota entre seus pares quando se propôs a disputar a indicação do MDB para ser o vice de Bruno Covas. Justamente ele que, como parlamentar, teve atuação mediocre na Câmara Municipal, não sendo autor de nenhum projeto de interesse público, além de fazer oposição aberta à educação sexual e à discussão da igualdade de gênero nas escolas e ferrenho defensor do ridículo projeto Escola sem Partido. É evidente que com tantos predicativos, Nunes só poderia querer o apoio e a aproximação do ex-presidente (argh) Jair Bolsonaro. São farinha do mesmo saco, cuja único objetivo é se locupletar e se beneficiar das mamatas do poder.  O inelegível ex-presidente, responsável direto pela morte de 700 mil brasileiros por negligenciar a compra de vacinas durante a pandemia de Covid-19, já até sugeriu o nome para vice de Nunes, o também obscuro coronel Mello Araújo, outro desconhecido que não terá nada a acrescentar à cidade. Não é a toa que até o PSDB, partido que encabeçou a chapa para a eleição de Nunes, a qual pertencia Bruno Covas, decidiu em reunião da Executiva Municipal, por ampla maioria dos votos, se distanciar do projeto de reeleição do atual prefeito em virtude, principalmente, da aproximação com Bolsonaro. Haja amalgama podre nesta união. Simão Zygband é jornalista,  editor do site Construir Resistência, com passagens por jornais, TVs e assessorias de imprensa públicas e privadas. **************************************** O CONSTRUIR RESISTÊNCIA DEPENDE DO SEU APOIO  PIX para o editor Simão Félix Zygband 11 911902628 (copie e cole este número no pix)

Leia mais »
Fb Img 1717439371709

Sobre a eleição da presidenta mexicana

Da Redação  “Eu estou muito feliz com a vitória porque ela representa o meu grande companheiro López Obrador, que fez um governo extraordinário e, portanto, eu acho que o México estará garantido democraticamente ao longo do mandato dela. Estou feliz por ser uma mulher também, feliz porque duas mulheres disputaram e ganhou aquela que representava o lado ideológico mais próximo das pessoas progressistas no mundo”. Luiz Inácio Lula da Silva – presidente do Brasil  ____________________________________________ Aliados do fascismo Faltava mais essa. Essa rede que faz sabotagem de qualquer conteúdo antifascista está boicotando textos sobre a vitória de uma mulher na eleição mexicana. Não pode dizer o nome da eleita, assim como ninguém pode citar o nome da deputada candidata a prefeita de Porto Alegre. Não pode, na mesma linha, dizer que Carolina Cosse, prefeita de Montevidéu, pode ser eleita presidenta do Uruguai em outubro, se for a candidata da Frente Ampla. Ninguém pode dizer aqui que as mulheres derrotaram Neymar e Flávio B na tentativa de apropriação de faixas de praias sob proteção ambiental. Aqui só pode ter coisinhas fofas. A corporações das redes sociais são machistas e aliadas do fascismo. Moisés Mendes – jornalista ____________________________________________ Mañaneras O presidente López Obrador, como fez o presidente Lula em 2010, conseguiu eleger sua sucessora. Pela primeira vez, uma mulher, Claudia Sheibaum, de esquerda, progressista (é, gente, tem uma esquerda cirandeira por aí), vai presidir o México e um país da América do Norte. Histórico! O partido Morena, criado por Obrador em 2011, firmou coligação com o Partido do Trabalho (muito similar ao PT) e conseguiu não só eleger a presidenta, como ter maioria simples na Assembleia e, segundo projeções, certamente fazer 7 dos 9 governadores do país (2 estão com chances de ganhar também). Banquete completo. No país, o voto não é obrigatório, mas houve uma participação massiva dos eleitores (calcula-se que foram 98 milhões de eleitores). Claudia teve quase 60% dos votos, contra cerca de 30% da rival, apoiada pelas oligarquias de direita. Novamente Obrador derrotou o oligarca PRI, que governou o México por 70 anos. Assim como Lula em seu segundo mandato, Obrador vai sair da presidência, em outubro, com alta popularidade, quase 70% de aprovação. Uniu o foco nas políticas sociais, como aumento do salário mínimo, com uma comunicação direta, eficaz, dando aos inimigos do povo seu honesto nome: inimigos. Ele criou um canal no Youtube onde divulga suas ações e ideias. Fez Política. Criou as Mañaneras, programa de comunicação (via rádio e redes sociais) em que todo dia respondia a qualquer pergunta de jornalistas. Não tinha tema tabu. E ali dava aula de história, de política, de sociedade. O que ele disse no dia anterior, a repercussão, a distorção eram respondidas no dia seguinte no programa. Educou o eleitorado, que respondeu a isso nas urnas. Como disse alguém no tuinto X, é a “velha” e boa política sendo o dique de contenção da extrema-direita, do fascismo na América Latina. Obrador não se furtou a fazer a discussão e o enfrentamento dos temas, não se acovardou, como vemos a esquerda fazer aqui, em que parte do campo progressista só sabe apontar o dedo para o governo com críticas infantis, superficiais, nefelibatas, que não politizam, não mobilizam, não dizem nada para o eleitorado que precisa ser educado politicamente. É um bando de gente chata, repetitiva, que só olha seu umbigo, é desinformada (não sabe o que acontece no governo, se informa pela mídia golpista sendo um eco dela). Uma linguagem pernóstica, chata, sem humor, sem leveza, razinza, que se recusa a ver a mudança da conjuntura. É uma pena que Lula tenha optado por não ser o porta-voz de seu próprio governo, como faz Obrador. E que os mexicanos não se deixem enganar pela plutocracia midiática que, em nome do golpismo dos eua, das oligarquias do México, façam o que o Brasil fez com Dilma Rousseff. Que Claudia Sheibaum cumpra seu slogan até o fim do mandato: “Sigamos haciendo historia”! Ps.: Putin já parabenizou Claudia Sheibaum e disse esperar que o México estreite relações com a Rússia. Fosse ela, pediria para ele treinar os seguranças dela. Tornou-se agora um alvo da bandidagem do crime organizado, dos eua e da oligarquia mexicana. Vai precisar de um esquema de segurança muito forte num país misógino, em que assassinato de políticos é um modus operandi desses grupos no México. Palas Athena – jornalista 

Leia mais »
Images (1)

O dia em que Mino Carta salvou a Nova República 

Por Alex Solnik Uma coisa de que não se pode acusar Mino Carta é de ser preguiçoso, muito longe disso, trabalhava (ainda trabalha), feito um cão, ele lia linha por linha, lauda por lauda, matéria por matéria do que seria publicado na sua revista, com olhos de lince, um lápis na mão direita sempre pronto para riscar uma palavra e colocar outra no lugar, ou cortar uma frase, um parágrafo, o que sempre melhorava o texto, e lá estava ele, na sua poltrona favorita, na sua posição favorita, sentado sobre a perna direita, quando parou de ler e me questionou, com ar de reprovação: “Você tem certeza que ele disse isso?” Eu tinha acabado de voltar de Belo Horizonte. Logo ao descer no aeroporto de Confins, fui direto a um quiosque da secretaria de Turismo, pedi à mocinha que me atendeu um nome de hotel no centro da cidade, ela estava de terninho azul, acho que um quepe na cabeça, ou estou confundindo com a aeromoça?, muito simpática, muito gentil, deu o nome do hotel, e perguntou como eu iria até lá, eu disse “de táxi”, ela perguntou se eu podia lhe dar uma carona, “é claro que sim”, fomos conversando aquelas trivialidades de quem conversa pela primeira vez, sobre a cidade, sobre o tempo, “você é mineira?”, “sim”, em poucos minutos o táxi encostou na frente do hotel e então ela perguntou: “Posso subir com você?” Acho que ninguém diria não a uma mocinha simpática como ela, mesmo sem ainda nem saber seu nome, fizemos a ficha na portaria, subimos, paramos num andar alto, talvez o oitavo e então ficamos a sós no quarto, o que aconteceu entre nós não importa, garanto que nunca tive de fazer exame de DNA, e a certa altura vimos, da janela, passar lá embaixo, na avenida, o cortejo fúnebre de Tancredo Neves. O país vivia atônito, em transe, era um país de zumbis, ninguém queria acreditar que aquilo era verdade, que o homem que nos salvou da ditadura tinha tido um treco às vésperas da posse, mas como?, foi atentado?, há testemunhas?, depois vieram aquelas cirurgias, uma, duas, sete, misturadas a teorias da conspiração, dezenas de repórteres na porta do Hospital do Coração, o porta-voz sempre dando esperanças, a cada cirurgia ele estava melhor, mas de repente entrava na faca de novo, a uma certa altura o cirurgião-chefe, que ganhou fama instantânea, Walter Pinotti, ao me receber em seu apartamento foi categórico, depois da décima-primeira cirurgia: “Salvei a vida do Tancredo!” Era uma quinta-feira à noite. Na segunda-feira, Tancredo estava morto. Nunca houve um funeral como o dele, nunca tantos brasileiros choraram tanto, o país parou, só se ouvia Milton Nascimento e Fafá de Belém, “Coração de Estudante”, Hino Nacional, o país unido pela dor, o funeral começou em São Paulo, um cortejo interminável, depois foi a Brasília e então, três dias depois, estava chegando a Belo Horizonte. À noite, fui ao Palácio da Liberdade procurar assunto para a minha matéria, era como garimpar pepitas de ouro em Serra Pelada, conversar com um, com outro, todas as figuras da República estavam lá, todo mundo com aquela cara cinzenta, aquele inconformismo e as incertezas, o que vai ser agora sem ele, Sarney é confiável?, estavam lá os indicados a ministros, sem saber se seriam confirmados por Sarney ou não, e ninguém queria falar nada, nem em “off”, além daquilo que se diz quando morre alguém tão importante. Eu estava parado, sozinho, atrás de uma grande coluna, prestando atenção na conversa entre o senador Fernando Henrique Cardoso e seu xará, Fernando Lyra, futuro ministro da Justiça, ou não, eu não estava escondido, mas eles não me viam, a coluna impedia, quando o senador disse ao futuro ministro: “Sarney não vai fazer nem dois por cento do que Tancredo faria”. Foi essa frase que paralisou Mino Carta, ele me encarou com aquela expressão que eu já conhecia e perguntou, não como quem quer saber a resposta, mas como quem ainda não a ouviu e não gostou: “Você tem certeza que o senador Fernando Henrique disse isso?” Eu confirmei, claro que sim, ele disse isso, eu estava atrás da coluna, ele não me viu, eu não tinha gravador, mas jamais iria esquecer uma frase como essa, uma frase como essa, no funeral do Tancredo, seria manchete em qualquer jornal, ninguém mais ouviu, só eu, é nossa, exclusiva, pensei que enfim faria jus à sua célebre frase – “vá e se cubra de glória” – mas Mino me enquadrou em outra expressão sua – “fanático do apocalipse” – e concluiu: “Já está querendo criar uma intriga mal a Nova República está começando”. E riscou a declaração. Minha pepita de ouro foi para o lixo. E a Nova República estava salva.  

Leia mais »
Images

Uma semana desastrada

Por Sonia Castro Lopes   Perdoem-me os otimistas, mas estamos mal. Derrotas sucessivas de pautas progressistas no Congresso como a manutenção do veto do inelegível à lei que punia as fake news, as ameaças ao fim da obrigatoriedade vacinal e à privatização das praias são alguns exemplos  dos desafios a serem enfrentados pelo governo federal. Nessa luta desigual entre a civilização e a barbárie, quem perde é a população, responsável pela eleição do pior Congresso dos últimos tempos. Manifestações populares de seguidores do ex-presidente bombam por aí. Ainda na última quinta feira (30), feriado de Corpus Christi, uma multidão de evangélicos lotou o centro da cidade de São Paulo na “Marcha para Jesus”, onde políticos oportunistas ergueram seus palanques de olho nas próximas eleições municipais e quiçá no pleito presidencial de 26. Veja-se, por exemplo, a atitude do governador de São Paulo, Tarcísio de Freiras, provável candidato ao Planalto, que deverá aglutinar em torno de sua candidatura não só os adeptos do inelegível  como boa parte dos liberais que não hesitarão em apoiar o “bolsonarista civilizado”, semente fascista que germina com a rapidez da luz. Não por acaso, os principais veículos que representam a mídia hegemônica deram destaque na última semana a esse politico que, na referida manifestação, comportou- se como  detentor de todos os atributos necessários para arrebanhar o capital político de seu padrinho político. Segundo matérias divulgadas pela imprensa “imparcial”, seu prestígio cresce  em SP enquanto o de Lula derrete. Por que, apesar da queda do desemprego e da melhora nos índices da economia, o governo Lula patina e os bons resultados não se convertem em aumento de popularidade? Em relação às eleições para a prefeitura paulistana, temos outro grande desafio. Ainda que no início da semana a pesquisa do CNN tenha apontado uma diferença considerável nas intenções de voto entre Guilherme Boulos (PSOL) e Ricardo Nunes (MDB) – 37% x 20% respectivamente – não  vemos motivos para comemoração. A diferença de 17 pontos percentuais já foram refutados pelo DataFolha, cujo resultado divulgado na última quarta feira (29) aponta empate entre os candidatos (24% x 23%). Na verdade, segundo o CNN, houve a inserção na disputa do “coach” Pablo Marçal (PRTB) que, de cara, abocanharia cerca de 10% do eleitorado de Nunes pulverizando o resultado. Trata-se, a nosso ver, de uma estratégia que visa ao enfraquecimento da candidatura Boulos ou há alguma dúvida de que Marçal ( PRTB),  Datena (PSDB), Kim (União Brasil), Marina Helena (Novo)  e outros do mesmo naipe se apressariam em negociar seu capital eleitoral com Nunes? Num provável segundo turno, para quem irão os votos dos candidatos de oposição e parte dos eleitores de Tábata Amaral ( que de progressista só tem a sigla do partido) ao candidato apoiado por Lula? Sabemos que muita água ainda rola sob essa ponte, mas a cilada está armada, cai quem quer. A situação está tão complicada que parlamentares alinhados à extrema direita já articulam, sob a batuta de Carla Zambelli, uma manifestação “ Fora Lula” para o dia 9 de junho com cartazes pró-impeachment.  E o campo progressista, faz o quê? Absolutamente nada, só se defende dos ataques como um time de futebol acuado, jogando na retranca para impedir a goleada. Falta a mobilização popular que inundou as ruas no #Foratemer e #Elenao, falta coragem ao governo federal para sustentar suas pautas de forma mais enérgica, falta aproximação da militância com as bases das quais o PT se desviou e não encontra a fórmula para se reconciliar. Há, portanto, motivos de sobra para preocupação. Sim, estamos mal na fita e, se para desgraça final, os “irmãos” do norte conseguirem eleger o criminoso Trump,  vamos acabar fritos em verde e amarelo para gosto dos “patriotas” que ostentam com orgulho imbecil a camisa canarinho. Sonia Castro Lopes é professora aposentada da UFRJ e uma das fundadoras do site Construir Resistência

Leia mais »
Rolar para cima