Construir Resistência
Sonia Castro Lopes

Procura-se a terceira via desesperadamente

Por Sonia Castro Lopes

A grande imprensa, assim como a mídia hegemônica, os bolsominions arrependidos e os que votaram em branco na última eleição presidencial por “total falta de opção” andam desesperados à cata de um candidato que encarne a direita limpinha de corte neoliberal. Como declarou o candidato a presidenciável pelo PSDB, João Dória, ao programa Roda Viva na última segunda feira (23), é preciso escapar “ao terror e ao horror escolhendo um bom gestor”, no caso, ele próprio. Muito à vontade na entrevista, até porque a Tv Cultura é uma tevê pública administrada pelo estado de São Paulo por meio da Fundação Padre Anchieta, Dória insistiu na polarização, referindo-se a Lula e Bolsonaro, candidatíssimos às próximas eleições. Mas deixou alguns espectadores sem saber quem encarnaria o horror e o terror, já que ambos os termos se aplicam ao capitão reformado, sem sombra de dúvida. Ou será que o governador de São Paulo também pretende invocar o perigo comunista/terrorista que se abaterá sobre o país caso Lula vença as eleições? Pode ser, afinal em 2018 ele se tornou um dos apoiadores mais ardorosos do atual presidente, chegando a chipar o termo “Bolsodoria” para conseguir eleger-se governador.

Mas hoje quero falar da imprensa hegemônica, particularmente do editorial publicado nesta última quinta feira (26) no jornal Folha de São Paulo. Sob o título “O fardo de Lula”, o editorialista afirma que “os escândalos pesarão sobre o petista” e que “as vitórias judiciais não contemplam exame de mérito.” Ao liderar as pesquisas, Lula deixa os defensores de uma ‘democracia liberal de centro-direita’ em pânico. E a Folha ataca: “se vier a participar da disputa, como parece provável, os eleitores não disporão de um veredito de justiça a respeito de suas relações com empreiteiras que fizeram negócios lícitos e ilícitos com seu governo. Não houve reexame de provas e depoimentos, e dificilmente haverá tempo para tal.”

Está lançada a dúvida entre eleitores que se viram ‘sem opção’ em 2018 e que agora, totalmente decepcionados com o governo, poderiam considerar a candidatura petista. Na verdade, se não podemos converter os bolsonaristas de raiz é nessa franja do eleitorado que se poderia iniciar o processo de ‘virar voto.’  E novamente a imprensa hegemônica começa a plantar a semente com a intenção de desqualificar a candidatura de quem lidera as pesquisas eleitorais como ocorreu em 2018 quando precisaram prender Lula para impedir que se tornasse presidente. Bater em Bolsonaro é fácil, o homem está apanhando mais que cachorro morto e as Organizações Globo têm feito isso com bastante eficiência. Aliás, com a mesma eficiência que em 2018 fecharam os olhos para sua insanidade e truculência e, ao demonizar o PT e Lula, concorreram para a eleição do capitão.

O editorial da Folha é especialmente direcionado às “viúvas de Moro” que  desejam um país “livre de corrupção” (essa já foi a pauta bolsonarista, lembram?).  O problema é que o juiz de Curitiba, totalmente desmoralizado após aceitar o cargo que lhe foi oferecido como “premio” para afastar Lula da disputa presidencial, parece ser uma carta fora do baralho, já que o projeto do Novo Código Eleitoral apresentado na Câmara dos Deputados, se aprovado, acabaria com suas pretensões políticas.

Em entrevista recente, o cientista político Fabio Kerche, um dos organizadores do livro Governo Bolsonaro: retrocesso democrático e degradação política,  deparou-se com  uma pergunta provocativa: O STF estaria sendo malvisto por bolsonaristas e antipetistas que culpam aquele tribunal por ter anulado os processos contra Lula permitindo que um condenado em segunda instância pudesse participar da disputa eleitoral?  Kerche foi direto e aqui transcrevo trechos de seu depoimento, o qual endosso inteiramente: “É claro que condenados não podem participar, a lei da ficha limpa é muito rigorosa. Mas o que aconteceu é que os processos contra Lula foram anulados. E foram anulados por serem totalmente irregulares. Portanto, Lula não foi condenado.”

Professor da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), Kerche acaba de escrever um livro sobre a Lava-Jato em parceria com a  professora Marjorie Marona, também co-organizadora do livro sobre o governo Bolsonaro, que, inclusive, já indicamos aos nossos leitores.  Ambos analisaram a literatura sobre o processo e concluíram que Sergio Moro e o TF 4 (que foi no mínimo cúmplice) cometeram uma verdadeira ‘aberração.’ Na opinião dos autores, houve uma série de irregularidades e o Supremo, mesmo tardiamente, fez justiça. Embora tenha sofrido processos em diferentes instancias da justiça (São Paulo, Brasília), Lula foi condenado apenas pelo juiz Sergio Moro, coordenador da Força Tarefa da Lava-Jato e pelo TF4. Nos demais processos não houve condenação. O processo foi totalmente viciado e por isso Lula recuperou seus direitos políticos. E Fabio Kerche conclui: “O STF fez justiça tardia porque pagamos um preço caro em 2018. O processo eleitoral de 2018 foi totalmente contaminado. Vamos ter que ajustar contas com a história no futuro. Tiraram da eleição o candidato que estava em primeiro lugar nas pesquisas, impediram que ele concorresse, e isso não é um fato trivial.”

Os liberais de plantão, aqueles responsáveis pela crise que se instalou no país com a eleição de Bolsonaro, estão atônitos em busca de um nome que represente a terceira via capaz de derrotar os “extremos.” Dória já está considerando as possibilidades, embora tenha que disputar a vaga de seu partido com o governador Eduardo Leite (RS) que até andou fazendo relatos de sua vida privada com o objetivo de sensibilizar eleitores, mas parece que não convenceu.  Há indícios de que grupos empresariais andam sondando a possibilidade de investir no presidente do Senado, Rodrigo Pacheco. Mandetta não nega a candidatura e Ciro Gomes já se ofereceu como um possível representante da ‘terceira via’, sem sucesso. Até o nome de Simone Tebet, senadora atuante na CPI da Covid, andou sendo cogitado. E decerto surgirão outros. Mas é difícil concorrer com alguém que ocupou a presidência por dois mandatos e saiu com uma aprovação de 87%. Os opositores que lutem e corram atrás de seu candidato. Afinal, resta pouco mais de um ano para o próximo pleito.

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