Construir Resistência

Por que torcer pelo Liverpool e não pelo Real Madrid na decisão da Champions

Por Walter Falceta
Francisco Franco era um milico ignorante e mamateiro, conhecido como “generalíssimo”, que, em 1936, foi um dos articuladores de um golpe de estado, na Espanha, contra a Segunda República.
 
Essa ação criminosa deu início à Guerra Civil Espanhola. Gente do mundo inteiro agregou-se à resistência contra os botinudos de direita. Juntaram-se comunistas, anarquistas e democratas de todas as correntes.
 
Perdemos. Porque Franco tinha o apoio de empresários, do clero conservador e, sobretudo, dos nazistas comandados por Adolf Hitler na Alemanha.
 
Muitos resistentes foram barbaramente executados em casa, ou em praças públicas, diante de seus familiares e amigos.
 
Franco se tornaria o chefe de Estado da Espanha até seu falecimento, em 1975. No início de sua gestão do atraso, tratou de ouvir conselhos do nazi Goebbels e constituiu uma forte propaganda do regime e de sua própria persona política.
 
Para tal, aproveitou-se do fascínio do povo pelo futebol. E investiu fortemente no Real Madrid, especialmente na década de 1950. Em 1947, já havia sido inaugurado o estádio Santiago Bernabeu, obra irrigada por dinheiro público em uma época de situação financeira complicada para o clube.
 
Em 1953, o Barcelona, orgulho catalão, mantinha uma esquadra vencedora, liderada por Kubala. Havia ganho cinco campeonatos nacionais desde 1943.
 
Nesse período, o Real passara em branco. Franco, então, enfia no clube seu amigo Raimundo Saporta, encarregado de fazer dos merengues uma marca mundial do esporte.
 
O Maradona da época era o argentino Alfredo Di Stéfano, que jogara por Huracán, River Plate e Millonarios da Colômbia.
 
Em 1953, acertara com o Barça, mas Franco atravessa a negociação. Ordena que o ministro dos Esportes, o infame General Moscardo, intervenha. A ordem é que Di Stéfano jogue quatro anos em cada equipe, começando pelo Real. O time da Catalunha, ofendido pelo golpe, desiste do jogador.
 
A verdade é que, antes de Di Stéfano e do aporte do Estado, o Real tinha somente dois títulos espanhóis. Não era o maior vencedor nacional nem mesmo da capital.
 
Em 1954, com 29 gols de Di Stéfano, o Real finalmente sagra-se campeão. O título vem de novo no ano seguinte. O time é reforçado pelo governo e conquista também a Copa Latina, uma espécie de vovó da Champions League. Entre 1954 e 1970 foram 12 títulos nacionais. Durante a ditadura franquista, 14.
 
Conforme revela o documentário “O Madrid Real”, de Carlos Torras, a pressão também era enorme sobre os dirigentes esportivos e sobre os juízes e auxiliares.
 
Quando não havia a intimidação, sobrava a adulação. No filme, um ex-dirigente dos merengues confessa que o clube tinha o costume de mandar presentes para as esposas dos árbitros.
 
Agora, escrevendo um tantinho sobre o Liverpool. Desde sempre foi um clube identificado com a classe operária, especialmente com os combativos trabalhadores portuários da cidade. Nas famosas greves das docas, nos anos 1990, por exemplo, muitos ativistas envergavam o sagrado manto do Liverpool.
 
Bill Shankly, o mais notável técnico do Liverpool, entre 1959 e 1974, falava abertamente sobre a relação entre o futebol e a teoria política. Sentenciou:
 
– O socialismo no qual eu creio é de todos trabalhando em benefício de cada um; todos compartilhando seus ganhos e prêmios; é o jeito como vejo o futebol, assim como é o jeito como vejo a vida.
 
Não à toa, o Liverpool foi duramente perseguido durante a gestão criminosa da primeira ministra Margaret Thatcher.
 
Em 1989, por negligência da polícia de Sheffield, 97 pessoas morreram no estádio de Hillsborough, em Sheffield. O governo e a mídia, no entanto, adulteraram fatos, esconderam provas e construíram uma falsa narrativa para incriminar os torcedores, sempre com apoio dos tabloides britânicos.
 
Foram necessárias décadas de esforço jurídico para restabelecer a verdade. Não à toa, quando da morte da Dama de Ferro, as ruas de Liverpool foram tomadas por multidões em festa.
 
O Liverpool pertence hoje ao magnata norte-americano John Henry, principal sócio da Fenway Sports Group, mas existe uma vida própria no seio de sua apaixonada torcida.
 
Nos últimos anos, vimos inúmeras manifestações dos Reds contra o racismo, contra a xenofobia e em favor do acolhimento a refugiados.
 
Também exibiram faixas condenando o Golpe de 2016, no Brasil, e pedindo a libertação de Lula, preso injustamente pelo nefando esquema de Moro e Dallagnol.
 
A decisão desta Champions, portanto, tem história. Nunca foi somente futebol.

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