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Aparecida

Por que Bolsonaro foi a Aparecida?

Por José Maria R. Silva 

Qualquer brasileiro decente, independentemente de sua religião,foi tomado de nojo e horror perante as cenas deploráveis protagonizadas por bolsonaristas no Santuário de Nossa Senhora Aparecida no dia 12. A liberdade religiosa e a liberdade de imprensa foram atacadas de tal forma que fica patente que o neofascismo à brasileira se exacerba à medida que a reeleição de Jair Bolsonaro se torna cada vez mais improvável.

Ninguém é tolo a ponto de pensar que a turba ensandecida que invadiu o Santuário fê-lo sem uma coordenação e sem uma clara intencionalidade. Quanto a quem coordenou a selvageria, não podem restar dúvidas: O mesmo infame Gabinete do Ódio,que inunda as redes sociais com mentiras escabrosas e com discursos de incitação à intolerância e à violência, certamente se encarrega de atiçaramalta bolsonarista a manifestações cada vez mais ousadas e radicais.

Mas se o quem está claro, fica a pergunta: por quê? Por que diabos Bolsonaro foi à Aparecida levando a tiracolo sua horda de canalhas e descerebrados? Mera demonstração de força? Busca de dividendos eleitorais? Pouco provável. Bolsonaro – que de tolo não tem nada – saberia de antemão que estaria atirando no próprio pé. Saberia que Dom Orlando não o receberia com os rapapés com que o costumam adular exploradores da fé neopentecostais. Talvez não antevisse que o arcebispo lhe fosse esfregarna cara medonha as mazelas sociais trazidas por seu desgoverno, mas tinha muito claro que seria persona non grata no maior evento de celebração do catolicismo brasileiro.

Ainda assim, foi lá. Foi e fez vexame. Em termos eleitorais, um desastre claro. Mas um desastre previsto – provocado! – não é um desastre. É uma aposta, um investimento. Tenho para mim que, já prevendo uma derrota nas urnas, Bolsonaro começa a mobilizar um plano alternativo: virar a mesa. Restam-me poucas dúvidas de que, anunciada a vitória de Lula, Bolsonaro tentará incendiar o País. Tentará fazer com que o clima de ódio fraticida de sulistas contra nordestinos, de evangélicos contra católicos, de conservadores contra progressistas exploda em grave convulsão social que usará para se manter no poder. Assim, a ida de Bolsonaro et caterva ao Santuário de Nossa Aparecida ganha um sentido maquiavélico, uma vez que a agressão aos católicos perpetrada por um desgovernante que se diz evangélico pode criar cizânia e açular o ódio entre os dois maiores grupos religiosos do País.

Dois fatos corroboram para a impressão de que Bolsonaro aposta no caos. Primeiro, o desmonte dos mecanismos que proporcionavam controle sobre a posse de armas por civis fez com que em apenas um ano, o número de registros de armas de fogo para os CACs tenha dobrado. Hoje Bolsonaro pode contar um número estimado de mais de 4 milhões de armas de fogo em mãos de gente pouco afeita a aceitar os resultados de eleições, gente para quem democracia e legalidade são palavras ocas. Segundo, ao escolher o truculento Braga Netto como seu vice, Bolsonaro afaga os setores mais radicais das FFAA, saudosos dos tempos da ditadura militar.Essa gente, que jamais permitiu que Bolsonaro fosse devidamente punido pelo complô terrorista de que participou, aceitou alegremente 30 mil cargos de confiança em seu desgoverno. Não tenhamos qualquer esperança de que os militares bolsonaristas irão contra seu duce em defesa do estado democrático.

Precisamos levar a sério a intenção ditatorial de Bolsonaro, cinicamente expressa por ele há anos, com todas as letras. O Brasil não pode esperar passivamente que o que está tão claramente desenhado no horizonte pós-eleitoral venha a se concretizar. É imperioso que as forças democráticas do País cerrem fileiras com o STF para conter o ataque que por certo virá. Se Bolsonaro não for contido agora, não poderá sê-lo depois que concretizar seu intento.

 

José Maria R. Silva é  professor universitário aposentado.

 

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