Construir Resistência
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Por que a esquerda elitista dispara contra Anitta ?

 

Por Walter Falceta

A pergunta é retórica… Jurei que não ia tretar com essa galera, mas não sou mais capaz de me omitir. Entre os amigos deste FB, assisto a robusta parcela da classe média intelectualizada descendo a rippa na cantora carioca.

Segundo a inquisição, ela se sustenta em “factoides”, sua música é uma “merda”, seus admiradores são “anencéfalos” e seu chamariz é a pornografia de viés anal.

Na visão simplória e agressiva desse grupo de iluminados, Anitta nada mais é do que um produto da indústria cultural.

Enfim, eu diria que se trata de uma análise rasa, mas também de uma interpretação equivocada do conceito de “indústria cultural”.

Refiro-me ao conceito desenvolvido por Adorno e Horkheimer, especialmente no livro “Dialética do Esclarecimento”, que a nossa elite intelectual finge que leu ou simula que entendeu.

Primeiramente, porque nossos intelectuais ranzinzas rejeitam a “teoria crítica”, que é a base da produção intelectual da Escola de Frankfurt. Ali, o que se propunha era questionar as fórmulas prontas e ingênuas do positivismo.

A teoria crítica avalia no contexto do tempo presente a conjuntura econômica e política. Como? Recorrendo, lá atrás, à dialética de Hegel (que parte de nossa elite acadêmica não compreendeu até hoje).

Detalhe: nossos patrulheiros não lograram interpretar a torção marxista nesse conceito instrumental de pensamento. A aplicação de um crivo epistêmico às postagens geraria imenso constrangimento.

A turma de Frankfurt partia do pressuposto de que não existe uma verdade absoluta, estável e eterna. Por quê?

Porque a dinâmica do mundo exige o choque permanente de teses, a comparação contextualizada e a inevitável desconstrução de ideias, sujeitas ao rigor da impermanência.

Por isso, a contestação da ingenuidade iluminista e da própria doxa marxista tradicional. A antropologia, a psicanálise, a psicologia, a sociologia, a comunicação e a linguística precisavam ser agregadas ao instrumental analítico.

Basicamente, concluem que a sociedade capitalista se sustenta a partir da difusão de uma cultura de naturalização da competitividade, da desigualdade e da ultra-valorização do consumo.

Não deixaram de efetuar uma leitura marxista do mundo, mas atualizada, a partir do olhar sobre os engenhos de reprodutibilidade técnica e da produção massiva de produtos culturais padronizados.

Adorno e Horkheimer admitem que a indústria cultural mira a consolidação do pensamento dominante e, por consequência, a perenização da máquina geradora de lucros injustos.

Vale considerar, entretanto, que tendem a considerar o público como massa acrítica, moldada pelos próprios produtos culturais consumidos.

Convém também imaginar que estão falando a partir de um tempo específico, de suas vivências atribuladas, que é aquele da ascensão de regimes totalitários na Europa.

Para eles, a indústria cultural padroniza, define gostos, constitui conteúdos homogêneos, desgasta e simplifica as obras artísticas e, por fim, trabalha para garantir o lucro aos segmentos dominantes da sociedade.

Nesse paradigma, a indústria define o que pode e o que não pode fazer sucesso. Se uma manifestação estética é subversiva e ameaça o sistema, logo será interditada e suprimida.

Essa galera também definiu o que era cultura erudita, supostamente elaborada, refinada, sensata e capaz de exaltar a razão.

A cultura popular, por sua vez, seria genuína, porém menos refinada, mais intuitiva e, no geral, destinada a repetir padrões das culturas tradicionais.

No pé da escala, estaria a cultura de massa, que seria inautêntica, resultado da reprodutibilidade técnica, forma degradada de manifestação de ideias e sensações, utilizada para alienar e manter as multidões sob controle. Nunca seria arte de verdade, mas embuste de entretenimento.

Primeiramente, a escola dos alemães errou ao arrogantemente considerar toda a massa ignara e incapaz de construir seu próprio crivo crítico. Se essa asserção valia para a Alemanha dos anos 1930, não vale, por exemplo, para o Chile dos anos 1980.

E isso já era tema de debates nos anos 1960, representando uma pedra no sapato de Adorno. Ele chegou a viver o levante de 1968 para ser questionado em seu elitismo de onisciência. Em outro artigo, já tratei das diferenças entre o velho pensador e Marcuse.

A indústria cultural, portanto, era muito mais complexa do que se imaginava na primeira metade do Século XX. Uma pá de gente ofereceria visões mais aprofundadas da complexidade da máquina de comunicação e cultura, de Paul Virilio a Jeremy Rifkin, de Mcluhan a Jésus Martín-Barbero, de Jaron Lanier a Seth Stephens-Davidowitz.

Isto posto, de maneira resumida e rústica, vale perguntar: e Anitta com tudo isso?

1) Sua cultura não é de padronização. Muito pelo contrário, é de disrupção. Cresce à margem da indústria e obriga os donos da máquina a rever suas cartilhas de estilo e conduta.

2) O morro pode definir gostos, assim como a quebrada e os enclaves urbanos proletários. O sistema é obrigado a difundir, por seus meios, manifestações musicais como o reggaeton, que expressa dores, gozos e expectativas das juventudes empobrecidas, vulneráveis e ou marginalizadas da América Latina.

3) Opa! Anitta chegou ao topo da parada no Spotfy justamente com um reggaeton, cantando na novilíngua castelhana da ruas do continente. Contra tudo e contra todos.

4) Se o sistema está tentando vender cosméticas de ocultação, Anitta andou reverenciando pernas e bundas com estrias e celulites, exibidas sem o pavor que a coxinharia tem das transformações naturais do corpo.

5) Aliás, valeria uma viagem ao tempo de Wilhelm Reich para entender como a repressão sexual, agregada à estratégia de controle de massas do fascismo, estendeu tentáculos ao século seguinte e, pasmem!, a amplos setores da esquerda. Nesses grupos, o erótico foi interditado, censurado e criminalizado. O corpo está coberto de pecado. E a pulsão sexual é vista com nojo e desprezo, como agente contaminante, nocivo ao ativismo político.

6) A intelectualidade que morre de medo de Anitta desrespeita amplos setores da juventude consumidora de suas denúncias, mensagens e versos de fruição. Reprovam como se tivessem a receita pronta de conduta para o desenvolvimento pessoal e para a felicidade geral da nação. Não seria absurda prepotência?

7) Nesses setores do saber sem limite, Bossa Nova, pode. Mas o funk de Paraisópolis não pode. Rock? Pode! Mas cumbia é “porcaria”. A MPB está liberada, até mais ou menos os anos 1980. Tonico e Tinoco? Pode, porque é “cultura popular”. A música que se popularizou depois, não. É anátema. Porque é rotulada como cultura de massa, inautêntica. Marília Mendonça, por exemplo, “não podia”. Quando a moça faleceu, muita gente urrou, batendo no peito, para dizer: “eu nunca ouvi falar”.

Em resumo, é preciso estudar antes de sair por aí cagando regras e mijando preconceitos. Se a ideia é utilizar a Escola de Frankfurt como referência, convém estudar o que predicava e também como o tempo corrigiu e superou suas ingenuidades e preconceitos.

Por fim, é preciso ter mais consideração com as artes nascidas do povão, essa mesma gente que a intelectualidade quer doutrinar antes da sagrada emancipação. Aliás, talvez seja por isso que esse projeto de catequização não tem funcionado, e as massas continuem indiferentes ou arredias aos “pastores” da academia de ex-querda.

Cabe uma reflexão fundamental: por que vozes tão odiadas pela elite do pensamento acabam se mostrando tão eficientes na luta contra o fascismo? Suspeito, pois, que se manifeste aí uma infantil inveja dos poderes de Anitta.

Walter Falceta é jornalista e um dos fundadores do Coletivo Democracia Corintiana (CDC)

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