Construir Resistência
Os presidentes Pedro Castillo, do Peru, e Jair Bolsonaro, do Brasil, durante reunião em fevereiro deste ano Alan dos Santos/ Presidência da República/Divulgação

Para tentar entender a queda do presidente peruano, Pedro Castillo

Por Simão Zygband

Os presidentes Pedro Castillo, do Peru, e Jair Bolsonaro, do Brasil, durante reunião em fevereiro deste ano. Alan dos Santos/PR

Confesso que não vi com bons olhos os movimentos golpistas ocorridos no Peru, sobretudo às vésperas da posse do presidente eleito brasileiro, o Luiz Inácio Lula da Silva. Não é uma situação de fácil compreensão, por que no mundo de hoje, das fake news e das análises absolutas, basta se fazer um julgamento qualquer e eventualmente ele vira uma verdade. Só depende do lado que você está.

Vi nos sites e postagens da extrema-direita brasileira a felicidade dela com a queda do Pedro Castillo, dizendo que ele é amigo do Lula e foi convidado para a posse do presidente eleito. Também vi a alegria do presidente peruano abraçado ao genocida Jair Bolsonaro (foto). Procurei informações nas publicações do PT, das esquerdas, algo que pudesse me esclarecer o que de fato aconteceu no Peru. A princípio, sem nenhuma análise mais profunda, até por que não conheço a política peruana, o presidente daquele país foi afastado como Dilma Rousseff no Brasil ou mesmo o Evo Morales na Bolívia. Será mesmo? Aparentemente, ele também fez por onde ser defenestrado do cargo. Vamos aguardar os acontecimentos, pois eles ainda estão muito incandescentes.

Estive no Peru em 1978 e aquele país desde sempre primou pelas contradições mais epidérmicas possíveis. Já teve governo ditatorial de um militar, Juan Velasco Alvarado, um populista ao estilo Hugo Chavez, da Venezuela, que implementou programas de esquerda como a reforma agrária e incentivo à organização sindical, um grupo guerrilheiro sanguinário de esquerda, com tendência maoísta, como o Sendero Luminoso e um ditador de extrema direita, não menos sanguinário, Alberto Fujimori. Ele ficou 10 anos no poder e foi afastado após graves denúncias de violações dos Direitos Humanos e corrupção.

Bem. este é o caldo de cultura político, uma geleia geral peruana. Procuro entender com bastante cuidado o que realmente houve e o que pode acontecer no Peru. Só espero que este ímpeto de deposição de um  governo supostamente de esquerda não interfira na transição brasileira e que acabe incendiando ainda mais os “patriotas” que ainda tumultuam o entorno dos quartéis.

Vamos ver algumas das opiniões que devem ser levadas em conta. Prefiro não dar nomes aos depoentes para não criar eventuais embaraços para eles. A primeira é de uma brasileira que viveu no Peru até recentemente:

“Pedro Castillo é um outsider do tipo Bolsonaro, seguidor de Steve Bannon,  que seguia a cartilha de destruição da política. Um farsante, palhaço, fake. Hoje votariam o impeachment dele e, num ato desesperado, ele resolveu dissolver o Congresso (mas esqueceu de “combinar com os russos” e o exército não respaldou). Daí tentou fugir e foi detido. Enquanto isso, o Congresso votou o impeachment dele. O Peru tá passando pelo mesmo processo de resquícios da Lava-Jato, que deixou um impacto forte  e até um ex-presidente, o Alan Garcia, se matou. O antifujimorismo é forte, mas metade do país adora o Fujimori. Adora de paixão
O Peru estava crescendo, estava bombando, aí veio a Lava-Jato e começou a destruição. Ollanta Humala (antecessor de Castillo) copiava todos os programas sociais do Lula. De lá pra cá, só ladeira abaixo politicamente
O Pedro Castillo não difere muito do Bolsonaro. Fez de tudo: tinha Damares pras mulheres, acidentes ambientais, passaram a boiada, mais mortes proporcionalmente por Covid que no Brasil, Rachadinha, nepotismo, corrupção, roubalheira, escândalos idiotas todo dia, cercadinho. Cercearam a imprensa, perseguição política, muitos jornalistas se exilaram, outros se venderam.

 

Misto de Marxismo com atraso religioso

A deposição (ou golpe) no Peru não pode ser comparada de maneira alguma à trapaça que derrubou Evo Morales na Bolívia. A começar pelas diferenças entre Evo e Pedro Castillo. Evo foi vítima de um golpe militar que enfrentou resistência feroz, principalmente dos povos originários, maioria na Bolívia. Castillo é de fato um sujeito estranho, que mistura marxismo de discurso primário com o atraso religioso fanático, e sem partido político, base social definida etc. De resto, não tinha mais apoio nem de muitos de sua equipe. Para completar, o Peru é o pais da América do Sul mais bagunçado institucionalmente. Já são 6 presidentes nos últimos 6 anos. É dominado perenemente por um Congresso corrupto. Paradoxalmente, tem economia até que acima da média dos vizinhos. Castillo presta um enorme desserviço à esquerda continental e o Peru segue lamentavelmente nas mãos de uma elite econômica que comprou o Estado e seus braços, como as Forças Armadas. Pobre Peru.

Dilma e Cristina

O golpe que o congresso peruano deu ao tirar o presidente Pedro Castillo e prendê-lo não é gratuito. Esse golpe está sendo tramado há tempos, é um processo semelhante ao que aconteceu com a Dilma em 2016, e com a Cristina Kirchner ontem, na Argentina. O império americano, que se desfaz paulatinamente, não pode permitir governos alinhados com a esquerda no continente sul americano.

O Lula que se cuide, pois o Departamento de Estado ianque, com certeza, já está processando uma forma de, num primeiro momento tentar cooptá-lo, num segundo simplesmente tirá-lo do governo por meio de um golpe. Talvez a visita do Obama tenha esse caráter, tipo “estamos avisando”. A manutenção do gado defronte dos quartéis, toda essa ameaça à posse fazem parte de um projeto onde o Bozo, talvez, vá ser descartado. Ontem a Cristina, hoje o Pedro Castillo. Amanhã ou logo depois, poderá ser a Bolívia, o Chile, a Colômbia. A guerra continua franca e aberta, ainda mais quando se vê as ruas desertas, sem mobilização popular, tudo sendo colocado na posse do Lula e nas ações do STF, uma esquerda desmobilizada somente com foco no institucional, no governo, etc.

A ver…

 

 

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