Construir Resistência
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Para onde vai o Trabalho?

Por José Paulo Barbosa


“A sombra do medo morde os calcanhares do mundo… Quem se salva do terror da falta de trabalho? Quem não teme ser um náufrago das novas tecnologias, ou da globalização, ou de qualquer outro dos muitos mares revoltos do mundo atual?” – Eduardo Galeano

Minha mãe dizia:
– Filho estude! Quem nasce pobre, só consegue algo na vida, se estudar.
No ano passado minha filha Isadora (a caçula) formou-se em curso superior. Agora todos os meus filhos são formados!
Minha mãe tinha o terceiro ano do primário, meu pai era analfabeto. Eu fui o primeiro membro da família a cursar uma faculdade.
Estudar é a única forma de ter uma vida melhor, exceto se você for membro da burguesia, que já nasce com dinheiro, propriedades, boas escolas e um meio social que pode diferenciá-lo desde o nascimento.
Como disse Paulo Freire “a educação não muda o mundo, a educação muda as pessoas, as pessoas mudam o mundo.”
O jogo mudou, ter um diploma, embora ainda seja importante, não basta para ter sucesso profissional. É preciso repensar a nossa sociedade.
Por que temos que repensar a sociedade?
Se os motivos históricos de sermos governados por uma classe dominante racista, sexista, excludente, despótica e destruidora do meio ambiente não bastasse, há um novo motivo: as mudanças na tecnologia e no trabalho que estão destruindo empregos e competências da educação formal.
O processo de inovação do trabalho era a substituição da força física de homens e animais por máquinas, agora é a incorporação de processos mentais (da mente humana) nas máquinas.
A NASA recentemente disponibilizou o banco de dados do telescópio espacial Kepler para uma inteligência artificial analisar e foram descobertos 150 novos exoplanetas, que nenhum astrônomo humano havia detectado.
Os computadores quânticos multiplicam a capacidade analítica dos atuais supercomputadores por milhões de vezes e estamos próximos de um paradoxo; uma máquina que “pensa”, que pode aprender sozinha e tomar decisões sem a interface com humanos.
Muitos acham essa discussão coisa de ficção científica, mas não é.
Essa tecnologia já está mudando tudo no mundo do trabalho, desde o departamento de reclamações, onde uma máquina faz todo o atendimento, passando pela medicina, até o controle de aparelhos domésticos com a internet das “coisas”.
Em São Paulo, a linha amarela do metrô não tem condutor de trens, é tudo autônomo.
Na indústria automotiva toda a parte de solda e pintura é feita por robôs. Com os carros elétricos autônomos chegando não teremos mais motoristas.
Os pilotos automáticos conduzem, pousam e decolam aviões.
As fábricas estão com cada vez menos trabalhadores e mais robôs.
Os drones substituirão os entregadores, os caixas automáticos nos supermercados substituirão os trabalhadores e trabalhadoras.
Na agência bancária da esquina, podemos sacar e depositar dinheiro no caixa eletrônico diretamente na conta corrente.
Para onde irão as mudanças aceleradas do nosso mundo?
Segundo a Oxfam (ONG inglesa), durante a pandemia, os dez homens mais ricos do mundo dobraram suas riquezas, de aproximadamente 700 bilhões para 1 trilhão e quinhentos bilhões de dólares.
A pandemia foi o catalisador do aumento global do poder dos magnatas da tecnologia. O jogo ficou mais bruto, eles estão estendendo seus negócios para a indústria aeroespacial e empresas de pesquisa genética e medicina.
Por outro lado, inúmeros negócios estão na falência ou cambaleando na beira do abismo.
O turismo, a cultura, o esporte de massa, enfim, todas as empresas que dependem da presença física das pessoas, receberam um golpe demolidor.
Para piorar, os dominadores globais criaram uma imensa bolha de especulação nas bolsas de valores e estão vendendo suas ações na alta, essa bolha vai estourar e virar uma enorme crise financeira global.
Esse jogo geopolítico e tecnológico ninguém sabe onde vai parar, mas todos sabem que vai mudar o mundo, a agenda conhecida da elite global está avançando. Agora eles estão falando em “reset” global, para implantar um novo padrão internacional sem a moeda norte-americana (o dólar).
Quando o Brasil tiver um governo com um mínimo de inteligência e compromisso com seu povo, terá que fazer ações de combate a desigualdade, somando com as iniciativas de outras partes do mundo (a discussão atual na China é as ações para a “prosperidade comum”).
Se você tem um carro, paga IPVA todo ano, mas se tem um jatinho particular ou um iate de luxo, não paga nada, portanto, os ricos têm que pagar impostos.
A redução da jornada de trabalho, com mais gente trabalhando, menos tempo (A Islândia reduziu a jornada para 30 horas por semana e não caiu a produtividade) e uma renda mínima mensal para todos devem entrar na pauta do planeta e principalmente aqui, com a fome voltando e essa desigualdade obscena.
O fortalecimento e o financiamento dos sindicatos são uma necessidade para redução dos poderes do capital.
As empresas comunitárias, como cooperativas, associações, terceiro setor (como as ONG ‘s) e cadeias produtivas coletivas que preservem o meio ambiente, são faróis que devem ser acesos nessa escuridão em que estamos caminhando.
Aumentar a independência das pessoas e comunidades com a produção de energia descentralizada e produtos básicos locais têm papel nesse cenário.
É preciso criar uma resistência ativa, complexa, inteligente, em rede, agindo localmente, pensando globalmente de forma desigual e combinada.
É possível vencer, é preciso um novo mundo mais justo e fraterno!

 

Zé Paulo Barbosa

José Paulo Barbosa é professor, escritor e militante de causas sociais e ambientais.

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