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Padre Lino e a ossada das crianças de Belford Roxo

Por Vinícius Carvalho

Um dos crimes que mais perturbavam a cabeça do brasileiro que ainda possui capacidade de se indignar foi, parcialmente, elucidado hoje: o desaparecimento de três crianças no município de Belford Roxo, desde o último dia 27 de dezembro.

Os meninos são Lucas Matheus, de 9 anos, Alexandre Silva, 11, e Fernando Henrique, 12. As ossadas foram encontradas hoje pela manhã, após a denúncia do irmão de um dos supostos executores num, rio/valão em uma das partes mais miseráveis de uma das cidades mais miseráveis da região sudeste.

O denunciante avisou ainda que o motivo do crime foi torpe. As crianças foram acusadas de sumir (furtar) com uma gaiola e com um passarinho dentro dela. A gaiola pertencia ao parente de um traficante local que, ainda de acordo com a denúncia, executou e ocultou as três crianças. Isso mesmo, por causa de um passarinho e uma gaiola.

Mas o que este crime fala sobre nós para além da brutalidade?

Venho acompanhando este caso com muita atenção desde o primeiro momento em que li a notícia e quando se fala em violência urbana no Rio de Janeiro, tornou-se lugar comum, uma espécie de cloroquina, falar que toda ela é praticada por alguma milícia ou pelas polícias.

O problema é que a sociedade não é preto no branco, não é Deus e Diabo, Bem e Mal, tão somente. A sociedade é uma grande massa cinzenta e gelatinosa. As pessoas simplesmente esqueceram que existe latrocínio e tribunal do tráfico nesse país, e o que fez com os setores populares da sociedade civil, no geral, guinasse à extrema-direita e elegessem um projeto político que prometeu violência policial sem precedentes (Bolsonaro) é, também, o discurso do “bandido bom é bandido morto”.

De uma forma geral, num estalar de dedos, como num passe de mágica, após o assassinato da Marielle, ficamos condicionados – para demonstrar posição política e distanciamento ideológico daquilo que repudiamos – a falar que absolutamente toda a violência brasileira, todos os quase 70 mil assassinatos anuais no país, são praticados pela polícia ou pela “milícia”. Erramos, e aí começamos a perder a capacidade mínima de dialogar com a população, a “zona cinzenta”. Maior vítima de todo esse processo.

Eu conheço o município de Belford Roxo. Um tio PM morava na mesma localidade onde a ossada dos meninos apareceu. Esse meu tio, mesmo sendo da corporação polícia militar, teve que fugir, abandonando a sua casa, que era própria e foi construída do chão por ele, por conta do tráfico local que sabia que ele era PM e, uma hora ou outra, ia executá-lo ou executar o seu filho, meu primo. Um drama cotidiano das nossas cidades. Hoje, a notícia que se tem é que a sua antiga casa foi invadida pelos traficantes e virou boca de fumo.

Por que conto isso? Porque a sociedade, como eu disse, é cinza. O PM, meu tio, é eleitor do PT, os traficantes (ligados ao Terceiro Comando) que invadiram a sua casa, espalharam grafites do Bolsonaro e bandeiras de Israel pelo bairro. É um padrão? Não, mas não existe padrão no limbo, no umbral da sociedade.

A forma como a política se organiza no UMBRAL é diferente da forma como ela se organiza nos fóruns do DCM, Brasil 247, Revista Fórum, nos bairros da Tijuca, Jardins, Laranjeiras e Brooklin. As esquerdas precisam compreender isso.

Agora, o que tudo isso tem a ver com o Padre Lino?

Na última terça-feira eu entrevistei o Padre Lino, um senhor italiano com cerca de 80 anos de idade, que exerce a sua cátedra na Igreja Nossa Senhora da Paz, no bairro da Aldeota, classe alta de Fortaleza. Ao efetuar uma crítica a Jair Bolsonaro, o padre foi atacado de forma cruel durante a missa e os ataques de ordem pessoal e ameças de todos os tipos prosseguiram. A ponto do mesmo solicitar entrar no programa de proteção de testemunhas da Polícia Federal.

Uma das poucas vezes que senti vontade de chorar entrevistando alguém foi quando uma pessoa do público me pediu para perguntar ao padre se alguém da igreja católica, praticamente vizinha à sua, uma comunidade chamada “Shalom”, de linha “carismática” lhe prestou algum apoio ou solidariedade, o padre balança a cabeça, faz um silêncio muito triste e afirma, “não, meu filho, não….eles prestaram – em nota – solidariedade aos fascistas que me atacaram”, e prosseguiu, “eu vi o final do fascismo na Itália, na década de 40, era uma criança, não imaginava que passaria aqui no Brasil o mesmo que meus parentes passaram por lá”.
Conversava com o padre e, sem querer, o entrevistei com uma camisa de banda de death metal chamada “Death Breath”. Uma camisa horrorosa cheia de figuras de zumbi. Fiquei um pouco sem graça devido a pouca liturgia de minha parte naquela entrevista, pedi desculpas e disse que era agnóstico. O padre foi enfático na resposta, “meu filho, no céu que eu acredito, muito católico que tem calo nos joelhos (de tanto rezar de joelhos na igreja) e vai a todas as missas, não vai entrar…e tem muito ateu e comunista que vai entrar sim”.

Lembrei então do trabalho realizado pela antiga Teologia da Libertação no então “umbral” político relatado na primeira parte deste texto. A região de extrema pobreza.

O meu primeiro contato com a miséria extrema foi numa região conhecida como Lixão do Gramacho. Ali eu vi uma cena bizarra que me atormenta e me dá pesadelos até hoje; um policial civil conhecido da área que comandava um esquema de prostituição infantil, saindo de dentro de uma casa de paliçada abotoando a calça com a barriga de fora, provavelmente tinha acabado de consumar algum ato criminoso com alguma adolescente – alguma “funcionária”.

Eu não fui lá fazer trabalho social, eu não fui lá como um “colonizador” levando a palavra de São Marx. Eu não fui lá fazer safári social, levando a “iluminação” para aquelas pessoas “atrasadas”. Até porque eu não sou otário, eu jamais faria esse tipo de abordagem com uma gente que não tem absolutamente nada. Eu era minhoca da terra e fui lá jogar futebol, num campo de barro horroroso. Eu era, de certa forma, um local.

E o meu primeiro contato com a política real, a de mitigação daquela miséria, foi a condução de um trabalho iniciado pelo por Gilberto Carvalho, ligado a Pastoral Operária, que viveu na cidade de Duque de Caxias em conjunto com o então bispo da cidade, Dom Mauro Morelli.

Dom Mauro Morelli e Gilberto Carvalho, que por sinal, futuramente integrariam o governo Lula e seriam fundamentais desenvolvendo políticas públicas para que o Brasil saísse do mapa da fome.

O lixão do Jardim Gramacho está no raio de 10 quilômetros de distância onde os meninos foram assassinados e ocultados, em Belford Roxo.

É este o cenário onde democracia não existe, a ditadura é totalitária na mão dos donos do poder local, e ser herói ou ser vilão é uma linha muito tênue. Como ser petista ou marxista neste local? Quando eu me tornei adolescente e fui conhecendo a vida e as coisas como elas eram, me identificava como um jovem marxista, e me debruçava sobre este dilema.

Tentaram desativar o aterro sanitário, o dito Lixão do Gramacho do local há poucos anos, porém, continuam mandando lixo de forma clandestina para lá e existe demanda tanto de trabalho, é que o lixo ainda é o meio de vida de milhares de pessoas do local.

O sacerdócio possível num país que volta a passos largos para uma miséria poucas vezes vista, é a concessão de cidadania e não grito.

No meio deste miserê danado pelo qual o Brasil volta a passar, pouco se falava em direitos individuais, não porque isto não seja importante, mas é porque um povo que não tem emprego e não tem a subsistência alimentar básica mal consegue raciocinar direito e precisa que viver bajulando o micro-poder local para ter comida da pior qualidade no prato, isso quando tem.

Que direitos os 3 meninos executados em Belford Roxo possuíram em suas vidas?

A luta de milhões de meninos e meninas do país como estes que se foram, na Baixada, não é simbólica, é por sobrevivência. Para que a gente consiga um estágio razoável de dignidade, para construir uma política minimamente de esquerda em certos lugares do Brasil, primeiro é necessário construir um consenso social e ter suas ideias minimamente aceitas nesses locais.

Tem gente que consegue, tem gente que não. Mas primeiro a gente precisa ganhar o governo, depois tentar não ser assassinado durante o mandato.

Enquanto isso, nossos padres Linos e Julios Lancelotis, nossos Lulas precisam se manter fortes, porque neste país, infelizmente, tem muita gente com calo nos joelhos executando meninos nas milhares de Belford Roxos que existem pelo Brasil.

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