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Os brasileiros e as eleições: uma análise da polarização

Por Mila Corrêa 

Fotos: Lucas Lacaz Ruiz / A13

Nas eleições de 2018, os brasileiros se dividiram em dois grupos: os petistas e os antipetistas. Com a prisão do maior nome do PT, Lula, o partido foi enfraquecido e a população passou a acreditar que o ex-presidente era, de fato, o maior ladrão da história do Brasil democrático. Nasceu então o efeito Bolsonaro.
Para muitos, Bolsonaro era o messias que havia chegado para salvar o Brasil da corrupção. Em sua campanha, o candidato dizia que iria “acabar com a mamata”.
O outro grupo se assustava. Denunciava as falas racistas, homofóbicas, xenófobas, extremistas…
Com o principal (e favorito) adversário fora da disputa, Bolsonaro venceu as eleições.
Nos quatro anos que se seguiram, apoiadores do governo passaram, cada vez mais, a participar de grupos de WhatsApp e Telegram, seguir a família Bolsonaro no Twitter e receber, diariamente, informações vindas de um pequeno grupo.
A imprensa se tornou inimiga. Toda e qualquer informação vinda de qualquer órgão de imprensa era tachada de “matéria paga pelo PT”.
E, nos grupos de informações bolsonaristas, fake news sobre todos os temas dominavam. Alguns psicólogos comparam os bolsonaristas mais radicais com pessoas que pertencem a seitas, que sofreram lavagem cerebral ou que foram lobotomizadas (lobotomia foi um procedimento neurológico usado na década de 1930 para casos de esquizofrenia severa e outros transtornos mentais.

Grosso modo, a técnica consistia em reduzir a atividade cerebral de tal modo que a pessoa não acessava mais algumas emoções e alguns processos cerebrais, e, assim, era “domado”, “controlado”.)
Pulamos para 2022. Lula foi inocentado em 26 processos e voltou ao cenário. Grupos bolsonaristas mantiveram sua campanha de difamação do candidato. Os seguidores de Bolsonaro, ignorando que seu próprio líder havia sido preso no passado, bradavam: não voto em ex-presidiário.
No governo, Bolsonaro se esforçou para garantir sua reeleição.
Foram cortes drásticos no orçamento, de 90 a 98%, em todas as áreas, para garantir orçamento secreto e apoio do centrão.
Fake news até contra o sistema eleitoral passaram a circular com mais intensidade. Grupos de apoiadores se organizaram no dia da votação, pedindo para seus eleitores comparecerem no período da manhã, para iniciarem bloqueios nas estradas, na tentativa de impedir o acesso aos locais de votação pelos eleitores de Lula.
A disputa foi acirrada. A diferença de votos que elegeu Lula foi de 2 milhões de eleitores.
Para eleitores de Bolsonaro a diferença foi mínima e houve, mais uma vez, fraude nas urnas eletrônicas.
Para eleitores de Lula, a vitória foi gigante, pois venceram não apenas as eleições, mas a falta de um debate político durante a campanha, fake news, máquina governamental e os bloqueios.
Fim do processo eleitoral, perdedor vai para casa chorar e analisar os erros e vencedor vai comemorar.
Mas não num país polarizado e inflamado por fake news!
Sem aceitar a derrota, bolsonaristas se empenham em derrubar o governo, democraticamente eleito, antes mesmo dele assumir. Organizaram manifestações em frente a quartéis das Forças Armadas e apelam por intervenção militar, com base no Art. 142 da Constituição Federal.
Intervenção militar é o uso das forças militares (Exército, Marinha e Aeronáutica) para controlar um Estado que NÃO solicitou a intervenção.
O artigo da Constituição citado determina que as Forças Armadas devem fazer a lei ser cumprida, e a lei diz ser obrigação dos militares defender a autoridade suprema do Presidente da República, e não ameaçá-la.
O artigo 142 define que a função das Forças Armadas é ligada à proteção dos Três Poderes, além da proteção a possíveis invasões de outros Estados no território brasileiro. Sendo assim, não se pode confundir esse conceito de proteção das Forças Armadas com uma intervenção militar.
No Brasil, a intervenção militar representou um período que ficou historicamente marcado por ser a Ditadura Militar brasileira, entre os anos de 1964 e 1985 (mais de 20 anos).
Os manifestantes que exigem este tipo de intervenção, normalmente, desconhecem as consequências que este ato traria para o direito democrático da sociedade. Entre as consequências, temos: censura, perda do direito ao voto, prisões arbitrárias, perda do direito a manifestações públicas…
Manifestações que pedem Intervenção Militar são antidemocráticas e consideradas ilegais pela Constituição. O termo correto para esse tipo de manifestação é CRIME CONTRA O ESTADO DE DIREITO, cabendo prisão para aqueles o que comentem.
Para piorar, o líder dos manifestantes e atual presidente não reconheceu sua derrota nas urnas e não desejou sorte ao próximo presidente, palavras protocolares que todo candidato derrotado utiliza.
Ao contrário, seu grupo continua espalhando fake news para alimentar a ânsia pela manutenção de Bolsonaro no poder.
Enquanto, a contragosto, o governo atual inicia o processo de transição, manifestantes protagonizam cenas inacreditáveis, que vão de saudação nazista, cantar hino nacional para pneu, transformar muro de quartéis em “muro das lamentações”, fake news com nomes inventados de generais, prisão do presidente do TSE e até um manifestante pendurado na frente de um caminhão rodando pela estrada.
Para a esquerda, manifestantes se transformaram em piadas. Viraram memes.
Para a extrema direita, seu “direito” de ser antidemocrático e aplicar um golpe de estado está sendo violado.
É um delírio coletivo!
Estamos vivendo numa linha tênue entre a democracia e o extremismo, que conta até com ameaças de morte ao presidente eleito.
O momento pede uma grande ação de combate à desinformação. O próximo governo não terá apenas que lidar com o rombo de R$400 bilhões deixado por Bolsonaro, mas com uma legião de brasileiros feridos e abandonados por um falso messias.
O principal desafio para o próximo governo é curar as pessoas doutrinadas pelas fake news, acolhê-las e ajudá-las a reconstruir conceitos e voltar a criar uma narrativa saudável e com raízes na realidade dos fatos.

 

 

Mila Corrêa é cientista social e jornalista

 

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