Construir Resistência
Gueto de Varsóvia

Os 80 anos do Levante do Gueto de Varsóvia

Por Simão Zygband 
Em 19 de abril de 1943 , reunindo comunistas, sionistas e socialistas judeus, começava no Gueto de Varsóvia a primeira revolta armada desencadeada por civis no interior da Europa ocupada pelos nazistas.

Em 1943, a deportação em massa de habitantes do Gueto de Varsóvia para o campo de extermínio de Treblinka, na Polônia, instigou o instinto de sobrevivência. Sabendo do destino que os esperava nos campos, os judeus optaram por morrer lutando.

Assim, se formou a coligação entre a Organização da Luta Judaica (Zydowska Organizacja Bojowa, ZOB) e a União Militar Judaica (Żydowski Związek Wojskowy, ZZW), movimentos juvenis que operavam no Gueto, para enfrentar os soldados nazistas e resistir à morte nas câmaras de gás.

Na Polônia ocupada por Hitler, mais de 400 mil pessoas viviam encurraladas numa área de quatro quilômetros quadrados num bairro em Varsóvia. Cercadas por altos muros, sujeitas a inúmeras proibições e controles, recebiam uma ração mínima de comida. Por imposição da SS, um conselho de moradores, responsável pela ordem e limpeza, era também obrigado a listar os nomes dos próximos a serem removidos para o campo de extermínio.

Entre julho e setembro de 1942, mais de 300 mil judeus foram transportados de trem do gueto para a morte certa no campo de Treblinka. A resistência foi formada a partir do desespero.

Trabalhadores formaram a resistência

No final de 1942, houve uma pequena pausa nas deportações. Cerca de 70 mil pessoas ainda viviam no gueto, na maioria mão de obra compulsória para a indústria que fornecia equipagem para o Exército alemão. Esses operários formaram o núcleo da resistência

Liderado por Mordechaj Anielewicz, jovem ativista do movimento sionista, o primeiro conflito ocorreu em 18 de janeiro de 1943, quando batalhões da SS foram atacados pela resistência enquanto marchavam rumo ao gueto, sendo obrigados a se retirar. Durante os três meses seguintes, os habitantes do gueto prepararam-se para o que esperavam ser a luta final, cavando túneis por baixo das casas que se ligavam pelo sistema de esgoto e davam acesso às zonas mais seguras de Varsóvia. O intuito era que pudessem se esconder e fugir pelos túneis.

Em 19 de abril de 1943, véspera da Páscoa judaica (Pessach), os nazistas invadiram o Gueto de Varsóvia e foram atacados pela oposição, que reunia mais de mil moradores. Depois um mês de batalha, as chances de vitória eram praticamente nulas para a resistência, que eventualmente foi contida pelas tropas.

Mordechaj Anielewicz e outros jovens que organizaram o ato foram assassinados em batalha ou cometeram suicídio, reivindicando o que chamavam de “morte digna”. Poucos prisioneiros conseguiram fugir – e, os que sobreviveram, foram capturados e deportados para os campos de concentração de Lublin e Majdanek.

A organização do Levante chegou ao conhecimento de muitos e, com isso, inspirou insurreições em outros locais – sendo, por isso, considerado o maior ato de resistência armada a enfrentar a opressão nazista.

Outros lugares de resistência

Rompendo com qualquer possibilidade de que caminhariam passivamente para a morte, houve muitos outros ataques armados contra os nazistas em pelo menos 100 outras localidades. Ainda em 1943, judeus que viviam em Vilna, Bialystok e outras cidades também organizaram levantes, mesmo sabendo das poucas chances que teriam de sobreviver. Para além dos guetos, ocorreram ações contrárias ao poder nazista em alguns campos de extermínio, como Treblinka, Sobibor e Auschwitz. Criou-se um processo de resistência com a criação de entidades culturais judaicas que promoviam festas e rituais religiosos, se dedicando à manutenção da educação de forma clandestina, às produções culturais e artísticas, à publicação de boletins, à escrita de diários ou até mesmo a esconder registros e objetos que, hoje, são fontes históricas sobre o que foi o Holocausto.

 

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