Construir Resistência
Foto: Arquivo Pessoal

Olhos azuis

Por Miriam Waidenfeld Chaves

– Cadê o meu Jacob & Co? Vou com ele no pulso. E aquela pólo do Armani  que eu tanto adoro, você viu?

Do closet, Paulo continua: “Nos encontramos na pista de voo, às 11 horas. E já ia me esquecendo, hoje quem voa com a gente é um piloto novo. O Adércio.

– Nossa! Que nome esquisito, esse.

– Também achei, mas ele foi recomendado pelo Patrick. Acho que ele nasceu no Piauí, diz, já no corredor, beijando a esposa.

E enquanto Paulo segue para seu escritório na Faria Lima, Laís continua na arrumação das malas para a viagem de fim de semana prolongado que farão para Trancoso.

Laís e Paulo  estão juntos há cinco anos num casamento sem intimidades. Afinal, a casa onde moram, no Jardim Europa, com piscina e elevador, vive cheia. Paulo adora festa, barulho e gargalhada. E nessas ocasiões, o churrasco, o japonês, a paella e a feijoada são os seus menus prediletos.

***

– Laís, este é o Adércio.

– Boa tarde, D. Laís.

– Boa tarde!

O jatinho levanta vôo, e a 5. 000 mil pés de altitude, o céu azul e o silencio do nada acabam por incomodar Paulo:

– Falei com meu irmão e ele me disse que dessa vez ele vai  passar o Ano Novo com a gente em Trancoso. Então, uma suíte já é dele.

– Tudo bem, Paulo, mas lá pra meados de novembro ele vai ter que confirmar se vai mesmo. E continua:

– Selecionei seis casas pra gente visitar, e duas delas são maravilhosas.

– Só acredito vendo.

– Eu sei, eu sei, diz Laís, num tom meio impaciente ao mesmo tempo em que tenta se entregar ao azul lá de fora.

Mas, de repente, escuta:

– Quando iremos visitar essas casas?

– Amanhã.

– Só amanhã? Não podia ter marcado alguma visita pra hoje?

– Até que eu tentei, mas ninguém tinha disponibilidade, diz Laís, respirando fundo.

– Que coisa, depois falam que baiano não é preguiçoso! Então, vamos fazer o que hoje?

– Ué, a gente pode tomar uns drinks  na piscina e depois sair pra jantar, responde querendo encerrar a conversa para finalmente se desligar.

***

No deck, Laís espera por Paulo por mais de uma hora. Enquanto saboreia seu cocktail, tem seus olhos hipnotizados pelo azul da água da piscina. Mas aí, escuta:

– Oi amor, estava no telefone. Coisas do trabalho.

– Não faz mal. Estava aqui distraída e nem vi o tempo passar.

Laís é assim. Apesar de muito ativa, se desliga com facilidade. Fecha os olhos e se imagina envolta em azul, imagem criada por ela, quando a professora de meditação em sua primeira aula disse: “Fechem os olhos.  Escolham uma cor. E se deixem envolver por ela.” Deu certo, e assim o azul passou a ser a sua cor, a cor de seus olhos, inclusive.

Também é muito racional, característica  que logo conquistou Paulo, que nunca gostou de mulher muito fragilzinha.

– Sabe, achei esse quarto um pouco pequeno.

– Ah, é?

– Estou morrendo de fome. Acho que vou pedir algo pra comer.

– Tudo bem, mas lembre-se que você me pediu pra reservar o Lua Minguante pras 8. Deu um trabalho danado conseguir um lugar!

– Pode deixar, respondeu Paulo, que mesmo assim pede um siri recheado.

–  No domingo, combinei com o Adércio da gente dar um passeio de barco. Sabia que ele pilota barco? E ainda por cima também é motorista.

– Nossa! Esse aí se vira  nos trinta, mesmo.

***

No dia seguinte, no café da manhã, antes de saírem para ver as casas, Laís diz:

– Tome aqui o seu remédio, Paulo.

– Já faz quanto tempo que tô tomando esse remédio! Até quando isso vai durar?

– Ah, não sei. Pergunta pro Dr. Clovis na segunda, mas agora toma aqui o copo d’água e não embroma, porque as suas enxaquecas ainda continuam terríveis.

Durante a visita às casas, Paulo, para variar, gostou justamente daquela que já não se encontrava mais disponível, pois a dita cuja fora alugada no dia anterior por um empresário mexicano com negócios em Arraial d’Ajuda.

Ele até que ofereceu o dobro do preço, mas não deu certo. Porém, a agilidade de Laís faz com que ela já de tardinha  escreva a seguinte mensagem para o marido que estava no quarto descansando:

– Achei uma casa maravilhosa. Ela fica na Praia do Espelho, bem pertinho daqui. O lugar parece até mais bacana que Trancoso. Amanhã, a gente aproveita o barco e dá um pulo até lá. Veja as fotos.

***

No domingo, ao subir no barco, Laís dá de cara com Adércio e seus olhos azuis, que ela só fora notar naquele exato momento. E já no deck, absorta em seus pensamentos, de repente ouve o berro de Paulo:

– Laís!

– O que foi? grita assustada, indo em sua direção. Ao vê-lo estendido no chão, com Adércio já o socorrendo, pensa: “será que estou exagerando na dose?” De imediato, chama uma UTI móvel e dali voam direto para São Paulo. Porém,  a 5.000 mil pés de altitude, em pleno silencio, Paulo respira pela última vez.

Causa mortis: AVC/envenenamento por mercúrio. Mas o resultado da autópsia não surpreendeu ninguém, pois Paulo, por ter-se tornado um dos  maiores importadores do metal no Brasil, acabou se tornando vítima de si mesmo. Inclusive, esse foi o clichê mais ouvido no velório.

Houve até quem olhasse Laís de olhos enviesados, mas ela nem deu bola. Sabia que havia executado um plano perfeito. E bem ali na igreja, durante a missa de sétimo dia, seus olhos, ao se encontrarem novamente com os de Adércio, fazem com que pense: “vou despedir o Severino, e a partir de agora, ele será o meu motorista.”

 

Miriam W. Chaves é contista e professora da UFRJ.

Compartilhar:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Matérias Relacionadas

Rolar para cima