Construir Resistência
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O retrato do Brasil

Por Sonia Castro Lopes

Apesar da ilustração, não vou falar do Véio da Havan. Já deram palco demais para quem representa o retrato fiel do Brasil de Bolsonaro. Grotesco, negacionista, cafona, criminoso. Apesar do aviso de comentaristas políticos e de alguns senadores de que a presença desse personagem burlesco na CPI seria um tiro no pé, o senador Renan Calheiros insistiu em convidá-lo a depor. Não deu outra.  A CPI da pandemia podia dormir sem essa.

Não existe a menor possibilidade de interrupção do mandato do crápula genocida que habita o Planalto. Ele mesmo já declarou que não há nada tão ruim que não possa ficar pior, referindo-se ao próprio governo. Estarrecedor é o fato de que ainda possua um grupo significativo de apoiadores, seja por ignorância, seja por interesses econômicos ou eleitoreiros.

Os boatos correm. Segundo algumas fontes haveria um acordo para que o capitão reformado desistisse da reeleição em troca de proteção aos filhos, todos implicados em crimes. Corre nas redes sociais a reprodução de um  twitter do deputado Paulo Pimenta a respeito de uma possível prisão de Carluxo, o 02, após os incidentes de 7 de setembro. Avisado por Temer, o mais recente articulador da república das bananas, Bozo teria ligado para o ministro Alexandre de Moraes e, aos prantos, implorado perdão pelos ataques ao STF em troca da liberdade do filhote.

As fontes são confiáveis? Não sei dizer. A meu ver, tudo isso não passa de boataria. O execrável está em franca campanha para a reeleição e pelos últimos resultados apresentados pelo PoderData ele já teria alcançado 30% da intenção de votos, ficando atrás do favorito Lula em apenas dez pontos percentuais. Ora, isso a um ano das eleições é nada. Se os efeitos da pandemia forem contornados e o auxílio emergencial restabelecido, o panorama poderá ser alterado em favor do genocida. E não se iludam: se houver a polarização prevista, o quarto poder mais uma vez apostará no “menos pior”, diante da “falta de opção.”

Vem chumbo grosso por aí. Com a máquina administrativa na mão, recursos financiados por empresários tipo ‘véio da Havan’, respaldo dos militares e o domínio das mídias digitais sob o tutorial de Steve Bannon, é possível que se repita o desastre de 2018. Naquela época já eram claras as opções fascistas, as inclinações criminosas dessa gente e, no entanto, lhes foi dado um voto de confiança porque o criminoso era o outro, condenado em duas instâncias e devidamente encarcerado para não atrapalhar o projeto comprado pela maioria da população influenciada pelas mídias hegemônicas.

Além disso, o pessoal do “nem… nem…” insiste desesperadamente na busca de uma terceira via que restaure a “ordem democrática” e combata a corrupção. Vários nomes vêm sendo cotados, mas nenhum deles é mais forte que o do ex-juiz Sérgio Moro. Tanto que Mandetta e Dória que oscilam entre 3 e 5% nas pesquisas de opinião já se assanham à procura de apoio e de uma possível composição de chapa. O marreco de Maringá, apesar de todos os malfeitos, ainda povoa o imaginário das camadas médias e da elite como o ‘salvador da pátria’, o único com poder de  romper a polarização que assusta os que detestam o PT, mas hoje se encontram decepcionados com a extrema direita bolsonarista.

Há um ano e meio, quando deixou o governo que ajudou a eleger, Moro foi absolvido pela mesma gente que batia panelas contra o capitão que começava a decepcioná-los. Jamais escondeu seus propósitos políticos. Anda dizendo por aí que aspira a uma cadeira no Senado, mas suas ambições são bem maiores. Enquanto Dória, Mandetta, Pacheco, Leite, Tebet são esperanças vagas para a concretização de uma terceira via que parece cada vez mais desidratada, Moro corre por fora. Atenção!

Os leitores estão me achando pessimista? De fato, estou. Quem viveu num país que já foi a sexta economia mundial, mandou às universidades os filhos das classes desfavorecidas, saiu do mapa da fome e respirou ares democráticos, em último caso só me resta comprar uma passagem para o exterior e dar uma de Ciro. Com um francês precário, sobrou Lisboa, onde, inclusive, morei por alguns meses e tenho alguns amigos.  Após uma vida inteira de trabalho, acho que mereço um final tranquilo, longe de toda essa lambança.

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