Construir Resistência
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O mordomo

Por Luiz Aun

Vi outro dia algumas partes de Santiago , filme de João Moreira Salles sobre o mordomo da família .
Ítalo/ Argentino tinha fascinação pela nobreza tendo deixado vários manuscritos sobre nobres europeus e outros escritos numa máquina de escrever.
Interessante pensar em mordomo nesses tempos .
Lembro que todas as casas tinham essas pessoas que nos serviam .
Não eram mordomos , a maioria.
Tinham outra definição , que me recuso a escrever .
Era um retrato de tempos da escravidão, transportados pra mesas e camas ,mas que não deixavam de ser seres escravizados.
Uns com mais condescendência e liberdades , conquistadas por simpatia dos senhores . Unilateral …
Ou por uma índole melhor e mais humana dos “patrões”.
Como medir isso ? Como não nos perguntar honestamente nos novos tempos : fizemos isso ?
Em troca de um pagamento libertador da culpa ?
Santiago pra família Moreira Salles , com toda certeza foi diferente.
Optou por servir a essa família.
Guardei em especial uma passagem : numa noite os pais saíram pra uma festa .
João dormia , mas acordou com uma música vinda da sala .
Ao descer se depara com Santiago de fraque ao piano . A música vinha dele tocando .
João se surpreende e estranha a roupa .
– Por que essa roupa Santiago ?
– Porque é Chopin ( ou Beethoven tanto faz …)
Santiago deixou um rastro de cultura pra essa família .
Vinha de outro país onde cultivou interesses pela arte , pelo refinamento , e teve uma educação voltada pra ser quem se tornou .
Não há em Santiago a subserviência escrava.
Há o talento e o prazer em servir .
Não é menor servir quando se faz com amor a quem se serve e por servir .

Provavelmente tivemos isso em casa , nós os “privilegiados” de plantão .
Dizemos hoje que os que nos serviram são da família.
Mas dormiam nos fundos , comiam depois …
Não eram .
Eram serviçais .
Crescemos sem arrumar nossas camas .
Eles fariam .
Crescemos sem lavar nossos pratos .
Eles lavavam .
Nossas roupas no varal víamos das janelas dos quartos . Não sabíamos como foram parar ali.
Eram chamados por sininhos ou campainhas .
Estavam a postos …


Nossos Santiagos …
Que por nós , não aprenderam Chopin , não frequentaram escolas .
Aprenderam a ser apenas o que viram em casa de outras famílias que não as deles .
Fomos escravagistas .
Exportávamos para outras casas os que não serviam mais .

Santiago morreu.
Provavelmente amparado por uma família mais humana .
Por alguém que guardou em sua memória um cara que foi importante na infância dele .
Um valet de chambre , nobre , humano , como todos nós deveríamos ser …

Luiz Aun é profissional do mercado financeiro e escritor

 

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