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O macho alfa

Por Vidomar Silva Filho

O primeiro soco foi suave, quase um empurrão. Acertou no meio do peito e o jogou contra a parede. Enquanto escorregava com as costas na parede, recebeu um soco rápido,vindo de cima, que lhe raspou a cabeça como um cascudo. Esse doeu mais e ficou queimando, fininho. Juliano encolheu-se no canto da sala, com o coração aos pulos.

– Seguinte, moleque, olha aqui, ó. Tu não vem me tirar, não, porque tu sabe que tu leva a pior. Já te falei que nesta casa quem manda é o macho alfa aqui.

Ainda no chão, o garoto franzino engoliu o choro e encarou seu agressor.

– Eu ainda vou te matar, seu filho da puta.

Soares foi até ele. Juliano levou os braços por sobre a cabeça, mas o golpe não veio. O homem riu.

– Que mané matar, moleque? Mata porra nenhuma, pirralho. Anda, levanta daí e vai pra escola. E não levanta mais a voz pra mim, porque eu te dou um sacode. Anda, vaza, otário!

Juliano foi até o quarto, trocou-se e pegou a mochila com os cadernos e livros. No banheiro, urinou e olhou-se no espelho. Não valia a pena tentar pentear os cabelos revoltos. Controlou-se para não espremer a espinha enorme do lado do nariz. Não queria pegar o ônibus com a cara sangrando. Pelo menos isso o filho da puta do Soares sabia fazer, bater sem deixar marcas. Prática de policial acostumado a maltratar presos. Nos negros mais escuros – um dia ele contou como piada – podia bater mais forte, porque os hematomas não apareciam.

No pátio da escola, Taís quis saber como fora o fim de semana.

– Uma merda. No sábado à tarde, o babaca do Soares levou uns caras da polícia lá pra casa, pro pôquer. E lá ficou a mãe fritando coisa pra eles, fazendo caipira. Por duas vezes o Soares me mandou no bar trazer cerveja.

– Ficaram até que horas lá?

– Sei lá. Sei que era tarde. Quando os caras terminaram de encher os cornos e foram embora, a mãe reclamou que o Soares trazia gente pra casa no dia dela descansar.Daí ele deu um tapa na cara dela.

– Porra, Juliano, o que é que a tua mãe ainda tá fazendo com esse cara? A casa é de vocês.

– Ela já até tentou mandar o babaca embora de outra vez que ele bateu nela. Mas ele agarrou no pescoço dela e disse que matava ela e eu. Ela foi dar queixa dele, mas nem teve BO. Os caras lá na delegacia disseram que a vida de policial estressa, que acontece de ficar nervoso, que ela nem tava machucada, que era melhor voltar pra casa e esfriar a cabeça…A mãe tá numa sinuca do caralho, Taís.

– Por isso é que eu não curto homem. Homem faz muita merda. Desculpa, tu não. Tu é legal.

Juliano sabia da preferência de Taís por meninas. Não era um detalhe sem importância. Mas tinha a mesma relevância de ela gostar de Slipknot e de jogar CallofDuty online, como ele.

– Mas, Ju,tu não enfrenta ele não, né? Porque esse sujeito pode te fazer alguma merda, tu sabe.

– Ainda há pouco, depois que a mãe saiu pro serviço, eu reclamei que ele tá maltratando ela. Falei pra ele que homem que bate em mulher é covarde. Pra quê? O filho da puta me deu duas porradas, pra eu aprender a não tirar onda com o macho da casa.

Bateu o sinal das aulas e Taís tornou a recomendar a Juliano que não atravessasse o caminho do namorado da mãe. No intervalo do lanche, quando tornaram a sentar juntos no pátio, Taís perguntou-lhe se o tal Soares não teria algum ponto fraco. Definitivamente, tinha cabeça de jogadora.

– O Soares? Não tem, não. Diz que não teve nenhuma punição até hoje. Contou que já foi até condecorado por bravura. Ele fala que policial corrupto com ele tá fodido.

– E tu acreditou, Juliano? Porra, tu sabe que a polícia brasileira é podre e que a carioca é mais podre ainda. Alguma coisa esse sujeito apronta.

– Ah, ele diz que já matou uns quantos, mas sempre é traficante armado. Daí fica por isso mesmo. Sei lá, de repente ninguém tá nem ligando muito. Eu acho que ele é sério mesmo como policial.

– Juliano, tu é gente boa, mas ingênuo pra caralho. Só porque o sujeito diz que é honesto tu acredita, garoto? Qual é o carro dele?

– Ele tem um Civic zero. Comprou esses dias. Tem uma moto também, uma Harley dessas grandes, já mais antigona.

– Mas cara pra cacete. Ele é investigador, né? O salário líquido não dá nem cinco mil, Juliano. Eu sei porque o meu tio é investigador e vive reclamando da merreca que eles ganham. De onde é que um investigador de polícia tira dinheiro pra comprar carro de mais de 100 mil e moto gringa? Tu não tá vendo que isso aí tá esquisito, cara?

– Mas e se tiver, Taís? Tu acha que eu vou denunciar o cara? Até investigarem ele, isso se investigarem, ele mata a mãe e eu. O que é que tu quer que eu faça?

Taís ficou meio sem resposta. Nem sempre o jogo é fácil.

– Por enquanto só vai estudando ele, Ju. De repente pinta alguma coisa.

No ônibus Juliano ia pensando no inferno que sua vida tinha virado nos últimos meses, desde que a sua mãe caíra na lábia do Soares. Poucos dias depois de instalar‑se na casinha que a mãe tinha ralado pra construir, o canalha já tinha começado com a história de ser o homem da casa, a referência masculina de que Juliano estava precisando, essas babaquices todas. E começavam os xingamentos contra Telma, que logo descambaram pra puxões de cabelo e tabefes. Sabia que a mãe também já não suportava mais o sujeito, mas ela sempre lhe pedia que tivesse paciência, que as coisas se resolviam. Juliano sabia que tudo só se complicava cada vez mais e passou a temer pela vida da mãe. Precisava agir com esperteza. E logo.

Em casa, aproveitou que Soares ainda não estava e resolveu dar uma geral nas gavetas e armários do quarto da mãe, para ver se encontrava algo de útil contra o babaca. Nada. Também, o que é que ele esperava? Não é como nos filmes. Saiu do quarto envergonhado por ter invadido a privacidade da mãe.

Às oito da noite chegou Telma, que só largou a bolsa e já foi para a cozinha, porque o Soares não gostava de jantar tarde. Às nove chegou o canalha. Largou a mochila sobre a poltrona vermelha na sala, que Juliano fingia ser um trono quando pequeno. Juliano sabia que não devia tocar na mochila. No devido tempo, Soares a tiraria dali e a chavearia no armário do quarto da mãe. Da única vez em que Juliano tentou tirar a mochila para usar a poltrona, ganhou um safanão de Soares, que gritou a meio palmo do seu nariz:

– A minha pistola e as munição tá dentro da mochila, moleque. Se tu ralar a mão mais uma vez nessa merda, eu te racho.

Desta vez, olhando melhor a mochila, Juliano notou que ela parecia firme demais para conter só uma arma e as munições. Quando Soares a tirou da poltrona, o rapaz percebeu certo esforço no punho dele, como se a mochila contivesse algo pesado. Não era um casaco. E certamente não seriam livros.

Perto da meia-noite, ouviu quando Soares deixou o quarto da mãe e veio para a sala. Encostou a orelha na porta do quarto para ouvir melhor. O homem sussurrava, mas Juliano pôde ouvir claramente quando ele falou:

–Passa aqui às oito da manhã, então.

Na manhã seguinte, o rapaz não foi à escola. Fingiu que não acordara com o despertador e ficou na cama. Às oito, um carro deu uma buzinada curta na frente da casa. A janela do quarto de Juliano dava para rua. Espiando pela fresta da cortina, ele viu o carro prata, sem nada de notável além dos vidros laterais com película escura. Soares entrou no carro com a mochila.Quando voltou, depois de uns cinco minutos, trouxe-a vazia. Fosse qual fosse seu conteúdo, tinha ficado no carro.

No dia seguinte, Juliano contou a Taís o ocorrido.

– Tráfico, Juliano. Só pode. Taí de onde vem o dinheiro pra carro bacana.

– Eu vou filmar esse filho da puta e denunciar pra polícia, Taís.

– Isso, gênio! Daí tem mais gente da polícia envolvida e, além de livrarem a cara do babaca, ainda dão fim em ti, maluco.

Novamente, Juliano se via num beco sem saída. Vieram as férias de julho e ele pôde observar a rotina de Soares com mais atenção. Percebeu que a mochila vinha pesada uma vez na semana, sempre numa terça ou quinta‑feira, e que Soares recebia o telefonema misterioso nesses dois dias.Um carro, nem sempre o cinza, mas sempre pouco chamativo, encostava na frente da casa no dia posterior ao da mochila pesada, entre oito e dez da manhã. Juliano fingia estar dormindo e só deixava o quarto depois que Soares saía para o trabalho.

Juliano sabia que precisava ter cautela extrema. Se precipitasse as coisas, poderia pôr a própria vida e a da mãe em risco. Agora que conhecia um ponto frágil do Soares, ainda não sabia direito como agir. Mas sabia que o tráfico não alivia com quem pisa na bola e que uma eventual perda da droga podia foder com a vida do otário.

O maior problema não era tanto Soares trancafiar a mochila no armário. A fechadura na portinha era bem simples e podia ser facilmente aberta com um clipe de papel. O diabo é que ele estava sempre por perto enquanto a mochila estava sobre a poltrona, e Juliano jamais poderia entrar no quarto com ele e a mãe lá. Já planejara o que faria quando pudesse botar as mãos na mochila, mas precisava de algo que deixasse o caminho livre.

Sabia que não podia contar o que sabia à mãe, nem seus planos. Porque ela jamais o deixaria seguir adiante com algo tão arriscado. Pensou em discutir com Taís umas ideias, mas depois achou melhor deixá-la de fora. Podia dar uma merda grande. E Taís certamente também tentaria dissuadi-lo.

Não conseguia pensar numa forma de separar Soares da mochila por um tempo suficientemente longo. Contava com uma eventualidade que o ajudasse.

Teve sorte. Foi algumas semanas depois, numa noite de mochila pesada.Passava de meia-noite quando Telma sentiu uma dor forte nas costas. Soares ia levá-la ao pronto‑socorro, porque podia ser outra pedra nos rins. Telma disse a Juliano que voltasse a dormir pra não perder a aula no dia seguinte.

Juliano conhecia as emergências em São Gonçalo e sabia queteria tempo suficiente para o que precisava fazer. Invadiu o quarto da mãe com o clipe. Mas nem foi preciso usá-lo, porque o otário do Soares sequer tinha chaveado a portinha onde estava a mochila. Quando abriu o zíper, as mãos lhe tremiam muito e o coração parecia querer saltar-lhe do peito. Lá estavam seis pacotes com o pó branco. Retirou-os e escondeu‑os no fundo do quintal, atrás de uma pilha de tijolos que sobraram da construção da casa.

Foi à cozinha e pegou no armário de mantimentos sacos de arroz, farinha, açúcar, fubá e o cacete e foi acomodando na mochila, até sentir que ela estava com o mesmo peso e formato de antes. Guardou-a de volta no armário e voltou para o quarto. Não conseguiu dormir e ouviu quando Telma e Soares voltaram, perto das quatro da manhã.

Às sete e meia saiu do quarto. Soares ainda não acordara. A mãe, como sempre, tinha saído às seis e meia para o trabalho. Juliano se perguntou novamente como ela aguentava aquela vida. Abriu a porta e chaveou-a ao sair, mas não foi para a escola. Sem fazer ruído, foi até janela do quarto, que deixara aberta, olhou em volta e pulou para dentro. Estava arriscando a vida, sabia, mas não queria perder aquilo por nada. Ouviu quando o carro chegou às oito e buzinou na frente. Espiou Soares entrar no carro com a mochila e voltar logo em seguida, com cara de assustado, acompanhado por dois homens. Um deles, um negro enorme, Juliano jamais havia visto. O outro, um branco atarracado, calvo, com uma cara simpática, era um dos caras da noitada do pôquer. Taís tinha razão. Se tivesse denunciado Soares à polícia, teria se ferrado. Ele já tinha fechado a porta do quarto à chave, o que lhe daria algum tempo para fugir caso os sujeitos resolvessem dar uma batida na casa à procura dos sacos. Retirou com cuidado a chave e ficou olhando pelo buraco da fechadura. Ouviu o sujeito do pôquer dirigir‑se a Soares.

– Tá, Soares, agora explica aí pra gente que porra é essa, meu. O que é que tu fez com o bagulho? Tu tá maluco de querer enrolar o Doutor, babaca?

– Lopes, pelo amor de Deus, cara, me escuta. Eu não sei o que aconteceu. Porra, eu não conferi quando o Bicudo me entregou. Vai ver que lá já tinham tirado os pacotes, cara, sei lá.

– Escuta aqui, seu zé-mané. Tu não abriu a porra da mochila quando te entregaram?

– Não. Eu confiei nos cara.

– E lá se confia em traficante, maluco? Tu nem parece polícia, seu merda!

– Porra, merda não, né, Lopes.

A bofetada estourou na cara do Soares, que caiu sentado no sofá. Pelo visto o macho alfa era o Lopes.

– É merda, sim, seu filho da puta. Tu tá pensando que isso aqui é brincadeira, otário?Peraí que tu já vai ver com quem é que tu lidando, seu zé-ruela.

Lopes levou a mão por dentro do casaco e Juliano pensou “puta que o pariu! agora ele queima o Soares”. Mas ele só puxou o celular.

– Alô, doutor, é o Lopes aqui. A gente tá com um problema. O Soares aqui perdeu a encomenda… Ele diz que lá o Bicudo é que fez sacanagem… Eu sei… Sim, eu sei… O senhor desculpa… Não, calma que a gente vai dar jeito… Tá a gente leva…

Juliano podia ouvir os gritos do tal Doutor do outro lado da linha. Ficou claro que o macho alfa também não era o Lopes.

Lopes ligou para outro número.

– Bicudo, sou eu, o Lopes. Tudo na paz. Quer dizer, quase. Rolou uma parada meio estranha aqui com o Soares. Mas não dá pra falar no telefone. Que hora tu chega na empresa? Tá certo. No galpão do fundo? Tá, beleza.

O Soares estava fodido e sabia disso. Juliano viu quando ele se botou de joelhos e abraçou as pernas de Lopes.

– Lopes, pelo amor de Deus, amigo. Porra, tu sabe que eu não ia querer te foder…

Mais uma bofetada. Soares se enrodilhou no chão, choramingando.

– Mas tu não vai me foder mesmo, vacilão! Sai do chão, porra. Senta aí, caralho. Isso, senta no sofá. Ô, Osmar, lá no Bicudo é às nove e meia. Vamos dar um tempo por aqui. Pega lá um copo d’água pra esse bosta, que ele tá quase se passando aqui.

Lopes puxou a poltrona vermelha e sentou-se frente a frente com Soares.

– Soares – a voz era quase terna – eu não tô entendendo isso de tu querer melar a parada. Diz onde é que tão os pacotes e a gente esquece isso tudo.

– Eu já disse que não sei o que aconteceu, Lopes. Só se foi o moleque que pegou. Ele tá na escola agora. A gente espera ele voltar e dá um sacode. Ele conta.

Juliano gelou. Pronto, tinha fodido geral! Que cagada que tinha feito!

– Porra, tu é um comédia do caralho, Soares. Tu só sabe mentir pra mulher mesmo, seu pedaço de bosta. Tu não falou que trancafiava a mochila e que tinha encagaçado o moleque pra nem chegar perto dela? Então?

– Ontem a gente saiu à noite. Vai que ele mexeu, amigo.

Lopes deu-lhe mais uma bofetada.

– Amigo é o caralho! Era pra não tirar os olhos da mochila, filho da puta. Tu é pago pra isso.

– A gente saiu e logo voltou. A gente foi ali na emergência do Alberto Torres…

– Que mané emergência, Soares? Para de falar merda. Tu fala merda pra cacete. Tu enche o saco lá no distritocom as tuas histórias e as piadas sem graça. Tu conta piada racista na frente dos colegas negros, seu bosta. Tu contou piada de aborto na frente da Deolinda ontem, idiota. Tu sabia que a neta dela precisou abortar de cinco meses no sábado? Sabia não, né? E não sabia sabe por quê, hem, por quê? Porque tu não escuta ninguém. E ainda fica com essa porra de macho alfa. Macho alfa é o caralho, seu frouxo! Tu só fala, fala pra cacete, seu nóia. Mas agora tu vai calar essa boca e vai escutar, filho da puta. Tu sabe quantos anos eu tenho de polícia, sabe? Mais de vinte e cinco. Aqui em São Gonçalo, eufui ambulante, depois vendedor de carro, depois professor de Geografia durante cinco anos. Tu não sabia, né? O Antunes aqui sabe, porque ele é meu amigo, de verdade. Só não batizou as minhas filhas porque eu não conheci ele antes. Mas eu chamo ele de compadre, porque ele batizou a minha neta. Compadre Osmar, diz pra ele onde é que eu estudei.

– Na Federal.

– Sabe por que é que ele sabe? Porque ele é meu amigo. Tu é só colega de trabalho. Eu não tenho amigo da tua laia. Se tu me chamar de amigo mais uma vez, eu faço tu engolir os dentes. Mas, então, eu me formei em Geografia e fui lecionar. Passei cinco anos num colégio particular ouvindo merda de aluno folgado. Porque moleque da classe média sabe ser folgado! E ouvindo merda de pai e mãe de aluno folgado. A classe média daqui sabe ser bosta… Daí eu enchi o saco de verdade. Antes que eu socasse as fuças de um merda daqueles, eu pedi as contas e fiz concurso pra polícia.

Juliano se perguntava onde aquela conversa ia dar.

–Soares, tu tá entendendo? Eu passei a vida sempre lidando com gente, gente de todo tipo, mulher, homem, pobre, rico, branco, preto, sapata, viado, machão, o caralho a quatro. E policial não lida só com bandido, não, cacete. Na polícia também lido com muita gente boa, honesta, sofrida. Tem muita gente boa por aí. Não pensa que é todo mundo bosta que nem tu.

Soares ficava de cabeça baixa, sem coragem de encarar Lopes. Tomou mais um tapa na cara, leve.

– Olha pra cá, caralho. Me escuta. Então, como eu tô te dizendo, eu conheço como é que gente funciona. Eu aprendi a ler as pessoas. Tu acha que eu não sei o que rola aqui nessa casa? Eu vim aqui o quê, três vezes? É, só três vezes. Mas deu pra ver bem como a Telma e o menino têm medo de ti. Tu anda batendo neles, né, seu filho da puta? Bate ou não bate, safado? Responde aí.

Soares só conseguiu balançar a cabeça afirmativamente.

– E lá na DP, tu acha que a gente não te manja? Tu batemuito naqueles fodidos todos que caem na tua mão. É avião, é travesti, é puta, é ladrãozinho de celular. Pra quê, caralho? Pra quê aquilo? Me diz. Eu já bati e bato pra tirar informação de filho da puta que não colabora. Mas eu não gosto. É sempre uma coisa escrota. Me faz um mal enorme aquilo. Já tu curte. Tu é um sádico do caralho, seu nojento. Um arrombado desses que tu maltrata, tu sabe o que é que ele vai fazer quando puder botar a mão numa arma? Ele vai matar o primeiro policial que der bobeira. Pode ser que seja um canalha que nem tu. Mas também pode ser gente boa, que nem o coitado do Tavares, que morreu de bobeira. E o povo pobre ainda fica com medo e com raiva da gente. Pensa que todo polícia tá ali pra dar porrada, humilhar. Daí não colabora. Tá vendo como tu é um estorvo, seu filho da puta? E ainda por cima tu é puxa-saco. “Telma, traz mais uma cervejinha aqui pro delegado Ramalho. Juliano, traz torresminho aqui pro delegado Ramalho”. Baba-ovo do caralho! Tu me chama de amigo de novo pra tu ver só.

Soares foi se encolhendo.

– Agora tu vem querer culpar um moleque de doze, treze anos pela tua cagada, porra!

Juliano ia fazer dezesseis dali a uns dias. Mas achou que aquela não seria a melhor hora para ir lá e esclarecer que tinha atraso de crescimento.

– Tu quer o quê, que eu dê porrada no moleque? Eu sei que não foi ele. Eu sei reconhecer um menino bom quando vejo um. E ele ainda tem esse medo fodido de ti, seu escroto. Nunca que ele ia te roubar o pó, Soares. Inventa outra.

– Vai que ele não sabia o que era. A gente podia esperar um pouco ele…

– Cala a boca, caralho. Essa encomenda tinha que estar no Galeão hoje à tarde. Tu fodeu tudo, Soares.

Soares ainda arriscava se defender:

– Lopes, já pegaram droga nossa no aeroporto…

– Que mané nossa, maluco?! Olha só isso, Osmar! O sujeito é uma porra de policial chinfrim, corrupto, traficante e pensa que é um barão da droga, um Pablo Escobar carioca. A coca não é tua, animal. Tu é um só uma mula. Sem a porra do distintivo, tu é igualzinho a um avião daqueles que tu dá porrada no DP. Tu é um comédia mesmo, Soares.“Nossa droga”… Fala sério!

Antunes, que se mantinha de pé, sorriu brevemente.

– Soares, todo bom malandro se faz de mané. E todo bom mané pensa que é malandro. Tu é bem assim. Tu pensa que é sagaz, mas é mané. Quer ver como tu é otário pra caralho? Essa porra de carro aí no quintal! Tu compra um Civic zero. E ainda deixa no quintal de uma casa sem garagem! Só faltava ser um Camaro, que é carro de bundão que nem tu. Como se a cagada fosse pouca, tu ainda bota uma porra duma Harley do lado. Tu acha que o povo não comenta, mané? Vai que um dos vizinhos aqui te denuncia na corregedoria. Dá ruim pra todo mundo. Tu sabe o que que o Antunes faz com o dinheiro desses esquemas que a gente arruma? Pensa que ele compra carro pra se exibir? Conta pra ele, compadre Osmar.

– Eu paguei a faculdade da minha caçula. Agora tô montandoo consultório dela.

– A filha do Antunes se formou dentista. Tu também não sabia, né? Tu não sabe de nada. A família dele nem sonha que vai ter dinheiro do pó nesse consultório. O Antunes ganha no pôquer, ganha comissão na venda de sítio… Na semana que vem, ele vai ganhar trinta mil no milhar.

Antunes sorriu novamente. Lopes continuava:

– Eu também ganho no bicho de vez em quando, ganho em negócio de carro, ganhei rifa de boi e vendi o boi, achei dinheiro na rua… Eu sei que as filhas devem sacar que tem algo estranho. É sorte demais essa minha. Mas a vizinhança não saca. O meu carro é uma porra dum Uno. O dinheiro eu tô guardando pra comprar um sitiozinho. Eu já podia tá aposentado. Mas tô ralando ainda. Pensa que é pra salvar o mundo das drogas? O nosso trabalho é enxugar gelo direto. Povo tá aí fumando e cheirando geral. E tu pensa que eu me importo? Morre um mané de overdose. Foda-se! Ai, a filha do doutor fulano tá de novo na reabilitação! Foda‑se! Foda‑se que a droga passe pelo Brasil pra ir pra Amsterdã. Foda-se! Deixa os gringos encher o cu de pó. Eu quero é comprar o sítio lá em Xerém. Até o Zeca pagodinho tem sítio lá. A minha filha e o marido são agrônomos. Vão plantar orgânicos. A outra filha vai ajudar na administração. Eu e a mulher vamos meter a mão na terra. Eu tiro a minha netinha desse inferno de São Gonçalo e nunca mais toco a mão na porra duma arma. Já tá tudo planejado. Mais um ano, ano e meio pra eu terminar de juntar o dinheiro. Mas agora vem tu e me faz essa cagada, bota tudo em risco, seu zé-mané.

Soares tentou mais uma vez argumentar.

–Lopes, me escuta, por favor. Essa encomenda podia cair no aeroporto. O Doutor já conta com esses contratempo…

– Contratempo o caralho, Soares! Tu deu fim em seis quilos de pó de qualidade. Aqui no Brasil isso já dá aí uns 150 mil. Na Europa, passa frouxo de um milhão. Outra coisa, lá no aeroporto o Doutor já sabe que perde um quilo em cada dez, porque o pessoal da federal precisa mostrar serviço. Quase todo dia cai uma mula por lá, mas passam dez. Então, lá no aeroporto é normal. Só que aqui não é o aeroporto, caralho! Tu sabe quantos dos nossos já perderam pó? Nenhum, porra! Tu é o primeiro idiota que faz isso. Tu só tá no esquema porque o bundão do Ramalho te botou. Não sei por quê. Eu não te botava de jeito nenhum, porque eu sei que tu é um imbecil do caralho que só faz merda…Peraí… – Lopes virou-se bruscamente para Antunes – Porra, me caiu uma ficha agora! Osmar, esse mané anda transando com o Ramalho. Esse bosta é viado!

Soares se encolheu todo, incapaz de encarar Lopes. Juliano quase soltou um “eita, porra!”. Jamais imaginaria isso do macho alfa.

– Soares, todo mundo lá no distrito sabe que o Ramalho gosta de homem. Isso é lá com ele. A gente não se mete. Agora tu, seu canalha, tu gosta de bater em viado e é viado?! Não precisa ficar com medo, não. Eu não vou te descer o braço por ser viado. O meu sobrinho é gay desde criança e sempre comeu e dormiu na minha casa. É o filho homem que Deus não me deu. Aliás, dez vezes mais homem do que tu. Então, tu tem noção do nojo que tu me dá quando tu faz aquelas imitações escrotas de viado, filho da puta?

Antunes olhou o relógio de pulso e chamou Lopes.

– Zé Paulo.

– Deu a hora, né, Osmar? Anda, Soares, vem que a gente vai lá no Bicudo agora pra resolver a parada. Lá a gente fica sabendo quem é que tá mentindo nessa história.

– Lopes, pelo amor de Deus, tu sabe que tu pode tá me levando pra morte – Soares começou a choramingar e Juliano quase teve pena dele. Quase.

– Para de chorar, seu frouxo. Vamos que lá a gente se entende. Anda. Bom cabrito não berra.

Mas o Soares não parecia lá assim um cabrito de muito boa qualidade, porque começou a chorar aos soluços. Tomou mais uma bofetada e calou-se na hora. O Soares talvez até soubesse como fazer alguém falar. Mas o Lopes é que sabia legal como fazer fechar a boca.

– Escuta aqui, de uma vez por todas, seu frouxo: O Doutor só mandou eu te levar lá. Eu não sei como vai ser. De repente só rola um sacode. Eu não discuto, porque não sou besta. Ele mandou levar e eu levo. Simples. Ó, olha aqui o Antunes. Ele é meu chapa, mais do que um irmão. Mas ele sabe que se vacilar e o Doutor pedir pra dar jeito, eu tenho que dar jeito. Só não vou torturar o meu amigo, nem fodendo. Mas se tiver que matar, eu mato. Porque eu sei que, se eu não matar, o Doutor manda matar os dois. E bem devagar. A mesma coisa ele comigo se eu vacilar, né, Osmar? A gente até já combinou que a coisa tem que ser só com um tiro, na nuca.

Soares não parecia muito interessado nas juras de amor fatal entre Lopes e Antunes. Começou novamente a chorar alto e a soluçar. Tomou mais um tabefe e sossegou. Ficou fungando feito uma criança triste.

– Ô, Soares, pensa no lado bom dessa porra toda. Tu não gosta de pagar de polícia fodão, que faz e acontece? Tu não paga de herói? Então. Pois se tu morrer, tu vai virar herói. Tu sabe que a gente sempre cuida bem disso. Olha só a manchete: “Valoroso policial tomba na guerra contra o tráfico”. Ah, e outra coisa, a Telma e o filho também não vão ficar mal. Tem aí o quê, um ano que tu tá aqui infernizando a vida dela, né? Seis meses já dá união estável. Olha só que coisa boa! Vai ajeitar a vida da coitada. Tu vale mais morto do que vivo, Soares. Até nisso tu é um otário, seu filho da puta. Anda, puxa o carro, que tu já atrasou demais a nossa vida. Ó, bico calado até lá. Tu experimenta choramingar que eu vou fazer contigo o mesmo que tu faz com aqueles coitados que caem na tua mão.

Juliano viu quando, sob a mira da arma de Antunes, Soares seguiu até o carro e foi obrigado a entrar. O carro arrancou e ele teve certeza de que vira Soares vivo pela última vez.

Ainda ficou esperando no quarto. Custava-lhe tomar coragem para sair. Sentia o coração disparado e as mãos geladas. Depois de alguns minutos, decidiu que eles não voltariam tão logo. Correu até a cozinha e saiu para o quintal. Precisava agir rápido, porque eles certamente iriam voltar atrás dos pacotes depois de resolver a parada com o Soares e o Bicudo,e ele não poderia estar por ali. Tomou uma enxada, cavou um buraco junto ao muro. Depois de certificar-se de que ninguém o observava, jogou os pacotes no buraco. Cobriu-os com terra e alisou tudo. Por fim, tomou uns restos de tábuas de caixaria e pôs por cima.

Tornou a entrar em casa, pegou a mochila e foi para a escola. Inventou uma desculpa qualquer para entrar depois do intervalo. Na classe, não conseguiu ouvir uma palavra do que o professor explicava. Ainda ecoava na sua cabeça o longo sermão de Lopes e as súplicas de Soares. Não teve nada do prazer que esperava ao vê-lo se foder daquele jeito. Mas também não sentia pena do babaca.

Não voltou para casa na hora do almoço. Comeu um sanduíche na cantina da escola e foi para a biblioteca. Felizmente não cruzou com Taís, porque não queria envolver a colega no que tinha aprontado. Decidiu que não lhe contaria nada. Quanto menos ela soubesse, mais seguros ambos estariam.

Quando começou a pensar melhor no que tinha feito, sentiu-se mal. Foi até o banheiro e trancou-se no reservado. Vomitou o almoço. Depois sentou-se no vaso e esteve um longo tempo chorando. Não imaginava que fosse mesmo cumprir a ameaça de matar Soares.

No meio da tarde, quando voltou para casa,viu que o portão maior estava aberto e que o carro e a moto não estavam mais no quintal. Lopes arranjara um jeito de compensar o Doutor pelo prejuízo. Parece que o sitiozinho em Xerém estava seguro.

As tábuas ainda estavam onde as havia posto. Juliano teve um arrepio ao pensar que teria que dar fim nos sacos depois que a poeira baixasse.

A porta da cozinha estava arrombada. Tinha que parecer roubo, claro. Entrou, sabendo de antemão que a casa estaria revirada. Ligou para a mãe e avisou do ocorrido. Ela disse que ia ligar para o Soares. Por pouco, Juliano não se traiu dizendo que não adiantaria. Teria que tomar muito cuidado dali por diante.

Desviando das coisas atiradas ao chão, foi até a sala. Arrastou a poltrona vermelha até seu lugar e sentou-se nela. Olhou em volta. Mesmo em meio à bagunça em que a casa estava, sentiu que pusera a vida novamente em ordem.

 

Vidomar Silva Filho é doutor em Linguística pela  Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor de Língua Portuguesa e Literatura do Instituto Federal de  Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina (IFSC)

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