Construir Resistência
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O Leblon vai virar Palmares

Por Sonia Castro Lopes

Ontem, durante minha caminhada pela orla, parei para assistir a manifestação  O Leblon vai virar Palmares organizada pelo Movimento das Brigadas Populares, dos Trabalhadores sem Teto (MTST) e pela Frente Povo sem Medo. Eram poucos, mas faziam barulho, concentrados na altura do Posto 10, no finalzinho de Ipanema. Identifiquei de imediato alguns manifestantes vestindo camisas vermelhas com a sigla UJC – União da Juventude Comunista, organização política fundada em 1927 que se constitui como a ala juvenil do Partido Comunista Brasileiro (PCB) –  e com legendas do MTST. Os integrantes eram, em sua maioria, jovens e mulheres quase todos negros acompanhados de muitas crianças que dançavam alegres ao som de um berimbau. Curiosa, procurei um rapaz que parecia ser um dos líderes do movimento para uma breve entrevista.

David Gomes apresentou-se como coordenador das atividades culturais das Brigadas Populares, organização política nacional cujo objetivo estratégico é contribuir para a superação da dependência brasileira e a formação de um regime político soberano, popular e democrático. Sob o lema  “Unidade aberta por uma nova maioria”, a organização propõe a formação de um amplo campo político capaz de se consolidar como alternativa real de emancipação do povo brasileiro contra os interesses da elite dominante por meio de uma linha política socialista, classista, feminista, antirracista, anti-imperialista e nacionalista-revolucionária.” (Manifesto das Brigadas Populares)*

Ouçamos, então, o que David nos disse sobre a manifestação de hoje (13/11):

“Nosso ato – O Leblon vai virar Palmares – é um ato tradicional que sempre fazemos próximo ao dia 20 de novembro, data da consciência negra, para denunciar o racismo estrutural existente em nossa sociedade. Hoje, nós vamos fazer essa marcha em direção ao Leblon que é o metro quadrado mais caro da cidade e, talvez, do país.  Esse ano, além do Leblon vai virar Palmares, também estamos realizando a Marcha Nacional contra a fome para denunciar o governo do Bolsonaro e do Paulo Guedes que está fazendo com que o povo enfrente filas para pegar carcaças e ossos. Então, estamos aqui para denunciar a situação do nosso país, denunciar esse governo genocida.”

Aos poucos o grupo se deslocou para a pista à direita e marchou em direção ao bairro do Leblon, limítrofe ao de Ipanema. Tratava-se de uma manifestação pacífica, de pequeno alcance, é verdade, mas suficientemente incômoda para os leblonenses brancos (?), provavelmente apoiadores de Bolsonaro, que imediatamente se puseram a gritar:

“–Vão trabalhar, seus vagabundos!”

Logicamente não se espera outra atitude dos seres que habitam esse lado A da cidade, mas difícil mesmo foi ter que ouvir o apoio que lhes foi dado pelos semi-escravos, uberizados, que servem a essa elite nos quiosques distribuídos pela orla. Como diria uma amiga universitária que sobrevive com o auxílio estudantil e as diárias de faxineira “o que falta a esse povo é consciência de classe…” Lembrei imediatamente de Sete Prisioneiros, filme assistido recentemente, o qual, segundo o companheiro Virgílio Almansur, “eleva nosso cinema numa crítica mais do que contemporânea às excrecências do modelito capitão-do-mato.”**

A história nos revela que no século XIX esse bairro nobre conhecido pelos seus prédios de alto padrão e pela belíssima orla abrigou um quilombo que desempenhou um papel importante na abolição dos escravos. Na verdade, o bairro integrava a Chácara das Camélias, onde hoje se situa o Clube Federal, no Alto Leblon. Essa chácara tinha como proprietário o comerciante português José de Seixas Magalhães que cultivava camélias no local com auxílio de alguns escravos fugitivos a quem escondia em sua propriedade com apoio da Confederação Abolicionista. A partir desse episódio, essas flores passaram a ser vistas como símbolo abolicionista, sendo usadas na lapela por membros da Confederação. A propriedade do imigrante português que deu origem ao bairro abrigava brancos e negros, pobres e ricos, sendo considerado um espaço progressista que contribuiu para o movimento de emancipação dos escravos no Brasil.***

Esse mesmo bairro hoje abriga os milionários da Delfim Moreira e uma alta classe média, mas não podemos esquecer que o Leblon tem seu início no Jardim de Alá, onde se situa o conjunto habitacional da Pequena Cruzada e termina na Avenida Niemeyer, nas proximidades da comunidade do Vidigal. Ambos são locais habitados por pobres que hoje vivem o pesadelo do desemprego ou do emprego informal. Sabemos que agravada pela pandemia e pela crise inflacionária, a fome no Brasil já afeta quase 20 milhões de pessoas, aprofundando consideravelmente a desigualdade social.

A Marcha contra a Fome que desfilou hoje na avenida dos ricaços trouxe uma mensagem  clara, imediatamente percebida pelos ocupantes da Casa Grande. O lado B da cidade partida estava ali, organizado, consciente de seus direitos e disposto a lutar. Assustados, os “granfas” só conseguiram esbravejar contra os “vagabundos” que andam tirando seu sono.  Como anunciavam os manifestantes, o Leblon  vai virar Palmares, pois quem tem fome tem pressa.

 Notas

*Ver a respeito https://brigadaspopulares.org.br/manifesto-das-brigadas-populares/

** Virgilio ALMANSUR. Banzo. Publicado em Construir Resistência, seção Além Muros, 14/11/2021.

*** Eduardo SILVA. As camélias do Leblon e a abolição da escravatura. Cia. das Letras, 2003. Ver também Luciana SANDRONI. Um quilombo no Leblon (2011).

 

Fotos: Sonia Castro Lopes

Foto em destaque: Instagram/VereadorChico Alencar

 

 

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