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O inventário de nossos desastres ‘naturais’: Estado tem quase 1500 mortos em seis décadas

Por Jorge Antonio Barros

Em maio, se Deus permitir, farei 60 anos de idade. Dá um frio na barriga. Fico feliz por ter sobrevivido à Covid-19 ano passado, mas ao mesmo tempo triste por já ter visto tanta coisa ruim neste país e também um pouco apreensivo quanto ao futuro. Envelhecer é também um acervo de experiências, boas e ruins. Como qualquer pessoa que consegue viver por seis décadas, tenho sido testemunha ocular da história, da minha história pessoal e da história da minha comunidade dentro do meu país. Com relação às chuvas, a história do meu estado é realmente dramática. Todo verão vivemos sobressaltados diante da tragédia da vez. Em seis décadas, já são pelo menos 1.468 mortos.

Aos cinco anos de idade, morando na Rua Fausto Barreto, em Benfica – Zona Norte do Rio – vivi o clima de tragédia que tomou a cidade do Rio de Janeiro com as enchentes de 1966. As chuvas duraram cinco dias (pouco mais de dez por cento do tempo que durou o dilúvio dos tempos de Noé). Mas foi o suficiente para deixar um estrago sem tamanho: 250 mortos e 50 mil desabrigados. Se houve algo positivo, foi o nascimento de uma tecnologia de contenção de encostas à serviço da cidade. A Fundação Geo-Rio foi criada após a tragédia de 1966, pelo então governador Negrão de Lima, do extinto Estado da Guanabara.

Minha primeira enchente como repórter foi em dezembro de 1981. Na verdade, era estagiário e fiquei dentro da redação do Jornal do Brasil, apurando histórias por telefone. Paulo Motta, então repórter em ascensão, que veio a ser meu chefe no Globo algumas décadas depois, foi para a rua porque… lugar de repórter é na rua. Com o fotógrafo Carlos Mesquita, já falecido, Paulo conseguiu contar uma das histórias mais dramáticas de enchentes do Rio de Janeiro. Em Petrópolis, Jamil Luminato carregava o corpinho de uma menina morta no temporal. Mesquita disparou a máquina. A fotografia, impressionante, ganhou a metade da capa do Jornal do Brasil (FOTO). E conquistou a Menção Honrosa do Prêmio Esso na categoria Fotografia.

Em 2013, Luminato voltou a testemunhar mais mortes, em nova enchente. Dessa vez, ele perdeu parte da própria família. Sepultou a filha, de 27 anos, e os netos de dois e de quatro.

— Essa tragédia se repete sempre. Todo ano, sempre igual. Daquela vez, ajudei a salvar os vizinhos. Ajudei aquela vez e em outras que a chuva fez estragos. Infelizmente, desta vez foi com minha filha e meus netos. Espero que façam algo para que não volte a acontecer — desabafou Luminato, em 2013. Por onde anda Luminato?

Nove anos depois, a tragédia se repete em Petrópolis, agora com pelo menos cem mortos. A sensação é de que não há política pública alguma para controlar desmatamento e ocupação irregular das encostas e, agora, muito menos, lidar com as drásticas mudanças climáticas que ameaçam todo o planeta. Sai prefeito, entra prefeito, nada acontece. O tal de Bomtempo deve ter um cumulonimbus sobre a cabeça dele.

De acordo com o Atlas Brasileiro de Desastres Naturais (ABDN), entre 1991 e 2012, o Estado do Rio registrou 251 enxurradas fortes caracterizadas como desastre, afetando cerca de 1,4 milhão de pessoas. Ao todo, foram 1.153 mortos (fora os 300 de anos anteriores), 5.388 feridos e mais de 4 mil doentes em decorrência dos temporais, além de mais de 161 mil desalojados e 34 mil desabrigados, com 23 mil habitações danificadas e 9,7 mil destruídas.

 

Jorge Antonio Barros é jornalista e editor da página Quarentena News. 

Foto

Reprodução da primeira página do Jornal do Brasil com a notícia de enchentes em Petrópolis. 04/12/1981

OBS: Matéria originalmente publicada no Quarentena News. Os artigos aqui reproduzidos são de inteira responsabilidade dos autores

 

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