Construir Resistência
Rezende

O falastrão e o calado

Compartilhada do Quarentena News

Por Luiz Eduardo Rezende

Ao classificar como aventureiros o indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista Dom Phillips, desaparecidos na Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro, além de faltar com o respeito a eles, às famílias e aos amigos, demonstra no mínimo uma estreita relação com o que há de pior naquela área: mineradores, madeireiros e pescadores ilegais.

Bruno Araújo e Dom Phillips não são aventureiros. São trabalhadores, estavam levantando dados para uma reportagem visando à preservação da floresta e dos povos indígenas. Foram atacados por bandidos protegidos pelo governo, que desmontou o pouco de fiscalização que havia.

A Amazônia hoje é terra de ninguém, entregue a marginais, muitas vezes ligados a pessoas do governo, como foi o caso do ex-ministro Ricardo Salles, acusado de associação com madeireiros que devastam a floresta.

O desprezo de Bolsonaro por aquela região não é surpresa para ninguém. Desde a campanha ele vem desdenhando do trabalho de quem defende a floresta e as nações indígenas. Mas esperava-se que pelo menos o vice presidente, general Hamilton Mourão (foto), chefe do Conselho Nacional da Amazônia Legal, levantasse a voz para reconhecer a culpa da política do governo pelo que vem acontecendo por lá.

Mas nada. Mourão finge que não é com ele, que não tem nada a ver com isso. Ou seja, ocupa esse cargo apenas para ganhar mais um dinheirinho no fim do mês. É um chefe omisso e com isso também culpado pelo que está acontecendo com o indigenista e o jornalista. Hamilton Mourão sequer deu uma declaração lamentando o sumiço dos dois. Está calado, calado.

Diga alguma coisa general Mourão. Afinal de contas até a Muda do Pantanal já falou!!!!

PROPOSTA INDECENTE

Os governadores e secretários estaduais de fazenda estão surpresos e assustados com a proposta do governo federal de zerarem alguns impostos sobre combustíveis e diminuírem as alíquotas de ICMS como forma de combate à inflação que corrói o salário dos trabalhadores, principalmente os de renda mais baixa.

Como não tem uma política eficiente para o setor, Bolsonaro tenta empurrar para os estados, que tem sua maior receita no ICMS, o ônus de diminuir o preço dos combustíveis. E acena com uma compensação, sem detalhar o percentual ou de onde vai sair esse dinheiro.

Segundo o ministro Paulo Guedes (foto), que já foi Posto Ipiranga e hoje não passa de uma bomba de gasolina quase vazia, esse rombo nos estados seria de R$ 40 bilhões a R$ 80 bilhões. Como um economista faz uma conta assim? É a total falta de planejamento. Até porque os secretários de fazenda falam em mais de  R$ 140 bilhões.
Paulo Guedes foi mais longe. Disse que esses recursos poderiam vir da venda da Eletrobras. Cruz credo. Vender uma estatal para colocar o dinheiro em despesas correntes do governo, só uma administração sem rumo pode admitir. Guedes, apegado ao cargo, há tempos deixou de ser ministro para ser cabo eleitoral de Bolsonaro.

Faz tudo que seu mestre mandar para garantir a reeleição do patrão. Só falta ceder o terreno do Posto Ipiranga para a construção de uma igreja evangélica da mesma denominação a qual pertence a primeira-dama.

CULPA TERCEIRIZADA

Bolsonaro nunca se diz culpado por qualquer fato negativo de seu governo. Pela inflação, então, nem se fala. Lockdown, crise internacional, incompetência de ministros e de presidentes da Petrobras, pandemia, guerra na Ucrânia, tudo é motivo para o aumento dos preços no Brasil.
Menos a falta de política econômica, o aparelhamento do estado por militares que deveriam estar nos quartéis, a corrupção, a entrega do governo ao Centrão e a convergência das ações apenas visando a eleição.

Assustado com os resultados das últimas pesquisas, sabendo que a inflação de dois dígitos, a fome que já atinge mais de 33 milhões de brasileiros, o desemprego e o constante aumento da gasolina, do diesel e do gás de cozinha são os principais cabos eleitorais de seu adversário, o ex-presidente Lula, Bolsonaro agora pediu aos donos de supermercados que diminuam ao máximo os lucros nos produtos da cesta básica.

Ou seja, a culpa da carestia é dos comerciantes, que precisam diminuir seus lucros. Essa proposta até poderia ser levada em conta se o governo também apertasse o cinto, acabasse com o orçamento secreto, com as mordomias, com os cartões corporativos usados sem nenhum critério, com os altos salários pagos a apaniguados e militares encastelados em cargos de direção para os quais não tem capacidade, caso do ex-ministro da saúde, Eduardo Pazuello.

Jogar a culpa da inflação nas costas apenas dos comerciantes é uma covardia típica deste governo.

CIRO X TEBET

Batido o martelo, a senadora Simone Tebet (foto), do MDB, com apoio do PSDB, é a candidata da terceira via para as eleições presidenciais de outubro. Chegou a hora da onça beber água. Simone, que patina nos 2% das intenções de votos, agora terá uma campanha com recursos e estrutura. Será que vai empolgar o eleitorado? Tudo indica que deve melhorar seus números nas pesquisas, mas a ponto de desbancar os dois favoritos, ou mesmo ameaçar a posição de Ciro Gomes na terceira colocação? Só o tempo dirá.
O primeiro a se preocupar com um possível crescimento de Simone Tebet é Ciro. O pedetista, com o discurso raivoso de atacar tanto Lula quanto Bolsonaro, não consegue ganhar a confiança do eleitor de centro, que busca um caminho diferente da polarização. Essa postura agressiva já foi criticada até pelo presidente do partido, Carlos Lupi.

Simone vem com um discurso diferente, mais propositivo, sem demonstrar rancor. Terá pouco tempo para se tornar mais conhecida nacionalmente e levar sua proposta aos quatro cantos do país. Mas as pesquisas mostram que tem mais passagem que Ciro entre os eleitores moderados, que não querem uma campanha recheada de baixarias.

Tudo indica que a Ciro restará mais uma viagem a Paris no final do ano. O que, convenhamos, não é um mau programa.

O FANTASMA GAROTINHO

O governador Cláudio Castro e o deputado federal Marcelo Freixo até alguns dias atrás surgiam como franco favoritos nas eleições para o governo do Rio. O ex-prefeito de Niterói, Rodrigo Neves e o ex-presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, apoiado pelo prefeito Eduardo Paes, não faziam sombra aos dois mais bem colocados nas pesquisas.
Eis que surge o ex-governador Garotinho, pré-candidato pelo União Brasil, com seu discurso agressivo, populista, percorrendo os municípios do interior e da baixada, como um nome capaz de preocupar principalmente Marcelo Freixo, que vai precisar muito do apoio e da presença de Lula na campanha.

Garotinho sabe que não tem chance de ganhar de Freixo na capital, mesmo conseguindo votos nas camadas mais pobres. A rejeição dele no município do Rio é altíssima. Então foca sua campanha e principalmente seus ataques no governador Cláudio Castro, a quem já apelidou de Cláudio Cabral.

O ex-governador prefere enfrentar Freixo num segundo turno, confiando no eleitorado do interior, de São Gonçalo e da baixada. Por isso tenta minar a candidatura de Cláudio Castro. Mas tudo isso são planos, hipóteses. Para se tornarem realidade, Garotinho terá que enfrentar, além de Castro e Freixo, uma baita rejeição ao seu nome.

BRIGA EM FAMÍLIA

Em casa que falta pão, todo mundo grita e ninguém tem razão, diz o velho ditado. Em casa de político onde parece que vai faltar voto também. Os irmãos Flávio e Carlos Bolsonaro estão brigando publicamente, um defendendo e outro criticando a propaganda do PL na qual o presidente Jair aparece como um Jairzinho Paz e Amor.

O Senador Flávio achou o programa ótimo e autorizou a divulgação. O vereador Carlos, o Carluxo, não gostou e disse que essa imagem não faz jus à vida e a carreira do pai. A discussão saiu do âmbito da família e ganhou as redes sociais. Bolsonaro e o filho mais novo, o deputado federal Eduardo, aquele que fazia hamburguers nos Estados Unidos, por enquanto não apoiaram nenhum dos lados, pelo menos publicamente.
Mas os problemas na família não param por aí. A primeira-dama Michelle Bolsonaro (foto) se recusou a participar da campanha do marido na televisão. Alegando não ter lugar na agenda, faltou à gravação e não marcou nova data. E nem vai marcar, tanto que já foi substituída pela ex-ministra Flávia Arruda.

Nunca vi primeira-dama se recursar a participar de campanha eleitoral do marido. Eu hein, tem algo no ar aí além dos aviões de carreira!!!

FOTOS:

General Mourão: silêncio sobre o jornalista e o indigenista desaparecidos

Paulo Guedes: liberal pede aos supermercados para congelarem os preços até 2023

O dragão da Inflação: personagem está de volta

Simone Tebet, quer poderá ser pedra no sapato de Ciro

Michelle Bolsonaro: uma primeira-dama alheia à campanha do marido

Luiz Eduardo Rezende é jornalista com passagem pelo Jornal do Brasil, O Dia e O Globo.

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