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O dia é das mulheres, mas, por favor, sem hipocrisias

Por Sonia Castro Lopes

Data consagrada à mulher, o 8 de março é dia de recebermos flores (mesmo as virtuais) em todas as redes, em todos os grupos. Recebemos mensagens, telefonemas, homenagens, como se o dia da mulher fosse apenas hoje. A Folha de São Paulo, jornal considerado um dos “menos parciais” da mídia corporativa, dedicou hoje uma página inteira à entrevista do cafajeste “Mamãe falei”, sim, aquele que diante dos horrores da guerra teve na cabeça e no pinto  motivação para desejar e achar fáceis as pobres refugiadas que são “deusas” ainda mais gostosas que as que frequentam as baladas de São Paulo, onde foi eleito representante do povo.

A narrativa mais conhecida é que a data foi escolhida em alusão às trabalhadoras de uma fábrica de tecidos em Nova Iorque que morreram vítimas de um incêndio intencional por reivindicarem direitos iguais aos dos companheiros, isso na década de 50 do século passado. Mas parece que a  história é mais antiga e o primeiro registro se remete a 1910 durante a Conferência Internacional das Mulheres em Copenhague, Dinamarca, quando a feminista e marxista alemã Clara Zetkin propôs às trabalhadoras dos países ali representados que lutassem para promover o voto feminino e criassem um dia especial para homenagear as mulheres em todo o mundo.

Histórias à parte, voltemos ao áudio do deputado, noticiado nos últimos dias em todas as mídias e redes sociais, provocando manifestações de desaprovação de homens das mais variadas inclinações ideológicas. Até o próprio presidente, campeão de misoginia, condenou seu ex-aliado. Quero ir além dessas indignações e homenagens argumentando que há um machismo estrutural em nossa sociedade a ponto de naturalizar manifestações misóginas, até por parte das próprias mulheres. Já vi companheiras sendo ridicularizadas em grupos de whatsapp, sendo chamadas de loucas e histéricas sob aplausos e indiferença de outras mulheres. Ninguém me contou. Eu vi!

Vejo homens de todas as raças, credos, ideologias, curtindo e elogiando fotos de mulheres no instagram e facebook de forma, muitas vezes, constrangedora. Conheço alguns que, após externarem opiniões sensatas no jantar em família, se refugiam na calada da noite para interagir nas redes sociais, participar de “sites de adultos”, assistir pornografia ou mesmo  praticar sexo virtual com mulheres que, por necessidade ou exibicionismo não percebem a  objetificação a que estão sendo submetidas.

Você colocaria a mão no fogo por seus amigos, parentes, namorados e maridos? A maioria deles compartilha fotos, vídeos de conteúdo erótico em seus grupos masculinos com comentários tão chulos quanto os do deputado.  Quantos não possuem uma segunda linha telefônica ou um email falso para se cadastrar em sites e aplicativos de encontros? Duvida? Não venho aqui defender a atitude do parlamentar, venho apenas questionar quão hipócrita é a sociedade brasileira que se reveste de uma dupla moral e naturaliza atitudes machistas. Não é por acaso que o pior presidente que já tivemos tem cerca de 30% de apoiadores, em sua maioria homens.

Pergunte a eles qual a mulher ideal? São as brancas – russas, ucranianas, alemãs – mulheres altas, saradas, de pele branca e mucosas rosinhas… e as idiotas daqui se submetem a plásticas e maquiagem para competir com as eslavas gostosas que deliciam os nossos mestiços eurocêntricos. Machismo atávico com traços de racismo – esse também estrutural – que privilegiava e enaltecia as prostitutas polacas e francesinhas desde os tempos do imperador.

Serei avó num futuro breve e vejo os pais da criança torcendo por uma menina. Se assim o for, desejo para minha neta um mundo bem melhor do que aquele em que vivemos. Um mundo sem falso moralismo onde a mulher de todas as cores, etnias, classes sociais, orientações sexuais sejam respeitadas, valorizadas sem sofrer qualquer tipo de preconceito ou opressão. Dispensamos as flores e chocolates que só provocam alergia e sobrepeso. Pronto, falei!

 

Foto:  Mulheres rússas y ucrânianas (Instagram)

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