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O desconcertante Júlio Saraiva

Por Walterson Sardenberg

Teve uma noite — aliás, madrugada — em que o desconcertante poeta Júlio Saraiva (que morreu há dez anos, em 22 de fevereiro de 2013), me surpreendeu com uma pergunta. Uma das tantas.

Estávamos no Bar do Jeca, na esquina da São João com a Ipiranga, bebericando uma vodca Smirnoff com gelo. Desta vez, ele queria saber se o São João que dá nome à avenida era uma homenagem a São João Batista ou a São João Evangelista.

A senhora já entrada em anos, mas ainda bem-apanhada, que nos acompanhava na vodca, de pé no balcão, ali na esquina mapeada por Caetano em “Sampa”, se assustou.

Franziu a testa, ainda exibindo algum pankake da noitada, e perguntou, de supetão:

— Como assim? São dois santos?

Júlio explicou, em seu particularíssimo timbre um tanto metálico e outro tanto anasalado, que eram dois, sim. Um santo batizou Cristo. O outro ouviu a voz de Deus vindo das pedras numa ilha grega e escreveu o “Apocalipse”.

Qual dos dois era homenageado na avenida São João? Ficamos sem resposta.

A moça, que trabalhava ali ao lado, como táxi girl do Avenida Danças, estranhou aquele papo.

Mais ainda quando Júlio, já ainda mais tocado pela vodca e ainda admirando a avenida São João, contou que seu amigo Paulo Vanzolini detestava “Ronda”, embora fosse sua mais notória e bem-sucedida composição. É aquela que termina citando a avenida São João, a despeito do santo homenageado. Como assim?

Júlio explicou: a letra era um terrível erro da logística jornalística. Se a moça apaixonada, que assume a primeira pessoa da letra da canção, perseguiu, abnegada, obsessiva, o caminho do boêmio noite adentro e só o encontrou mais tarde, “bebendo com outras mulheres, rolando um dadinho, jogando bilhar”, o crime não sairia na primeira edição do jornal, como relata a canção. Jamais.

Não haveria tempo hábil para o fechamento da edição, o trabalho das rotativas e da distribuição. O crime só sairia na segunda edição — jamais na primeira.

Vanzolini, segundo Júlio, odiava essa pisada na bola cronológica. Daí porque o compositor repudiava “Ronda”, embora fosse o maior sucesso nos karaokês do bairro da Liberdade.

Era o que Júlio explicava na esquina famosa, pedindo uma nova vodca. Ele, Júlio Saraiva, o poeta que costumava bebericar no fim de tarde com Vanzolini. Era chapinha do sambista e zoólogo, professor da USP, que, segundo Chico Buarque, “entendia de cobras e lagartos”.

Menos da logística dos jornais.

SE EU MORRER ONTEM

Júlio Saraiva

se eu morrer ontem
e você por acaso acordar
hoje cedo com vontade
de chorar
chore não
esquece
quem é morto nunca
aparece
e ninguém vai reparar
ponha um vestido indiano
ouça um samba do adoniran
ou do paulo vanzolini
não passe de 2 martinis
pra coisa não desandar
pense que vivi o bastante
pra quem viveu por engano
como um sincero farsante
poeta não fui dos piores
menos príncipe mais sapo
alaranjei meus horrores
se eu morrer ontem
diga
aos interessados
que os convites para o enterro
estão todos esgotados

Walterson Sardenberg, o Berg é jornalista. Foi repórter de Manchete; editor de Placar, Brasileiros e Viagem & Turismo, entre outras.

 

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