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O descaso com a literatura no Centenário da Semana de Arte Moderna

Por Simão Zygband

 

Posso estar enganado (e possivelmente estou) e certamente vão me mandar inúmeros links e posts tentando me desmentir, mas com que falta de brilho e empenho (presumo que também de investimentos) estão sendo realizadas as comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna, concebida pela fina flor da intelectualidade brasileira em 1922 para mudar os rumos da cultura nacional.

Estavam envolvidos diretamente na organização da Semana de Arte Moderna em 1922 os escritores Mário e Oswald de Andrade, o compositor Heitor Villa-Lobos, o escultor Victor Brecheret e os artistas plásticos Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro, entre outros.

A primeira impressão que dá agora em 2022 é o caráter elitista das comemorações. Não há envolvimento popular nas atividades. Ao que parece, o governo do Estado de São Paulo e Prefeitura Municipal não conseguiram reproduzir a dimensão e o verdadeiro significado para a cultura brasileira da Semana de 22. Não se pode, evidentemente, desmerecer os artistas envolvidos nas diversas atividades, majoritariamente musicais e visuais, certamente trazendo o que há de melhor em termos de cultura atual nestas áreas.

Mas há de se lembrar que a Semana de Arte Moderna de 1922 foi organizada, sobretudo, com maior empenho na literatura e na pintura. Houve, é verdade, concertos de Villa-Lobos e Guiomar Novaes. Nas manifestações do Centenário, entretanto, não se conseguiu dar a grandeza da dimensão dos escritores Oswald e Mário de Andrade, além do próprio poeta Manuel Bandeira, relegados a um segundo plano. A modernidade criou um centenário “visual”, com muitas exposições e nenhuma feira literária (ao menos não encontrei nas programações).

Poderá se alegar que a ausência de feiras literárias (ou de atividades literárias) se deve à existência de uma forte pandemia de Covid-19, agora se manifestando pela cepa ômicron. Mas como explicar que, no ano passado, com pouco ou nenhum apoio da municipalidade, houve feiras literárias organizadas pela comunidade, como as Feiras Literárias da Penha (Flipenha) ou da região Noroeste (Flino) com extremo sucesso, inclusive de mídia?

Como conselheiro titular do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (PMLLLB), eleito exatamente como escritor e jornalista, me chama a atenção o descaso com a abordagem literária. Há pouco incentivo à leitura, tão fundamental para a formação cultural da juventude. Há muito mais eventos para ver do que para ler ou ouvir narrativas de prosa, poesias ou crônicas. Por que não há saraus, no Centenário, com participação de pessoas que apresentem seus atestados de vacinas, com utilização de máscaras e álcool gel para poder participar da atividade?

Na Semana de Arte Moderna original, o evento reuniu exatamente todos os estilos artísticos, como literatura, pintura, escultura, música, numa atividade de três dias, realizada no Theatro Municipal de São Paulo, ponto mais central da cidade. No Centenário, se conseguiu reproduzir muito pouco do que aconteceu naquela oportunidade. Optou-se pela via mais fácil (talvez também a mais barata), a visual ou verbal, nas poucas oficinas de discussão literária.

 

Os Sapos

 

Em 1922, segundo o censo realizado dois anos antes (1920), São Paulo já era uma metrópole com pouco mais de 579 mil moradores. O Theatro Municipal era (e é) localizado na região central da cidade, onde passavam os bondes elétricos e os poucos carros que circulavam na época. A Ford veio para o Brasil em 1920 e já fabricava 4 mil unidades por ano, exatamente para a elite paulistana. Boa parte dela compareceu à Semana de Arte Moderna nos seus Fords T, fabricados em série no país.

Mas, sem dúvida, o grande acontecimento da Semana de 22 foi a leitura do poema Os Sapos, de Manuel Bandeira, escrito em 1918, realizada no Theatro Municipal por Ronald de Carvalho, pois o autor não pode estar presente por conta de uma crise de tuberculose. Com o poema, Bandeira ironizava os poetas do parnasianismo, estilo de época dos finais do século XIX, marcado pelo rigor formal (metrificação e rima), sem entrar em questões sociais, enaltecendo o culto à beleza e a objetividade.

Se for pela abordagem de hoje, todos conhecerão as obras de Anita Malfatti ou o quadro mais evidenciado por todas as mídias, o Abaporu, da Tarsila do Amaral. Todos pensarão que se tratou de um evento de artes plásticas.

Mas a leitura do poema Os Sapos,  é considerado o momento mais intenso (e por que não dizer o mais tenso) da Semana de Arte Moderna de 1922, que se deu, na verdade, em três noites, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro. Ela ocorreu na segunda noite. O poema é uma ironia corrosiva aos parnasianos que ainda dominavam o gosto do público brasileiro. A plateia reagiu alvoroçada através de vaias, gritos, patadas, interrompendo a sessão.

Eis aí o poema de Manuel Bandeira cuja leitura enfureceu a conservadora elite paulistana, na noite de 15 de fevereiro de 1922

“Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
— “Meu pai foi à guerra!”
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”.

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: — “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos!

O meu verso é bom
Frumento sem joio
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinqüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas . . .”

Urra o sapo-boi:
— “Meu pai foi rei” — “Foi!”
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
— “A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo.”

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
— “Sei!” — “Não sabe!” — “Sabe!”.

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;

Lá, fugindo ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio”

 

Vamos lutar pela arte e cultura, para desgosto dos governantes que a abominam.

 

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Mário, Oswald, Manuel, Villas-Lobos, Tarsila e Malfatti

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