Construir Resistência
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O “beijo na lata”. Amor à primeira vista – por Luiz Galvão Soares

Por Luiz Galvão Soares

 

Já li, vi e ouvi muitos relatos sobre a sensação , a surpresa, o impacto, o medo, assombro ou a euforia que uma pessoa sente ao dar a tal famosa primeira “paulada” ( trago no crack, uma gíria comum há mais de 30 anos).
No meu caso, pareceu mais prazerosa  do que um orgasmo.  Pasmem. Pois não fui o único. Alguns dependentes que entrevistei entre 1989 e 1995 contaram ter chegado “nas nuvens” e era ainda melhor que fazer sexo.
No texto anterior,  escrevi que uma amiga me ofereceu a droga e eu acabei aceitando. A pedra de crack estava sobre uma latinha (igual as de cerveja) com uns furinhos no meio. Ela disse para eu “chupar” a fumaça por onde se bebe. A potência do efeito é três vezes mais forte do que no “bimbo” (cachimbo).
Preciso deixar claro que ninguém é obrigado usar drogas, nem com uma arma apontada para a cabeça.

 

Os “crackudos” e o zumbi

Para realizar as reportagens na Cracolândia, eu alugava um quarto de hotel bem na rua do “fluxo” (onde fica ainda hoje a “muvuca” entre viciados e traficantes) e me escondia lá horas antes de anoitecer. Junto comigo ficava um repórter cinematográfico à postos com a câmera na janela, mas oculto pelas cortinas.  Imaginem o trabalho dele com aquele trambolho analógico chamado câmera U-matic. Corríamos grave perigo de sermos flagrados porém, naquela época, era a única forma de captar alguma imagem.
Confesso que dei uns trocados para uns usuários darem entrevista de costas, numa rua mais distante. Sempre preservando a identidade deles. Alem, é claro, do pavor que sentia caso resolvessem cortar minha mão com um canivete ou estilete que costumavam carregar.
A droga era vendida ou trocada por objetos de mão em mão. A arma servia muitas vezes para “abrir” a mão de quem tivesse um punhado de droga nela.  Os “bacanas” paravam a caranga nas esquinas e pela janela faziam a transação.  Ou voltavam diversas vezes e de tanta “fissura”, alguns estacionavam lá por horas, dias, talvez  por anos. Rico ou pobre, culto ou analfabeto, qualquer pessoa que busca a suposta liberdade com o uso de droga se torna um escravo dela. “Sendo sua liberdade. Era sua escravidão”. (Vinicius de Moraes)
Como se sabe, a compulsão pelo crack é mais poderosa que muitas drogas.Transforma comportamentos, causa mudança nas atitudes e pensamentos, gera euforias extremas e pensamentos negativos, obsessivos, medo, dúvida, desconforto, aflição, paranóia de perseguição. Isolamento.

 

Um zumbi a perambular pela própria vida 

 

Aprendi muito sobre o “estilo” de vida naquela região com os chamados “crackudos”(os que fumam com “força”, a toda instante.) Pasmem mais uma vez, porque anos mais tarde ganhei esse apelido.
Uma coisa é ser o repórter. A outra é virar o personagem.
Ironia ou Paradoxo. De um Castelo Hitita para a lama da Cracolândia
Logo que me formei em jornalismo, 1985, morei dois anos em Londres. Lavava pratos e aprendia inglês. Meus vizinhos usavam heroína. Tentavam me seduzir para experimentar a famosa Brown Sugar. Recusei com todas as minhas preces a curiosidade que tinha. Sentia medo de gostar e nunca mais voltar para o Brasil e ver minha mãe. Viajei e conheci países com culturas diferentes. Fotografei castelos e monumentos na Turquia.  Sempre fui aventureiro e curioso.

Oito anos se passaram. Sucumbi, desejei experimentar o crack

Sem eira nem beira, perabulei como zumbi pelas ruas da Cracolândia. Por vezes me questionava, fazia a inevitável comparação sobre o tempo e lugares. Como era possível, eu estar ali, como os zumbis que tanto execrei nas minhas matérias sobre o crack?
A compulsão e obsessão se instalaram bruscamente na minha vida.
Depois do primeiro “beijo na lata” comecei a procurar, com força, pela “Kriptonita”. A pedra que me devolveria aquela sensação de “amor a primeira vista”.  “Dor que desatina sem Doer” (L.V.C.).
Nunca se consegue ter a mesma “brisa”, efeito, como o da primeira vez. Só humilhação, degradação e fundo de poço.
Passei dias nas ruas, descalço, tomando chuva e sol. A roupa molhada secava no corpo. Peguei uma pneumonia e fui parar na UTI de um hospital público com risco de vida.
Por enquanto, volto a dizer que existe vida após o vício e é possível a recuperação, com qualidade espiritual, emocional e social.
“O fruto de um trabalho de amor atinge a plenitude na colheita e esta chega sempre no seu tempo certo”. NA

 

Galvão em viagem pelos países árabes

 

Galvão na chefia de reportagem do SBT

Luiz Galvão Soares é jornalista profissional, formado pela Faculdade Cásper Líbero, com graduação em Convergência de Mídias. Foi repórter, editor, chefe de reportagem nas principais emissoras de TV.

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