Construir Resistência
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O artilheiro que nunca pisou no gramado

A foto que ilustra este artigo é de 2016, em uma atividade na qual reproduzimos o primeiro jogo da história do Corinthians, disputado em 1910, contra o bravo time operário do União Lapa. À direita na imagem, ouço a aula informal do professor Plínio Labriola sobre aquele magnífico evento.

Escrevo sobre este acadêmico, intelectual orgânico da lida política cotidiana, para divulgar sua nobre figura e seu fundamental trabalho no resgate das raízes corinthianistas. Completam-se agora 30 anos da conclusão da magnífica tese de mestrado Resistência e Rendição – A gênese do Sport Club Corinthians Paulista e o futebol oficial em São Paulo, 1910 – 1916, obra de Labriola na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Esta pesquisa é um marco por três motivos. Primeiramente, porque resgatou o corinthianismo popular, de matriz participativa e democrática, que inapelavelmente se perdia pela erosão das lembranças.

Em segundo lugar, porque trouxe à luz detalhes até então desconhecidos da saga alvinegra para figurar na elite do futebol paulista. Por último, porque engajou as novas gerações na causa de Miguel Battaglia e dos heróis fundadores.

Labriola reconstitui a sociedade da época, marcada pela segregação e pelo preconceito. O futebol oficial era jogo de ricos jovens das famílias quatrocentonas. O ludopédio da várzea, ao contrário, era expressão da rebeldia de proletários, entre irmãos negros e imigrantes desvalorizados, especialmente da Itália, Espanha e Portugal.

O Corinthians surge no ambiente das demandas de costureiras, ferroviários, agentes de saúde, lavadeiras, estudantes, pintores, pedreiros e pequenos comerciantes, num bairro em agitação pela luta anarquista e pelas escolas laicas livres.

Por que resistência? Porque o Timão nasce para ser o clube de todos, reunindo a massa de excluídos. Por que rendição? Porque a inclusão nas associações futebolísticas exigiu que o clube se adaptasse às regras, normas e costumes da elite bandeirante. Quando nos rebelamos, quase fomos extintos, como ocorreu na crise de 1915, um ano após a conquista invicta do primeiro Paulistão.

O professor Labriola conta direitinho, a partir de meticulosa pesquisa, como o futebol informal se converte no futebol oficial. Mostra o que as ligas ganham com essa inclusão e o que perdemos ao migrar para os gramados dos barões.

Não conto mais porque vira spoiler. Labriola, depois, obteria o título de doutor escrevendo o belo trabalho A nação entra em campo: futebol nos anos 30 e 40, também na PUC-SP, como bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico de Tecnológico.

Em 2010, tive a honra de participar com o professor da Semana do Corinthians, no Museu do Futebol, por ocasião do Centenário do Clube. Os ensinamentos compartilhados na ocasião entusiasmaram e inspiraram muitos jovens na vivência do verdadeiro corinthianismo.

Em 2015, em parceria com Bernardo Buarque de Hollanda, Labriola constituiu uma excelente coletânea de artigos sobre o mundo dos apaixonados pelo futebol. Esse rico conteúdo está compilado no livro Olhares Etnográficos para uma Torcida Organizada de Futebol: Os Gaviões da Fiel. Nele, o acadêmico escreve um belo capítulo sobre a nossa galera e a ocupação do Maracanã em 1976.

Anos depois, tive a honra de me tornar colega do professor, lecionando em um curso promovido pelo Coletivo Democracia Corinthiana (CDC) em parceria com entidades empenhadas no desenvolvimento de medidas socioeducativas.

A proposta foi habilitar assistentes sociais, psicólogos, advogados e profissionais de saúde para utilizar o esporte na reinclusão social de jovens em conflito com a lei. Mais uma vez, Labriola conquistou as plateias e engajou inúmeros profissionais, alguns dos quais, até então, odiavam o futebol e o consideravam apenas mais um ópio do povo.

Toda essa dedicação à história foi renovada pelo professor nas atividades de pesquisa e divulgação do Núcleo de Estudos do Corinthians (NECO), órgão do clube sempre empenhado em valorizar as raízes populares, democráticas e solidárias da instituição, instrumento, pois, poderoso na construção do rito civilizatório.

Mas ser corinthianista é muito mais do que isso… Por vezes, eu queria assistir a um jogo do Coringão e simplesmente não conseguia ingresso. E, de repente, ao telefone, ouvia: “espera que estou indo aí”. E o amigão Plínio anunciava que vinha me trazer o valioso ticket à catraca da estação Carrão do Metrô. Pode isso, Arnaldo? Ué, pode! E deveria ser a regra e não a exceção em nosso meio. É coisa que emociona a gente, que renova a magia de 1910 e que nos mantém a crença no ser humano.

Plinio, você é 10, camisa 10, e craque inegociável em nossa mosqueteira seleção. Querido capitão (este do bem), receba o agradecimento de todos nós que jogamos no seu time. Tu és campeão dos campeões.

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