Construir Resistência
Comandantes militares no Dia do Exército (Foto Ricardo Stuckert/PR)

No ninho das jararacas

Por Simão Zygband

Comandantes militares no Dia do Exército (Foto Ricardo Stuckert/PR)
Presidente João Goulart cercado pelos militares golpistas antes do golpe de 1964

Em março de 2016, depois de ter sido submetido a uma condução coercitiva que o obrigou a depor na Polícia Federal, no aeroporto de Congonhas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressou indignação durante entrevista coletiva, em forma de discurso, que realizou na sede do PT em São Paulo. Ele acabava de ter sido vítima de um deprimente espetáculo de pirotecnia, mandado executar pelo então juiz de primeira instância, Sérgio Moro, que o colocou como o principal alvo da 24ª fase da Operação Lava Jato. Tratava-se, evidentemente, de uma perseguição política que culminou com sua posterior prisão ilegal e arbitrária por 580 dias em Curitiba.

No final da entrevista, ainda bastante indignado, Lula fez um desabafo: “Se tentaram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo. A jararaca tá viva, como sempre esteve”. Ele não deixava de ter razão: não apenas se manteve politicamente vivo, como 6 anos depois se tornaria novamente o presidente da República. Todo mundo já conhece o desdobramento da história.

Reeleito para um terceiro mandato, desta vez, entretanto, Lula possui um quadro político muito menos favorável do que das duas vezes anteriores. Liderou uma Frente Ampla que não possui apenas partidos de centro-esquerda, o que transformou a governabilidade agora mais complexa, sem ter maioria explícita no Congresso, além de ter herdado uma herança maldita dos seis anos pós-golpe de Estado, apresentando estruturas de poder totalmente contaminadas pelo fascismo, que o presidente Lula terá a árdua tarefa de desmontar. É um país arrasado, que terá que ser reconstruído.

Por onde é que olhe, o presidente Lula pode ter um inimigo a seu lado e não é fácil, diante do turbilhão, saber quem sabota o seu governo ou que de fato está empenhado em junto com ele reconstruir o país. Vamos pegar como exemplo o atual caso do general Gonçalves Dias, chefe do estratégico Gabinete de Segurança Institucional (GSI), homem de confiança de Lula e que já havia demonstrado lealdade ao presidente nos outros dois mandatos.

Consta que Lula foi pego de surpresa não pela participação ativa do general nos lamentáveis episódios de 08 de janeiro, mas por ter ocultado dele a existência de imagens comprometedoras, que mostram a participação ativa de militares naquela tentativa de golpe. De fato, Gonçalves Dias não interage com os terroristas, mas aparentemente fica atônito, sem demonstrar reação. Mas a omissão do fato de existirem as imagens divulgadas pela CNN, com edição daquilo que pretendiam mostrar, deixou o presidente em dúvida quanto a lealdade do chefe da GSI, órgão que deveria ser o primeiro a ter conhecimento de que as imagens não haviam sido perdidas, como alegava o general. Foi o primeiro ministro a cair no atual mandato. Não restou alternativa ao presidente.

Entendo que mais uma vez os fascistas tentaram tumultuar o governo, exatamente no 19 de abril, Dia do Exército. Novamente utilizaram um veículo de televisão, a CNN, para construir problemas para o presidente. Conseguiram, inclusive derrubar um ministro e abriram a possibilidade de abertura de uma CPMI no Congresso para analisar os episódios ocorridos no dia 08/01. Lula não queria a sua implantação por considerar que ela paralisaria o país carente de decisões urgentes a serem votadas na Câmara e no Senado. Mas foi obrigado a recuar e terá que enfrentar os fascistas em plenário.

A extrema direita não está para brincadeira. Cada dia haverá uma nova surpresa. Será necessária articulação do governo mais intensa no Congresso, nas mídias sociais e privadas e realizar um trabalho árduo de ganhar a opinião pública, mesmo tendo a imprensa trabalhando contra, para dar compreensão para a população de tudo o que está ocorrendo no país.

É a hora de colocar o time em campo, azeitado, sem o direito de errar. Lula anda sob o fio da navalha em meio a um ninho de jacaracas. Ele sabe que não terá o direito ao erro. Precisa, mais do que nunca, o apoio dos setores consequentes da sociedade. Ter clareza, disciplina, clarividência e divulgação ampla de tudo o que vai realizar.

Jogo pesadíssimo. Olho nos golpistas, Lula!

 

 

 

 

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