Construir Resistência
Democracia Corintiana

Não há espaço para um golpista no clube que sempre defendeu a democracia

Walter Casagrande Jr.

Colunista do UOL

Um clube com uma história de luta pela Anistia, que grupo de jogadores criou a Democracia Corintiana e bateu de frente com a ditadura se posicionando e jogando muita bola, que tem um time feminino de dar orgulho a todos os torcedores, não deveria nem ter cogitado contratar uma pessoa golpista, que apoia um presidente fascista, racista, homofóbico e, principalmente, machista, que não respeita as mulheres — aliás, é grosseiro com todas elas, principalmente as jornalistas.

O golpista Rodrigo Santana, que seria auxiliar técnico do Corinthians em 2023, participa de atos antidemocráticos, pedindo intervenção militar na porta de quartéis. Deveria era estar sendo investigado, e não trabalhando num clube de futebol.

Eu gostaria de saber de quem veio essa indicação e porque não checaram o seu histórico de ser uma pessoa contra a democracia.

Se o presidente Duílio foi pego de surpresa, deveria abrir uma sindicância para saber como surgiu um nome desses dentro de um clube que sempre lutou pela democracia.

Na época da Democracia Corintiana — que, aliás, em 2022 está completando 40 anos de seu início e do título paulista de 1982 —, tivemos várias tentativas de golpe dentro do próprio clube, com conselheiros reacionários e apoiadores dos generais da ditadura.

Passamos por uma ameaça na semana da vitória por 2 a 0 (gols meu e do Zenon) contra o Juventus, no primeiro turno do Campeonato Paulista, em uma quarta à noite. No domingo vencemos o Palmeiras por 5 a 1 (foram três gols meus, um do Biro-Biro e outro do Sócrates; Jorginho descontou), e a tentativa foi um tiro no pé dos golpistas da época.

Mas depois de tudo que passamos, com a completa destruição do país pelo sociopata Jair Bolsonaro, é inaceitável que alguém tenha indicado um cara como esse Rodrigo Santana para trabalhar no Corinthians.

Será que o clube só mudou de ideia pela pressão pública? O Sport Club Corinthians Paulista de 2022 está de qual lado político da história?

Usam o nome da Democracia Corintiana para campanha, para vender uma imagem que não pertence a esses atuais dirigentes, e ao mesmo tempo contratariam um golpista contra a democracia do Brasil?

Espero que o clube para o qual torço desde garotinho, e que fui ao estádio assistir pela primeira vez em 27 de junho de 1970, não esteja perdendo seus ideais e nem a sua essência, que é a de ser o time do povo. É o time dos torcedores que têm orgulho de serem maloqueiros e sofredores, e que sempre esteve do lado da democracia.

No dia 12 de dezembro de 1982, vencemos o São Paulo por 3 a 1, em um Morumbi lotado, e a democracia voltou a brilhar. Seria uma grande frustração no 40ª aniversário desse título o clube contratar um golpista antidemocrático para trabalhar no futebol.

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