Na verdade, o Brasil é para amadores

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Por Vinicius Monção

Dizem que o Brasil não é para amadores. Eu discordo desse jargão. Pelos rumos e ações escancaradas e intensificadas pelas mídias e redes sociais desde o golpe de 2016, tornou-se mais nítido aquilo que a gente já sabia. As mumunhas do jogo político são mais fortes do que aquelas que julgamos importante para os ocupantes dos cargos públicos (saber técnico, experiência na área e reconhecimento da área).

Há poucos dias, pesquisando arquivos digitais a fim de encontrar indícios e vestígios sobre a pesquisa a que atualmente tenho me dedicado, localizei uma informação que me remeteu aos tempos de mestrado. Naquela época, investiguei uma disputa política instalada por volta de 1909 na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, entre professoras diplomadas pela Escola Normal e os apoiadores políticos do então prefeito.

No centro da disputa estava o primeiro jardim de infância público da cidade. O primeiro grupo tinha o direito garantido por lei de que um de seus representantes deveria assumir o cargo de direção na recém criada escola, mas como o Brasil é para amadores, o prefeito escolheu uma senhorita que, até onde consegui investigar, não tinha a devida formação. Verdade seja dita, ela até foi aluna da Escola Normal. Cursou algumas matérias, porém não foi capaz de se diplomar e abandonou o curso alguns anos depois.

No entanto, se no centro da disputa estava a escola do Campo de Santana, outro jardim de infância foi criado logo em seguida e o ocorrido ali passou quase despercebido. O prefeito, a fim de beneficiar seus aliados, nomeou sua cunhada para ocupar o cargo de direção. Esperava-se o previsto pela lei, que uma professora ocupasse o cargo, mas este foi entregue de bandeja para uma cantora lírica. Como não conseguiu espaço nos salões e teatros para demonstrar seu talento, foi compor hinos e musiquetas para as criancinhas na escola de Botafogo.

E o buchicho não parou por aí. Na troca de prefeitos, as duas senhoritas tiveram seus benefícios perpetuados. Tornaram-se funcionárias públicas e se aposentaram como tal. Os registros da época revelam que elas desempenharam com louvor o cargo que ocuparam. Já eu, tenho minhas dúvidas.

Hoje, assim como ontem, os postos públicos de excelência tendem a ser ocupados por pessoas alheias à função que deveriam exercer. Não é difícil identificar exemplos esdrúxulos no atual governo federal. Aquele que ocupa o Ministério da Saúde não tem trajetória na área nem conhecimento mínimo de causa. Com a cabeça a prêmio, foi se esconder na cidade construída no meio da floresta. E os que ocuparam o Ministério da Educação nos últimos dois anos?O primeiro foi sugerido por Olavo de Carvalho. O segundo está escondido nos Estados Unidos; seu possível substituto foi pego na mentira. Já o atual é pastor de formação, atuou como reitor de uma respeitada universidade de São Paulo, mas entre desempenhar tal função e comandar uma das mais importantes pastas do governo, há uma grande diferença e não precisamos de titulação acadêmica para saber disso.

Enfim, o Brasil é para amadores. Aos trancos e barrancos, os profissionais tentam sobreviver a esta distopia em que se transformou nosso país.

 

Vinicius Monção é pós-doutorando em História da Educação na USP e doutor em Educação pela UFRJ.

 

 

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