Construir Resistência
Eremildo Vianna

Memórias dos ‘anos de chumbo’

Eremildo, o idiota (in) útil

 

Por Sonia Castro Lopes

Quem  circulou pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (IFCS/UFRJ) nas décadas de 1970-80 sabe de quem estou falando. Sim, trata-se do mesmo personagem a quem o jornalista Elio Gaspari batizou de idiota – Eremildo Luiz Vianna, o todo poderoso catedrático de História Antiga e Medieval da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil, hoje UFRJ.  Gaspari foi expulso do curso de História na FNFi em 1963 juntamente com outros colegas acusados de comunistas, daí a “homenagem”, mas Darcy Ribeiro, à época Ministro da Educação de Jango, salvou a pele dos “subversivos”. Estive com esse documento em mãos quando pesquisei o arquivo da FNFi localizado no Programa de Estudos e Documentação da UFRJ (PROEDES/UFRJ). Nossa arquivista na época não permitiu que se fizesse qualquer tipo de cópia xerográfica ou fotográfica do documento, dada a antiguidade do mesmo (mais de 50 anos), mas ele continua lá para os pesquisadores desejosos de comprovar a veracidade dos fatos aqui relatados.

Eremildo nos assombrava com histórias fantásticas. Dizia-se que no dia seguinte ao golpe civil-militar de 1964 assumira o microfone da Rádio MEC para declarar a vitória da “revolução.” Como diretor da Rádio, cargo que assumiu após o golpe, e também da Faculdade Nacional de Filosofia, denunciou funcionários, colegas e alunos. Sua mais conhecida vítima foi a catedrática de História Moderna e Contemporânea, a professora Maria Yedda Linhares, destituída por ele da direção da rádio em nome do “combate à subversão.” Havia também a história do bidê cor de rosa que ornava um banheiro contíguo a sua sala na Rádio, utilizado pelas inumeráveis conquistas que ele costumava receber no local (1). Louco para ocupar um cargo de destaque no MEC (dizia-se que ele tinha como certa a sua nomeação para Ministro) estabelecia conexões com militares e, em troca, aumentava seu repertório de denúncias.

Na época do golpe foram criadas comissões nas universidades federais, normalmente presididas por militares, para investigar a atuação de professores, funcionários e estudantes suspeitos de subversão. No caso da Universidade do Brasil (2), o general Acir da Nóbrega Rocha investigaria uma denúncia do próprio Eremildo que dizia haver uma célula comunista na FNFi chamada “Anchieta.” Pura fake news! Pois o dito general acabou concluindo que não havia tal célula e que, na verdade, era necessário investigar o próprio Eremildo, suspeito de peculato e falsidade ideológica quando diretor da FNFi em 1962. O processo deu entrada na 10ª Vara Criminal e o general Acir que havia pedido ao ministro da Educação a demissão de  Eremildo, recebeu a seguinte resposta: “Não podemos fazer isso com um dos mais destacados homens da Revolução.” O processo? Óbvio, foi arquivado. (3)

Quando o conheci era um sujeito de aproximadamente 60 anos, de baixa estatura, metido em ternos escuros bem cortados, gravatas presas com alfinetes de ouro, cabelo emplastrado de Glostora, olhos verdes que se revelavam sedutores sempre que via uma aluna mais jeitosinha. Desfilava pelos corredores da faculdade, às vezes cercado de aduladoras que se candidatavam a professoras auxiliares numa época em que se podia entrar na universidade sem concurso. Aliás, por falar em auxiliares, Eremildo emplacou pelo menos quatro a quem chamava de “assistentes”; nós as chamávamos “as cabrochas do Eremildo.” Não citarei nomes, pois não quero saber de processos nessa altura do campeonato, mas lembro, particularmente, de duas que lecionavam História Antiga. Uma delas, bastante histriônica, era uma morena com sobrepeso que nos deu aula logo no primeiro semestre. Arrumou tamanha confusão com a turma que, quando entrava na sala, nos levantávamos e a deixávamos falando sozinha. Resultado: a turma perdeu aquele semestre, pois era matéria obrigatória, pré-requisito para as demais. No semestre seguinte foi a vez de uma lourinha muito bonita que usava mini saia e fazia biquinho pra falar. Essa não conseguimos boicotar, pois os rapazes se negavam a deixar a sala ficando até depois da hora para pedir explicações, já que perdiam a concentração olhando para as pernas da assistente, cujo marido, segundo diziam, partira para os Estados Unidos com uma bolsa de estudos conseguida por quem? Ele mesmo, o próprio!

Eu, professora de crianças, tinha que sair meia hora mais cedo para não perder o trem. Expliquei o fato ao professor no primeiro dia de aula e ele me olhou com cara de quem apreciava normalistas. Pareceu compreender o meu problema e fiquei tranquila. Qual não foi minha surpresa, no final do ano, quando me vi reprovada não por notas, mas por duas faltas que excediam o permitido. Receosa, antes de me dirigir a ele, pedi ajuda a um rapaz da secretaria que me lançava olhares lânguidos há algum tempo. Talvez por intercessão do apaixonado amanuense, livrei-me da reprovação e, agradecida, fiquei devendo favores àquela estranha criatura. Ano seguinte novamente Eremildo na área, agora com Idade Média I e II. Por não gostar de provas escritas (talvez por preguiça de corrigir) e tampouco de seminários que devia achar coisa de subversivos, suas avaliações eram provas orais realizadas em grupos. Determinava um tema de estudo para cada grupo e chamava os alunos para se sentarem diante dele. Ao meu grupo coube dissertar sobre a Dinastia dos Abássidas, califado islâmico do século VIII. Estudei como louca, mas ele não me dava chances de responder. Perguntava a todos menos a mim que, na ânsia de demonstrar sapiência, atropelava a arguição tentando chamar a atenção do mestre, sempre em vão. Saía dali apreensiva, sem saber se, de fato, havia me saído bem.  Ao verificar as notas, me deparava sempre com cinco, cinco e meio, no máximo seis. Um dia tomei coragem e fui perguntar o porquê de notas tão baixas, já que tinha notas excelentes em outras disciplinas, e ele teve a coragem de me responder que eu precisava ler mais, colocando-me à disposição vários livros que eu deveria pegar em sua sala. Obviamente preferi passar raspando a ter que recorrer àquele expediente e sofrer bullyng dos colegas.

Tempos depois encontro o professor Eremildo no prédio da Amil, na Rua Tenente Possolo, Centro do Rio, onde exercia a função de consultor jurídico. Segundo me revelou, após a aposentadoria passou a trabalhar na iniciativa privada. Num relance, pude imaginar a situação insustentável que vivenciou na universidade após o retorno e a reintegração dos professores do IFCS que tinham sido cassados e/ou aposentados compulsoriamente em 1969 por decreto assinado pelo presidente Costa e Silva com base em suas denúncias. (4) Na ocasião desse encontro Eremildo já devia andar pelos oitenta anos e encontrava-se visivelmente abatido. Para meu espanto, não só me reconheceu de imediato como se lembrou de detalhes de nossa “convivência” no IFCS. Gentil, convidou-me a tomar um café e, meio ressabiada, aceitei para não cometer uma descortesia com o velho. Foi o café da misericórdia.

Em agosto de 1998 leio no Jornal do Brasil o obituário do professor Eremildo Viana (5). Vítima de câncer, residindo num asilo de idosos, foi-se dessa para melhor (no caso dele, talvez para pior) o poderoso catedrático que entregou à Comissão de Investigação da Universidade do Brasil uma lista com o nome de 44 colegas considerados por ele subversivos. Em seu sepultamento, no Cemitério do Caju, nenhum amigo ou parente. Apenas duas ex-alunas prestaram-lhe a última homenagem.  Que a terra lhe seja leve!

 

Notas da Autora

(1)Ver a respeito a crônica de Sérgio PORTO (Stanislaw Ponte Preta). Eremildo e o Bidê. In: Febeapá – Festival de besteiras que assola o país. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1967.

(2)Criada com o nome de Universidade do Brasil em 1937, só passou a denominar-se Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1965.

(3)EREMILDO É PROCESSADO POR FALSIFICAÇÃO. Correio da Manhã, 12 nov. 1964, p. 14. Disponível em bndigital.bn.org.br Acesso em 05 nov. 2020.

(4)O GLOBO. Obituário. Eremildo Luiz Vianna aos 85 anos. 11 ago. 1998, p. 17.

(5)JORNAL DO BRASIL. Obituário. 12 ago 1998, p. 11. Disponível em bndigital.bn.org.br Acesso em 05 nov. 2020.

 

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