Construir Resistência
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MANIFESTO

Por Helvidio Mattos 

“Teu choro já não toca meu bandolim
Diz que minha voz sufoca teu violão
Afrouxaram-se as cordas e assim desafina
Que pobre as rimas da nossa canção
Hoje somos folhas mortas
Metais em surdina
Fechada a cortina, vazio o salão
Se os duetos não se encontram mais
E os solos perderam a emoção
Se acabou o gás
Pra cantar o mais simples refrão
Se a gente nota
Que só uma nota
Já nos esgota
O show perde a razão
Mas iremos achar o tom
Um acorde com lindo som
E fazer com que fique bom
Outra vez o nosso cantar
E a gente vai ser feliz
Olha nós outra vez no ar
O show tem que continuar
Nós iremos até Paris
Arrasar no Olympia
Olha o povo pedindo bis
Os ingressos vão se esgotar
O show tem que continuar
Todo mundo que hoje diz
Acabou vai se admirar
Nosso amor vai continuar”

O que se leu acima é a letra de O Show Tem Que Continuar, sucesso de público e renda composto por Sombrinha, Arlindo Cruz e Luiz Carlos da Vila, três sambistas cariocas formados no Cacique de Ramos e com passagens marcantes pelo Fundo de Quintal, grupo famoso de pagode que tem a saudosa Beth Carvalho como madrinha. O Show Tem Que Continuar deu nome ao oitavo LP do grupo lançado em 1988.
Trinta e três anos depois, a letra continua atualíssima e o tema vai muito além da penúria e tristeza que se abatem sobre compositores, intérpretes e músicos quando são incapacitados de criar, de exibir suas habilidades e de impressionar pelos seus talentos a quem os ouvem e os veem.
Não é preciso tentar buscar nas entrelinhas outros sentidos em cada frase da letra do samba. Eles estão ali diante de nossos olhos e de nossas mentes.
“Se os duetos não se encontram mais
E os solos perderam a emoção
Se acabou o gás
Pra cantar o mais simples refrão…
…Hoje somos folha morta
Metais em surdina
Fechando a cortina, vazio o salão”
Não é assim que nós brasileiros nos sentimos neste tempo de ignorância e violência, de 440 mil mortes e de 15.657.391 infectados, e de um Zé Ruela, racista, homofóbico e canalha que habita a Casa de Vidro?
Mesmo assim a esperança vive.
“Mas iremos achar o tom
Um acorde com lindo som
E fazer com que fique bom
Outra vez o nosso cantar
E a gente vai ser feliz
Olha nós outra vez no ar…”
Vamos para as ruas, companheiros. Vamos abrir novas trincheiras. Vamos resistir nem que for na base da porrada. Vamos nos inspirar nas palavras ditas por Salvador Allende em seu discurso histórico naquele sangrento 11 de setembro de 1973.
“Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre para construir uma sociedade melhor”.

 

Helvidio Mattos é um jornalista paulistano que optou por viajar pelos cinco continentes e pelas entranhas do Brasil em busca de histórias humanas e contá-las para quem quisesse ouvir.
E não é que deu certo?

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