Construir Resistência
Foto: Arquivo Pessoal

Madame Casemiro

Por Miriam Waidenfeld Chaves

Parte 1

Tinha 87 anos. Bem vividos, é verdade. Mas na época até  pensei que eu tinha ido pro beleleu.

Estava na cama, assim como qualquer velha da minha idade. A TV estava ligada. E o barulho da água  correndo ali ao lado da janela embalava  as minhas memórias.

De repente, me vi molhada. Encharcada. Não era de mijo. Era da enxurrada que descera da encosta transformando o meu riacho em um caudaloso rio  que engoliu tudo o que viu pela frente.

A correnteza me levou. Estou passando pela casa dos Souza Leite, imaginei. O Zeca está logo ali na minha frente tentando se safar da morte. Engoli muita água. Não conseguia gritar. Respirar direito. De longe escutei uma criança chorando.

Rolei rio abaixo. Quantos metros? A chácara do Florestan já havia passado? Desmaiei. Me agarrei a um tronco, mas depois da curva do rio fiquei à deriva.

Em instantes, vivi uma vida!

Naquela hora, tive que usar de todas as minhas forças. Joguei muito tênis na juventude. Com sessenta, virei adepta do pilates.

Com o fim do temporal, consegui nadar até a margem e lá fiquei até o amanhecer. Apesar do frio, adormeci.

Não sei como me tiraram daquela lama.

Dali, fui parar na enfermaria de um hospital. Depois de três dias me deram alta e me instalaram na quadra de futebol de uma escola municipal da cidade.

Nem deu tempo de reclamar. Cheguei lá, e me deparei com umas 100 pessoas Me lembrei dos hospitais de campanha  montados de última hora para  socorrer os sobreviventes dos bombardeios da Segunda Guerra. Sim, morei em Londres na minha infância.  Meu pai fora embaixador.

Como qualquer uma, tive que me cadastrar. Dizer nome, endereço, telefone de parentes. Menti. Disse que não tinha ninguém. Na verdade, era assim mesmo. Não tive filhos e nunca me dei bem com a minha irmã e suas duas filhas. Só queriam saber da minha herança.

Olhei para aquele mundaréu de gente e compreendi que estava sem a minha casa.  Dormi, depois de uma sopa quente. Acordei com a gritaria da criançada e com o barulho da chuva que não dava trégua.

Chorar? Pela falta da casa que eu e o Jarbas construímos, nem morta!  Aprendi a não chorar. Foi o que mamãe sempre me disse: os Casemiros não choram!

Parte 2

Pelas minhas contas fiquei por lá uns 20 dias.  E logo, fiquei conhecida como Madame Casemiro. Mas, meu nome é Otacília, mesmo!

Para exercitar as minhas pernas, costumava dar uma andada pelo ginásio junto com uma mocinha que todos os dias inventava  alguma atividade para distrair os desabrigados.  Me disse que se chamava Márcia e que gostava de ajudar os outros. De resto, ficava numa cama que arranjaram para mim. Apenas pedi para a colocarem em uma posição onde eu pudesse observar  o movimento. Sempre fui voyer.

Acabei fazendo amizade com uma família  que armou uma pequena tenda ao lado da minha cama. Perderam tudo, como eu. Eram pobres. Eram alegres.  Nunca entendi o bom humor dessa gente.

Certa manhã,  me disseram:

– Madame Casemiro, a senhora pode segurar a Soninha prá gente? Disseram que acharam o corpo de uma criança e que pode ser o Francisco. Tá lá no necrotério. A gente tem que correr prá lá.

Sem tempo para recusar, me vi segurando um ser estranho, molengo e pretinho. Os dois mais velhos, com uns quatro e cinco anos, olharam pra mim, de olho no meu chocolate.

Sim, eu tinha guloseimas debaixo do travesseiro.  Havia pedido para a Márcia em meu nome comprar algumas coisas lá na Delicatessen do Gil, que nessa altura do campeonato já estava funcionando.

Devoraram o chocolate em um minuto. Eu, com os braços já dormentes,  segurei Soninha por um bom tempo. Olhei para ela e, de repente, encontrei a sua graça: uns olhinhos revirados, uma mãozinha na boca e as perninhas arcadas.

Arrumei sua manta. Os meninos depois do lanche dormiram. E eu me recostei na cabeceira da cama. Tirei um cochilo com Soninha nos braços.

Acordei com a algazarra no ginásio. Não era de jogo, claro.

Era a algazarra de quem só tinha aquele espaço para brincar, brigar, comer, trepar. Era já uma pequena cidade. Até camelô vendendo bugigangas existia.

Quando os pais de Soninha adentraram no ginásio, a cara de felicidade de ambos me comoveu. Não era de Francisco, o corpo no necrotério.  Para comemorar, mais chocolate e biscoitos escoceses amanteigados.

Será que essa tragédia estava me amolecendo? me questionei.

Parte 3

Depois daquele pesadelo, Mathias, meu advogado,  providenciou  a venda do terreno com o fatídico riacho e a compra de uma casa na cidade.

Retomei minha vida, mas, principalmente,  convidei a família de  Soninha para vir morar em minha nova casa. Estabeleceram-se em um bangalô ao lado da piscina. Queria gente por perto de mim!

Ninguém gostou dessa minha decisão. Mathias acreditou que deixaria de ser o meu único conselheiro. Os Sousa Leite logo  desconfiaram daqueles novos moradores. E minha irmã, então, nem se fala.

Enquanto isso, a família de Soninha ficou bastante satisfeita. Com a vida em ordem como meus empregados e com os filhos finalmente reunidos, gozaram de dias serenos.

Dois anos se passaram e, um mês depois da leitura de meu testamento, os pais de Soninha foram presos, acusados de terem me envenenado.

Mathias e minha irmã, inconformados, por eu tê-los transformado em meus herdeiros, não perderam tempo e  os denunciaram.

Hoje ainda estão presos. Aguardando o veredicto do juiz.

Enfim, quando fiz 90 anos, já começando a cambalear, lembrei-me de minha mãe me dizendo “os Casemiros não choram”.

Desde aí conclui que eu definiria o dia de meu fim. E assim foi.  Apenas espero que a minha vontade lá na Terra seja cumprida e que minha irmã, Mathias e os Souza Leite vão todos para a puta que os pariu!

 

Miriam W. Chaves é contista e professora da UFRJ.

 

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