Construir Resistência

Lula ainda quer Josué; Alckmin é sua 3ª via de luxo

 Por Nairo Alméri 

O pré-candidato Luiz Inácio Lula da Silva, ainda não oficializado pelo PT, ainda mantém o propósito de ter o empresário Josué Chistiano Gomes da Silva como vice. Portanto, desconsidera a negativa gravada em vídeo, há mais tempo, pelo próprio dirigente do Grupo Coteminas. Josué toma posse como presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) em 1º de janeiro. Políticos que cercam Lula acreditam, então, que, ao sabor da festa, aumentam as chances de aceitar posto vice petista nas eleições para Presidência da República, em novembro.

Josué é filho de José Alencar Gomes da Silva. Este foi vice de Lula em 2002 e 2006.

A Fiesp começará 2022 com R$ 320 milhões e mais quebrados em caixa, revelou ao ALÉM DO FATO empresário conhecedor da política patronal da entidade.

A posse do dirigente da Coteminas terá, portanto ingredientes políticos extras. O evento servirá, por exemplo, definições preliminares na bateada de posicionamentos. Primeiro, é conferir convidados e não convidados. Depois, quem irá para mesa e quem ficará na plateia. Ou seja, alguns sobrarão, de cara, no rumo da política que Josué Gomes da Silva imprimirá nos corredores do prédio inclinado da Avenida Paulista.

Por tradição, o presidente da República sempre é um convidado. Mas, Jair Bolsonaro é adversário de Lula. Além disso, esteve semana passada na Fiesp. Foi decorar a saideira de Paulo Skaf, depois de 17 anos no comando.

O futuro ex-presidente da federação coleciona derrotas nas tentativas virar governador de São Paulo e aposta em apoio por vias tortas. Skaf banqueteou Bolsonaro com uma claque. A plateia se comportou de forma exemplar no cardápio da subserviência: aplaudiu o chefe do Planalto nas novas asneiras e ataques contra o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Festa com recheio de separatismo

O governador do Estado, no caso João Doria (PSDB), também, por deferência e indução de pleitos do empresariado regional, puxa cadeira. Segue em mesmo rito chamar o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). Doria anuncia que fará campanha contra Lula e Bolsonaro, se ficar fora do 2º turno. Nunes, por sua vez, é do partido comandado por Michel Temer. O ex-presidente é acusado de trair Dilma Rousseff, de quem foi vice duas vezes. Nestes tempos, se aproximou muito do sucessor.

Mas, claro, os holofotes iluminam o andar de cima, fora do cotidiano paulista. O futuro presidente da Fiesp colocará sobre os nomes de Bolsonaro e Lula?

Cabe mesma indagação para o time dos postulantes da chamada 3ª via na disputa pela Presidência da República. Nesta longa raia, figura o próprio Doria. Mas, pelo Datafolha, tem maior visibilidade Sérgio Moro (Podemos). O ex-juiz federal e ex-ministro da Justiça do Governo Bolsonaro mandou Lula para cadeia. Em fato mais recente, abandonou o barco de Bolsonaro, ao qual acusou de vários atropelos. A gota d’água foi a intervenção na Polícia Federal.

Independente de correntes de pensamento, o sindicalismo do empresariado da indústria homenageia o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). No momento, a entidade de Brasília é dirigida pelo também mineiro Robson Braga de Andrade. Está lá desde 2010. Robson Braga investiu (e gerou polêmicas) e abocanhou mais um ano no posto. Portanto, ficará até outubro de 2023.

Aceno da encruzilhada

Mas como agirá o futuro presidente da Fiesp, que, a exemplo do pai, amargou fracasso na primeira tentativa na política? Agora, com a Fiesp no papo, deve estar passando noites de insônias, ouvindo a voz rouca do convite tornado público precocemente por Lula. O petista, por indicação de alguém, agiu tentando comprometer, logo, o empresário.

Mas, Josué ainda não colocou seu DNA no grupo empresarial herdado do pai para dirigir. Ou seja, não tem histórico para arrebanhar multidões do seu quintal. Além disso, é inexperiente no comando de entidade empresarial como a federação paulista. O pai, até figurar por duas vezes, como vice, no santinho de Lula, criou alguns calos como dirigente no patronato.

Variáveis políticas no caminho de Josué

É possível que os conselheiros políticos (se os tiver) de Josué sugiram, num primeiro passo, que permaneça na Fiesp. Podendo, entretanto, marcar presença discreta na seara das negociações políticas. Contudo, ainda lhe falta molejo político. É mineiro, mas nunca esteve mineiro na política, ou seja, respirando aquilo se atribui (com bajulação exagerada) aos ensinamentos na vida partidária em Minas Gerais.

Poderá ser que aconselhem, seguir em via de maior cautela. Aplicar uma demão de cola a mais na cadeira de capitão da indústria, e, de imediato, assumir postura reformista. Colocar projeto de visão ampla à frente. Enveredar, então, por linha de democracia não maculada nos escândalos políticos das últimas décadas. Neste caso, então, amoitaria o inconfundível prédio paulistano sob manto que não reflita luz nem cheiro: opaco e inodoro.

Ainda na opção reformista, caberia batina mais radical. Ou seja, afixar um outdor na cobertura da Fiesp com um não rotundo para todos, de Fernando Collor de Mello a Jair Bolsonaro. Isso não respingaria na memória do pai. O fundador da Coteminas não era do PT e, além disso, nunca comungou no catecismo do sindicalismo dos trabalhadores. O filho, portanto, daria partida a novo alicerce político: fazer bem na Fiesp (e não será difícil em cima da base deixada por Skaf), olhar para CNI (em 2023) e, se obtiver sucesso, jogar pesado em tentativa de mandato eletivo de expressivo.

Portanto, cabe olhar para convidados (presentes) e barrados da festa do dia 1º de janeiro, na Avenida Paulista.

Alckmin, caçador de pombos

O ex-governador paulista Geraldo Alckmin, fora do PSDB, aparece bem posicionado nos gráficos daquele instituto de pesquisa de intenção de votos. Ou seja, com chances de retorno ao governador de São Paulo. Sua vida, portanto, parece melhor encaminhada, no momento.

Alckmin, nesse cenário, vira 3ª via de luxo para o PT, na escolha do vice de Lula. Os dois se encontraram no domingo (19). Mas, resta saber se o ex-governador abraçará o risco. Pela pesquisa, praticamente trocaria o pombo dos Bandeirantes na rota das suas mãos, por aceno de outro, que ainda voará longe, com figurino no porão do Planalto!

Na hipótese de vice de Lula, o PT transforma Alckmin num general Mourão: inexpressivo. Como governador de São Paulo, terá importância na vida política do país e comandará o maior Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Ao ex-governador, então, se ocupa mais com o anúncio por qual partido decolará. E, seja para onde for, poderá ter apoio do petista. O noticiário o coloca na cabine do PSB.

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

Nairo Alméri é jornalista com 45 anos de profissão, especializado em Economia e P,D&I (mineração, siderurgia, mercado de capitais, gestão empresarial, seguro internacional, agronegócios etc.)

Matéria publicada originalmente no link abaixo, no site Além do Fato

 

https://alemdofato.uai.com.br/sobre/

 

Nota da redação: matérias assinadas não representam necessariamente a opinião de Construir Resistência

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