Loucura e a transgressão

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Por Beatriz Herkenhoff

Temáticas recorrentes no cinema espanhol, italiano e chileno

Não é fácil dialogarmos com nossos limites, carências e insanidades. Mas, a cura interior passa pelo encontro com aquilo que negamos em nós. E essa negação nos leva a apontar o dedo para a loucura do outro, sem perceber que nesse gesto os outros dedos ficam apontados para nós.

A arte cinematográfica possibilita esse encontro comigo mesma: enxergar as sombras que são minhas e não do outro. Vou comentar sobre alguns filmes que indiquei ao final da crônica “A loucura que habita em nós”.

Após cada filme, saímos questionando: quem é o louco realmente?

Loucas de Alegria (2016) é um filme italiano que nos leva a dialogar com a loucura que pode acometer pessoas de todas as classes sociais. O diretor Paolo Virzì conduz essa comédia dramática de forma impecável. Envolve, toca, sensibiliza, nos faz rir, emocionar e torcer pelas protagonistas.

Uma linda história de amizade, cumplicidade. Empatia, solidariedade, identidade entre duas mulheres diagnosticadas como “loucas” e que buscam o seu caminho, a sua cura, a superação de suas dores e traumas.
Para completar a beleza do filme, ele se passa na Itália, país pioneiro na luta antimanicomial. Onde o tratamento num hospital psiquiátrico pode significar esperança e não a reprodução permanente da loucura.

Ninguém sabe que estou aqui (2020) é um filme chileno que revela aos poucos o segredo de um jovem que vive isolado em uma ilha onde mora com o tio. De poucas palavras, fechado em seu próprio mundo e atormentado por lembranças traumáticas da infância.

Aos poucos o seu segredo do personagem é revelado. Uma história forte sobre as consequências da negação do outro, quando os interesses financeiros sobrepõem a relação de amor e o desabrochar das potencialidades.

Não estou louca (2018) é uma comédia chilena de superação e redescoberta feminina.

Após uma experiência de traição, a protagonista vai parar numa clínica de reabilitação. Quando aprende a gostar de si e retomar as rédeas de sua vida.

Dezessete (2019) película espanhola sobre transgressão. Jovem de 17 anos rouba um respirador para a avó. É denunciado pelo próprio irmão (que quer corrigi-lo) e vai para o reformatório. Quando foge, vive uma jornada curativa na companhia do irmão mais velho, da avó e de um cão.

Uma bela história sobre a complexidade dos relacionamentos familiares, solidão, abandono, contravenções, mágoas, desencontros, afastamentos e o resgate através do diálogo e vivências que vão revelando a essência de cada um. Quando as famílias rotulam seus membros, ou criam um bode expiatório, não conseguem perceber a luz que há no outro.

A Juventude (2015) italiano, do diretor Paolo Sorrentino, nos leva a repensar a vida, nossos valores e crenças; nossas potencialidades, limites e como queremos envelhecer (o que agregar, o que descartar, o que elaborar em termos psíquicos e afetivos).

A trilha sonora e a fotografia são belíssimas. Paisagens de tirar o fôlego! Os diálogos existenciais são primorosos.

O diretor aborda com seriedade e ao mesmo tempo com leveza: o passado, o presente e o futuro; a vida e a proximidade da morte; as relações de amor; de amizade; o envelhecimento; as frustrações; os bloqueios, as mágoas, as insatisfações, tudo que paralisa e que tira a possibilidade de acreditarmos em nós mesmos. Todos carregam raivas agudas em seu âmago e que em algum momento do filme vai explodir e sair (sempre através de belos diálogos). O filme contrasta permanentemente a juventude e o envelhecimento, mas, sem fazer distinção, como se ser jovem fosse algo bom e ser idoso fosse ruim. Pelo contrário, em qualquer idade somos desafiados a lidar com: a frustração; a decepção amorosa e as perdas.

Loucuras de Amor (2021) uma comédia romântica espanhola que aborda com seriedade, respeito, cuidado e delicadeza a temática dos distúrbios mentais, como: síndrome de Tourette, bipolaridade e outras síndromes obsessivo-compulsivas. Apesar de ter momentos divertidos, o filme mostra a dor vivida por aqueles que são portadores de transtornos mentais e por aqueles que com eles convivem.

Somos convidados a identificar concepções equivocadas que nos acompanham e a refletir sobre o amor verdadeiro, quando assumo o outro com suas diferenças e singularidades. Ao invés de tentar muda-lo para que se encaixe numa suposta normalidade social.

Loucas de alegria /Imagem: reprodução

 

Beatriz Herkenhoff é cinéfila e testemunha da importância da terceira arte nesses tempos de #isolamentosocial. Doutora em serviço social pela PUC São Paulo, professora aposentada da Universidade Federal do Espírito Santo.

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Uma resposta

  1. Beatriz, que linda interpretação você faz dos filmes!
    Assisti a alguns da sua lista de hoje. Eu escolho os filmes por indicação, pela crítica ou pela sinopse, pensando que cada um que assistimos tem potencial para deixar um pouquinho dele em nós, mesmo que apenas momentaneamente.
    Amo assistir filmes em cinemas, pelo ambiente em si, pelas pessoas que vejo, mas o cinema em casa tem uma vantagem: posso assistir de novo partes que ficaram dúvidas para mim ou o filme todo. Na pandemia temos assistido muitos por indicação sua aqui neste espaço! Obrigada.

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