Construir Resistência
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Já vimos esse filme…

 

Roberto Garcia

 

Batidas na mesa, berros, exigências de satisfação. Esses foram os lances da reunião desta última terça feira (30) entre o novo ministro da defesa e os comandantes do exército, marinha e aeronáutica.

O ministro da marinha era o mais enfático. Recusava-se a admitir uso político das forças militares pelo presidente da república, no embate contra governadores. Braga Neto, o novo ministro da defesa, exigia obediência às ordens, subordinação. A resistência dos comandantes foi resolvida de forma sumária. Os três foram demitidos.

O racha ficou claro. Nem mais nas forças armadas, que lhe tinham sido fiéis até agora, ele pode confiar. Sua massa de manobras diminuiu. Ele está encurralado. Restam-lhe poucos recursos. De seguidores fanáticos.

Nos últimos tempos esses seguidores foram estimulados a se armar. Além disso, Jair Messias não perdia uma formatura de policiais, em vários estados. Por um motivo óbvio: há muito mais policiais no Brasil do que tropas do exercito, da marinha e aeronáutica. Indo às formaturas, acariciando os novos soldados, ele criava aliados, todos armados. Formou uma força paralela. Seu plano era óbvio desde o começo, para quem quisesse ver.

Outra parte do plano era ainda mais audaciosa. Começou a nomear militares para cargos civis. Não apenas um ou outro. Milhares. Os calculos variam, uns dizem que foram oito mil, outros dizem que chegaram a doze mil. Esse pessoal reteve os salários militares. Mas passaram também a receber os salários das novas funções civis. Dobravam a renda. Quem não gosta de dobrar o salário. Quem não fica fiel a quem dá essa mamata?

Apesar disso, muita gente achava que nada disso era anormal. Os poderes funcionavam normalmente, imprensa também, não havia razão para alarma, afirmavam. Mas os capítulos da plano se desenrolavam à luz do dia. Jair e seus seguidores testavam diariamente os limites, viam de onde surgiam as resistências, sugeriam fechamento do Supremo, do Congresso também. Estimulavam ataques à imprensa. Apontavam inimigos para que fossem visados.

Conseguiu colocar seus aliados mais agressivos em cargos chaves. Na famosa reunião ministerial de abril do ano passado, que foi gravada e exibida por decisão judicial, Jair revelou que tinha seu próprio sistema de informações, paralelo. Os policiais militares são parte das forças paralelas. Os militares nos cargos civis controlam o aparato do estado. Paralelamente. O mapa está cada vez mais claro.

Mas numa parte falhou. Bolsonaro contava com o apoio do presidente dos Estados Unidos. Aliado melhor não poderia haver. Fez campanha, o filho andava com camiseta e boné de apoio a Trump. O capitão falava claramente da sua preferencia. Mas Trump perdeu a eleição. Tentou manter-se no cargo mesmo derrotado. Promoveu uma invasão do congresso. Pressionou governadores a fazerem recontagem dos votos da eleição. Em conversas gravadas, instou-os a encontrar uma forma de virar os resultados. Não sossegou. Mas perdeu.

Mesmo com esse esquema de sustentação internacional furado, Jair Bolsonaro não desiste. Estimula os policiais militares a se rebelarem contra os governadores dos estados. Recorre até ao Supremo Tribunal para inibi-los. Surpreendentemente, desse canto inesperado surge a maior resistência.

Depois disso, outras bases de apoio começaram a se dissolver. A comunidade empresarial, que tinha embarcado de cabeça em suas águas, percebe uma coisa elementar. A política de supressão de direitos da grande massa assalariada reduz os consumidores. Sem eles, o comércio não anda tão bem. O milagre econômico prometido não se realiza. Os investidores estrangeiros retiram dinheiro do país, percebem que o lucro pode ser alto mas pode não durar. Empresas tradicionais, de grande nome, anunciam fechamento de suas fábricas.

A midia toda poderosa, outra aliada importante, também percebe a fria. E Jair contribui para o desconforto dos grandes jornais ao tirar a publicidade oficial deles. Desloca anúncios da maior rede para premiar as redes religiosas e as declaradamente picaretas. É aí que começam críticas mais agressivas.

Talvez nada disso tivesse levado ao rompimento se não fosse a pandemia. Essa foi de arrasar. Em vez de proteger a população, Jair promove medidas que matam. De repente, o Brasil vira campeão das mortes. Todo mundo vê. Até muitos dos entusiastas do capitão presidente começam a se desanimar. Não é só embaraço, é vergonha.

Os capítulos do plano ficaram evidentes. Suas consequências nefastas também. Ele e os poucos aliados que ainda restam querem insistir. Mas a nação inteira já duvida, não quer ir para o caminho que ele aponta.

Em seu primeiro ato como ministro da defesa, o general braga neto diz que o golpe militar de 64 deve ser celebrado, por ter pacificado o pais.

Ja vimos esse filme em muitos lugares. Não dá certo. Vai persistir?

 

Roberto Garcia é jornalista.

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