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Fachada do Instituto Pretos Novos

Instituto Pretos Novos: um grito contra a barbárie

Por Syvia Leite – Blog Lugares de Memória 

Um blog de viagens que dá ideias, desperta desejos ou faz você viajar sem sair de casa.

Fachada do Instituto Pretos Novos

Quem vai ao Rio de Janeiro, e quer conhecer um pouco de sua história, não pode deixar de visitar o Instituto Pretos Novos (ou Iinstituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos – IPI) no bairro da Gamboa, região central da cidade. Ali se concentra a memória da chegada dos africanos escravizados à cidade maravilhosa e da vida que levavam no cativeiro. E o mais importante: a sede do instituto ocupa o terreno que foi usado, entre 1769 e 1830, para enterrar os que morriam depois da entrada dos navios negreiros na Baía de Guanabara, ou logo após o desembarque no Cais do Valongo1.

A descoberta do sítio arqueológico ocorreu por acaso, em 1996, quando os proprietários do imóvel – a família Guimarães dos Anjos – iniciou uma reforma que exigiu escavações. Sob o solo foram encontrados fragmentos de cerâmica, vidro e ferro misturados a ossos humanos.

Os arqueólogos, historiadores e bioantropólogos que realizaram a identificação dos achados arqueológicos e fizeram a confirmação de sua origem, catalogaram mais de 5 mil fragmentos e 28 corpos, a maioria de homens jovens com idades entre 18 e 25 anos. E foi a existência desse sítio que levou Merced e Petrúcio Guimarães dos Anjos, a criar, em 2005, o Instituto dos Pretos Novos.

O Cemitério dos Pretos Novos

Pretos novos era a denominação dada aos africanos recém-chegados. Nesse momento inicial, os cativos eram chamados, também, de boçais – expressão usada para designar pessoas incultas ou grosseiras e, nesse caso específco, fazia referência ao fato deles ainda não terem aprendido o Português.

Depois que eram vendidos e aprendiam a língua dos ‘senhores’, passavam a ser chamados de ladinos – palavra que significa esperto, e, no caso dos escravizados, se aplicava àqueles que além de conseguirem se comunicar, eram considerados aptos aos trabalhos domésticos, enquanto os pretos novos ou boçais eram encaminhados à lavoura.

Estima-se que tenham sido enterrados nesse local, onde hoje funciona o Instituto Pretos Novos, cerca de 60 mil africanos2 trazidos por navios negreiros e mortos no final da viagem ou depois do desembarque no Cais do Valongo. Esse número corresponde a 3 por cento dos cerca de 2 milhões de escravizados desembarcados no Rio de Janeiro entre os séculos 18 e 19 e a 6 por cento dos cerca de 1 milhão que chegaram específicamente pelo Valongo.

Segundo registros históricos, as mortes aconteciam porque as viagens eram longas e penosas. Duravam cerca de 40 dias e durante esse período os cativos permaneciam em porões sem ventilação, sem higiene e com alimentação restrita, limitada a pequenos pedaços de carne seca, farinha e uma pequena quantidade de água, o que afetava, principalmente, jovens e crianças. Muitos ficavam pelo caminho, nas também era grande o número dos que morriam na chegada.

Seus corpos eram enterrados sem caixão e sem qualquer ritual, envoltos, quando muito, em pedaços de esteira, como denuncia Julio César Medeiros da Silva Pereira no livro “À flor da terra: o cemitério dos pretos novos no Rio de Janeiro”.

Segundo relato do Curador do IPI, Marco Antonio Teobaldo, em texto exposto no Instituto Pretos Novos, muitos corpos eram  ‘desmembrados, queimados e espalhados pelo terreno, cobertos apenas com algumas pás de terra”. Ele afirma, ainda, que após o encerramento dos desembarques de negros na região, em conseguência da proibição do tráfico negreiro, a população do entorno jogava lixo no terreno.

O local onde hoje funciona o Instituto Pretos Novos não foi o único cemitério de escravizados do Rio de Janeiro. Inicialmente, os corpos eram jogados no Largo de Santa Rita, também no Centro da cidade, local onde funcionava anteriormente o Mercado de Escravos. Em 1860, o mercado foi transferido a pedido de moradores do entorno, que não aceitavam a presença dos negros, vivos ou mortos, nas proximidades de suas casas.

O Instituto Pretos Novos

A memória dos enterros constitui o ponto de partida do Instituto Pretos Novos. Os achados arqueológicos que servem como testemunho de toda essa história são as peças principais do acervo, com destaque para as ossadas de escravizados expostas em duas aberturas no piso, cobertas por placas de vidro. Entre os materiais encontrados no sítio arqueológico estão também fragmentos de objetos sagrados, de peças de vestuário e de utensílios domésticos, nem todos de origem africana.

O Instituto Pretos Novos mantém, ainda,um laboratório arqueológico onde são feitas escavações e análises. Embora o acesso seja restrito à equipe de pesquisadores, os visitantes podem observar toda a movimentação através de uma parede de vidro.

A realidade dos escravizados que sobreviviam à viagem é mostrada por meio documentos, ilustrações e até recortes de jornais que chamam a atenção pela naturalidade com que a condição dos escravizados era tratada. Anúncios ofereciam recompensas pela captura de fugitivos, colocavam negros à venda, especialmente mulheres, ou anunciavam o interesse de comprá-las.Anúncio de ama de leite - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIA

Na maioria dessas peças publicitárias, as escravizadas eram descritas como simples mercadoria, com detelhamento de qualidades pessoais, muitas vezes acompanhadas de insinuações como no texto apresentado a seguir: “Vende-se uma preta, muito moça com cria; sabendo lavar perfeitamente, e bem desembaraçada para o serviço doméstico: é muito sadia, e o motivo da venda é não querer servir mais aos seus antigos senhores […]”

Eram comuns esses anúncios de compra ou venda de amas de leite – uma condição descrita pelo IPN como extremamente violenta, na medida em que essas mulheres eram obrigadas a deixar de alimentar seus próprios filhos para amamentar crianças brancas. Isso sem falar dos maus-tratos físicos que já foram amplamente divulgados por livros, filmes e novelas de televisão.

Arte, Educação e Pesquisa

Mas o Instituto Pretos Novos vai além do acervo arqueológico e do registro histórico da chegada e das condições de vida dos negros escravizados no Rio de Janeiro. Ao lado da exposição permanente e do laboratório Mapa do Circuito Histórico de Herança Africana - Imagem do site do IPI - BLOG LUGARES DE MEMORIAarqueológico, o IPN mantém uma sala de exposições temporárias e uma biblioteca com mais de mil volumes. Realiza, ainda um programa educacional.

A galeria de arte recebe, desde 2012, exposições e ocupações artísticas voltadas para temas como Direitos Humanos, Questões Raciais e Igualdade de Gênero, além de temas relativos à Cultura de Matriz Africana. A mesma temática é explorada em oficinas presenciais e eventos online que tratam, também de questões patrimonias. O Instituto dos Pretos Novos oferece, ainda, cursos de pós-graduação Latu Sensu.

Mas o que promete atrair cada vez mais participantes é o Circuito de Herança Africana criado pelo Instituto Pretos Novos com o fim de apresentar lugares históricos e divulgar a história da escravidão do Rio de Janeiro. A aula-passeio dura cerca de duas horas e passa por 12 pontos da chamada Pequena África, região onde se encontra o próprio instituto e o Cais do Valongo – sítio Arqueológico descoberto durante as obras do Porto Maravilha  onde ocorriam os desembarques dos escravizados.34

Notas

  •  1  O Cais do Valongo, onde ocorriam os desembarques na fase final do tráfico de escravizados, foi descoberto durante escavações para a construção do Porto Maravilha e será tema de matéria aqui no blog
  •  2  Há divergências quanto ao número de sepultamentos. Algumas fontes falam em pelo menos entre 20 mil e 30 mil. A informação de 60 mil foi retirada de texto exposto no Instituto Pretos Novos e assinado pelo curador do museu Marco Antonio Teobaldo
  •  3  Leia, aqui no blog, matérias sobre outros lugares de memória do Rio de Janeiro: Museu de Imagens do Inconsciente / Castelo Mourisco Casa da Gávea
  •  4  Leia, também, matérias sobre bairros, povoados ou cidades com forte influência da cultura-afro-brasilreira: Saracura / Bixiga / Mussuca / Liberdade /

Instituto Pretos Novos – Gamboa – Rio de Janeiro – Rio de Janeiro – Brasil – América do Sul

Texto

Fotos

  • (1,2,3,4,5) Sylvia Leite
  • Site oficial do Instituto Pretos Novos

Referências

Participação especial

  • Augusta Leite Campos, cardiologista e geriatra
  • Clara Leite de Rezende, desembargadora aposentada

 

Matéria publicada originalmente no link abaixo do Blog Lugares de Memória 

 

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